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As Raizes de Amora

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

A Marcha Popular de Amora em 1940

30.11.20, os amorenses

A MARCHA POPULAR DE AMORA EM 1940 

Largo do Cruzeiro na Amora de Cima Inicio dos Anos 
Arco da Marcha no Largo do Cruzeiro na Amora de Cima Inicio dos Anos 50 Sec XX - foto Maria da Conceicao Lousada

A 28 de Junho de 1940, entre o São João e o São Pedro, desfilou pelas ruas de Amora uma marcha popular, que foi organizada pela
"Sociedade Filarmónica Operária Amorense".
 

Sob a direção do senhor António Pedroso e ensaiada pelo senhor Baptista Cunha, era esta marcha constituída por vinte e dois pares de rapazes e raparigas, que, segurando arcos artisticamente engalanados, deram às ruas de Amora um colorido, que os mais velhos ainda hoje não esquecem. 

A marcha, que foi ensaiada no pátio da Quinta da Vinha Grande, saiu da SFOA por volta das 21 horas, foi dar a volta à correnteza dos alemães, dirigindo-se para os lados da Medideira e Amora de Cima, até chegar ao Adro da Igreja.

Grupo de Rapazes e Raparigas que fizeram parte da Grupo de Rapazes e Raparigas que fizeram parte da Marcha de Amora organizada em 1940 - foto Messias

 

 Os arcos, muito bonitos, enfeitados com festões e balões de papel de seda, destacavam entre outros motivos os seguintes:
Igreja de Nossa Senhora do Monte Sião, Coreto da Praça 5 de Outubro, Frontispício da SFOA e Palácio do Infante.
 

Os figurantes desta marcha popular dançavam e cantavam duas letras, uma da autoria de Amélio Baptista Cunha (sobrinho do ensaiador) e outra   do   capitão José   Gonçalves Louro.  Ambos os versos foram musicados pelo maestro Álvaro de Sousa.

Maestro Alvaro de Sousa, autor da Musica sa Marcha

 Maestro Alvaro de Sousa, autor da Musica da Marcha da Amora Anos 40 Sec XX - foto SFOA

Acompanhados por um grupo de músicos da SFOA, cerca de oito a dez músicos (um cavalinho), os figurantes com os seus arcos e balões iluminados, fizeram com que toda a gente viesse para a rua ou se assomasse às janelas e varandas para aplaudir, vibrantemente, a marcha à sua passagem. Interessante é referir igualmente que, um dos principais motivos aplicados nas blusas brancas, dos trajes das raparigas era exatamente as folhas de amoreira e as amoras, numa alusão ao próprio nome da Terra. 

Dizia na época o jornal "A voz do Seixal" que, "do alto das escadarias da Igreja de Nossa Senhora do Monte Sião, foi bonito de se ver o conjunto dos marchantes, subindo à Amora de Cima." 

Já em 1 de outubro de 1940, cerca de três meses mais tarde, o mesmo jornal escrevia: "Por convites que lhe foram dirigidos, a marcha Amorense tem feito várias exibições no nosso concelho e no concelho vizinho de Almada.

Brevemente fará a sua exibição na Exposição do Mundo Português, fazendo-se acompanhar de uma excursão de habitantes desta risonha localidade." 

Diz-nos   hoje Joaquim   "Jota", também ele nessa altura marchante, que nos dois ou três anos seguintes ainda houve marcha, mas que já não foi tão grandioso como da primeira vez. Refere, igualmente, que este grupo   de   rapazes   e   raparigas, os figurantes da marcha popular, foram mais tarde ter com o senhor António Pedroso (ensaiador), para formar um grupo dramático que se viria a chamar "Os Inquietos". 

Marcha Popular ensaiada por Joaquim Jota e Organiz

Marcha Popular ensaiada por Joaquim Jota e Organizada no Patronato de Amora CAPA - Foto da Familia de Joaquim Jota

Cerca de um quarto de século mais tarde, festas dos Santos Populares relativas ao ano de 1968, uma outra marcha saiu às ruas de Amora, também ela abrilhantada pelos jovens da Terra, mas, talvez porque os tempos eram outros, não teve tão grande impacto nos habitantes locais, como teve a dos anos 40. 

fonte: "Amora Memorias e Vivencias d'Outrora" do Prof. Manuel Lima e colaboração de Tulio Soares

Ao longo dos Anos em que se organizaram as marchas, várias foram as letras que foram compostas e desfiladas, deixamos algumas delas:

 1 - Marcha de Amora "A Minha Terra", de Amélio Baptista Cunha com Música de Álvaro de Sousa - 1940

I 
La vai Amora 
Cheia de alma e nobreza 
A cantar a e a sorrir 
Vai a mocidade aplaudir 
A bela raça Portuguesa 

II 
A nossa terra 
Que é grande e hospitaleira 
Já mais praticando o mal 
Honra o nosso Portugal 
E a sua Gloriosa Bandeira 

REFRAO 
De heróis cavaleiros 
A povo marítimo e rural 
Não esquecendo os garrafeiros 
Que deram nome a Portugal 

Cultiva hoje a cortiça 
Que o mundo todo cobiça 
P’la riqueza Nacional 

III 
É nosso berço 
E em tempos bem remotos 
Foi pousada de guerreiros 
Como atuais corticeiros 
Oferecemos os nossos votos 

IV 
Da tradição 
Nossos avos à proa e ré 
Foram honrados fragateiros 
Hoje somos corticeiros 
Dos Produtos e da Mundet 

REFRAO 

===

 2 - Marcha de Amora 
Letra e música de Emilio Rebelo dedicado aos Amorenses 

I 
Quem quer ver a nova Amora 
Como é linda como e bela 
Va vê-la de lado a lado 
Va vê-la de lado a lado 
Veja bem como está bela 

II 
Já não vê aquela Amora 
Dos tempos que já lá vão 
Vê uma Amora moderna 
Vê uma Amora moderna 
Que lhe encanta o coração 

REFRÃO 
Amora Amora 
Que futuro será o teu 
Já não es aquela Amora 
Já não es aquela Amora 
Do Sião e do Judeu 

Amora Amora 
Das casas em correnteza 
Já não es aquela Amora 
Já não es aquela Amora 
Que traçou a natureza 

Amora Amora 
Quem te vê e quem te viu 
Já não es aquela Amora 
Já não es aquela Amora 
Pequenina junto ao Rio 

Amora Amora 
Cheia de graça e beleza 
No despertar d’outra aurora 
Caminhas pela vida fora 
Com princípios de grandeza 

III 
Amora nasceu campestre 
Logo assim foi um amor 
Hoje pra lembrar o campo 
Hoje pra lembrar o campo 
E uma linda flor 

IV 
Amora fez-se tão bela 
Que a brilhar foi um cristal 
Quem sabe o nome dela 
Quem sabe o nome dela 
Vai ser grande em Portugal 

REFRÃO 

As Festas dos Santos Populares nos Anos 30-40

29.11.20, os amorenses

AS FESTAS DOS "SANTOS POPULARES" EM AMORA, ANOS 30/40

Antonio Trindade proprietario em Amora com familia

Antonio Trindade proprietario em Amora com familiares e amigos Ano de 1927 - foto da Familia Trindade

De acordo com os testemunhos recolhidos junto dos mais velhos nascidos em Amora, ficámos a saber que, há cerca de oitenta/noventa anos, as festas dos "Santos Populares" feitas nesta freguesia eram muito animadas. 

Nessa altura, em que a pobreza era muita e em que não havia dinheiro para gastar, o povo divertia-se como podia e à sua maneira, estabelecendo-se entre os poucos habitantes residentes laços profundos de amizade   e   de solidariedade, que ainda hoje são recordados pelos mais idosos com nostalgia. 

Os maiores arraiais montados no tempo dos "Santos Populares" nesta freguesia eram os de Amora de Baixo, embora mesmo dentro desta zona ribeirinha existissem vários locais de animação. 

Segundo Alfredo Duarte Alminhas, um desses arraiais era feito na Avenida Silva Gomes, no terreiro ao lado da antiga escola dos Alemães. Também nos diz Pastora Lira que, apesar de haver arraial junto à capela de Nossa Senhora da Piedade, na Fonte de Cima, os maiores arraiais, eram os que se faziam no Largo das Lobatas e no Largo do Chafariz, (hoje Manuel da Costa) em frente da padaria do "Galego". 

A armação dos arraiais, para além das varas, era feita essencialmente com o entrelaçar de plantas silvestres, que se iam buscar ao mato, onde se incluíam as urzes e o medronheiro. Nalguns Casos Utilizavam-se igualmente folhas de palmeiras, das que existiam plantadas junto de algumas, importantes, propriedades. 

No centro dos arraiais eram, nalguns casos, feitos autênticos altares ou tronos, onde se colocava a imagem do Santo festejado, o Santo António, o São João ou o São Pedro. 

Os tronos eram normalmente muito bem ornamentados   com flores   e   devidamente   iluminados com velas de várias cores, o   que transmitia um carácter solene e religioso às festividades. 

Conta-nos Joaquim "Jota" que num dos anos desta década de trinta, se fez um trono a Santo António muito bonito, em que existia uma bilha, da qual escorria água, como se de uma cascata se tratasse. 

"Outro   motivo   fundamental destes   arraiais, diz-nos, igualmente, Joaquim "Jota" "eram as grandes fogueiras, para as quais se carregavam as lenhas de véspera.  

Largado o fogo ao escurecer, estavam   acesas durante toda a noite. Os mais novos, rapazes e raparigas, saltavam sobre as labaredas, e à volta estava o povo, muitas vezes de mãos dadas, fazendo o baile e cantando o "Vai de roda, cantem todos!..."." 

A música, de improviso, era abrilhantada por tocadores de harmónica, de gaita-de-beiços, de viola ou de guitarra portuguesa. 

As mulheres, de saias a arrastar pelo chão, encarregavam-se de fazer cafeteiras de café, nas brasas, que da fogueira se retiravam. 

Neste tempo não havia exploração de bares, porque simplesmente não havia praticamente dinheiro para comprar nada. 

No Santo António, à meia-noite, e depois de muito se ter bailado, fazia-se então a queima das alcachofras. No São João, pela noite dentro, desfilava a "Marcha das Canas". Neste cortejo participavam sobretudo rapazes e raparigas, aos pares, cada qual com uma cana verde na mão, que era apanhada nos valados das quintas. Muitas das canas levavam também balões de papel de seda pendurados, alguns iluminados com velas no seu interior e todos os participantes iam cantando os refrães das marchas populares. 

Diz-nos Joaquim "Jota" que a "Marcha das Canas" ia muitas vezes à courela do Senhor José Marques, para lá da Quinta da Medideira, já a caminho do Cabo da Marinha, onde havia um tanque de rega com água, que muitos utilizavam para lavar a cara e ganhar ânimo, para continuar o bailarico até de madrugada. 

fonte: "Amora Memorias e Vivencias d'Outrora" do Prof. Manuel Lima

As Festas do Natal, Carnaval e Páscoa em Amora

28.11.20, os amorenses

AS FESTAS DO NATAL, DO CARNAVAL E DA PÁSCOA 

Zona ribeirinha de Amora, antiga Alameda Oliveira
Zona ribeirinha de Amora, antiga Alameda Oliveira Salazar hoje Largo Manuel da Costa. Anos 40 Sec. XX - foto Messias

Uma das interessantes realizações que durante o tempo de Natal, dos anos 50, (século XX) se levava a cabo na freguesia de Amora era a construção de presépios em diferentes locais da freguesia, chegando mesmo a haver prémios para os que melhor se apresentavam. 

São dignos de notícia aqueles que, por exemplo, se fizeram na "Casa do Povo de Amora" ou no "Museu Evocativo Particular Vitória", pertencente ao Senhor José Inácio Rodrigues Costa, na altura localizado na Avenida Marginal Silva Gomes, já muito próximo da Praça 5 de Outubro. 

Era igualmente habitual, nesta época, a realização de festas alusivas à quadra natalícia no Patronato, "Centro de Assistência Paroquial de Amora", onde participavam as crianças da catequese e das escolas locais. 

Festa de Natal do Patronato. Presepio no Palco AnoFesta de Natal do Patronato. Presepio no Palco Ano de 1960 - foto Tribuna do Povo

No Ano Novo, à meia-noite do dia 31 de dezembro, fazia-se entoar o batuque das latas, o disparo de espingardas, os apitos das fábricas e o estalejar dos foguetes. 

No dia 1 de janeiro, a banda da SFOA também percorria as ruas da Amora, para saudar os seus sócios e a população em geral. 

No que refere à celebração do Carnaval em Amora, diz-nos Joaquim "Jota" que, nos anos 30 e 40, era o mesmo muito divertido, porque se faziam diversas "cegadas", que percorriam as ruas e às quais as pessoas assistiam livremente. 

Criancas das Escolas de Amora mascaradas principio

 

Criancas das Escolas de Amora mascaradas principio anos 60 - foto Tribuna do Povo

Cada cegada era constituída, normalmente, por quatro a cinco homens, que vinham apetrechados de alguns instrumentos musicais e representavam um género de enredo teatralizado, na maior parte das vezes de grande comicidade (tipo paródia). Como eram feitas nos locais de maior concentração popular, as pessoas normalmente juntavam-se à volta e divertiam-se com os "parodiantes". 

Havia também um outro género de intervenções, designadas por "contradanças", em que, neste caso, prevalecia a expressão corporal. 

Existiam também os chamados "ditoches" ou "pulhas", que se dirigiam a quem passava, ou àqueles com quem se tinha mais confiança e onde se permitia, só neste período carnavalesco, um certo abuso de linguagem verbal. 

Quadro da Sagrada Familia oferecido pelas escolas Quadro da Sagrada Familia oferecido pelas escolas da Freguesia a Casa do Povo de Amora principios dos Anos 50 - Foto Tribuna do Povo

Também no Carnaval, a rapaziada tinha algumas brincadeiras, nem sempre aceites de bom agrado pelos mais velhos, como, por exemplo, baterem às portas das pessoas e fugirem ou baixarem as cordas dos estendais, onde se secavam as roupas. 

Conta-nos igualmente Joaquim "Jota" que outro momento muito interessante das tradições carnavalescas, dos anos 40, era o "Enterro do Entrudo". Para se poder celebrar este festejo, na quarta-feira de cinzas, ia-se buscar aos Foros de Amora, Quinta da D. Ermelinda, um boneco, que vinha normalmente dentro de um caixão e em cima de uma carroça, que imitava de alguma forma um carro funerário. A música da SFOA vinha atrás da carroça a tocar e os rapazes acompanhavam o cortejo aos gritos e fingindo que choravam, em grande alvoroço. 

Este boneco, que representava o Carnaval ou Entrudo, chegava então finalmente à Amora de Baixo, Largo dos Lobatos, em frente do estabelecimento do senhor "João Padeiro", onde era queimado. Para dar mais aparato, e resultar em espetáculo, colocavam-se algumas bombinhas de Carnaval no seu interior, para que, de vez em quando, algumas delas explodissem e o boneco se despedaçasse. 

No tempo da Páscoa, uma das tradições, mais antigas e interessantes, que se realizava nesta freguesia de Amora, nos anos 30/40, era a do Judas Iscariotes, efetuada no Sábado de Aleluia, às dez horas da manhã, junto ao Cais da Rampa. 

Em tempos mais recuados, um boneco feito de trapos e roupas velhas, representando Judas Iscariotes, o traidor, que a troco de dinheiro entregou Jesus, para que fosse morto, era conduzido por um cortejo de barcos que, vindos do lado do Seixal, o traziam até à Amora. Desta comitiva naval faziam parte canoas e botes de pinho, que habitualmente navegavam no rio Judeu. O "Judas" (boneco) vinha pendurado na canoa do "Joaquim da Isabel". Depois de muito insultado e descomposto, pela atitude que teve para com Jesus, o "Judas maldito" era então finalmente queimado, enquanto o povo rezava e louvava a Deus. 

É de notar que nesta altura a freguesia de Amora não tinha um pároco a tempo inteiro, tratando-se, pois, de uma tradição de caris estritamente popular e não acompanhada pelos serviços religiosos. 

Também segundo recolha oral, pensamos que certamente numa fase um pouco mais tardia, o mesmo "Judas" (boneco) passou a ser retirado do barco que O trazia, e na rampa do cais entregue à rapaziada, que ansiosamente por ele esperava. Uma vez em terra, era o "Judas" arrastado com o auxílio de uma corda pelas ruas de Amora, batendo-lhe então os miúdos e mesmo graúdos com paus, até que no meio de grande algazarra finalmente se desfazia por completo. 

fonte: "Amora Memorias e Vivencias d'Outrora do Prof. Manuel Lima

A Construção do Patronato de Amora

27.11.20, os amorenses

A CONSTRUÇÃO DO PATRONATO 

O Patronato de Amora no inicio dos Anos 50 - foto

O Patronato de Amora no inicio dos Anos 50 - foto Tribuna do Povo

Segundo texto do jornal Tribuna do Povo: "Em princípios do ano de 1951 organizou-se em Amora uma Comissão dinamizada pelo pároco Manuel Marques, com o objetivo de edificar e manter um patronato, em que as crianças fossem recolhidas e alimentadas, enquanto não pudessem estar junto dos pais. 

Angariados os fundos necessários para a compra do terreno, que custou vinte escudos o metro quadrado, logo na Primavera seguinte se começaram a fazer os blocos para a primeira fase. (...) 
As obras foram-se alargando e desenvolvendo. A primitiva Comissão do Patronato deu lugar   à   nova   comissão   do   Centro   de Assistência Paroquial de Amora. 

Nesta data, ano de 1951, (...) O primeiro corpo do edifício estava concluído e quase pronto a funcionar. Logo que estivesse mobilado iria iniciar propriamente a sua função de educação e recreio das crianças, até a idade dos quinze anos. 

Nesta grandiosa obra já se tinham gasto mais de trezentos contos, tendo em conta o valor atribuído às ofertas de materiais, mão-de-obra e transportes. É interessante frisar que só em mão-de-obra oferecida ao Patronato e até novembro de 1953, foram cerca de 3600 horas de trabalho não incluindo, os pedreiros, carpinteiros, pintores e eletricistas das firmas "Mundet" e "Produtos Corticeiros"." 

Esta importante   obra de assistência social, promovida pela igreja local, impulsionada pelo seu pároco de então, reverendo Manuel Marques, viria a constituir motivo em torno do qual se agregou a grande maioria dos habitantes da Freguesia de Amora. 

Padre Manuel Marques paroco de Amora 1948 - foto MPadre Manuel Marques paroco de Amora 1948 - foto Messias

A primitiva comissão não poupou esforços para angariar ofertas, em géneros ou dinheiro, junto das muitas quintas da região, das fábricas, dos comerciantes e do povo em geral. 

Cada entidade ou pessoa dava consoante as suas posses, chegando-se a organizar cortejos de ofertas, com carroças que, vindas dos Foros e de outras regiões da freguesia, traziam até à Igreja Paroquial as oferendas, que posteriormente eram leiloadas. 

Para esta obra, as direções das fábricas "Mundet" e "Produtos Corticeiros", contribuíram na altura com respectivamente dez e cinco contos, o que nesse tempo era uma quantia muito apreciável. 

Igualmente, para angariar dinheiros para esta obra social, se realizaram algumas festas na "Sociedade Filarmónica Operária Amorense", como foi o caso daquela que se realizou, em agosto de 1952, com grande número de artistas de renome nacional, acompanhados pela orquestra "Casino". 

Com projeto efetuado gratuitamente pelos técnicos João Andrade Sousa e Miguel Pestana, compreendia esta obra do Patronato um amplo salão, onde as crianças aprendiam e ocupavam os seus tempos livres, uma cozinha (onde as Cozinheiras D. Maria dos Anjos e D. Estrudes preparavam a comida) e instalações sanitárias. 

Equipa de Hoquei em Patins do Patronato de Amora.jEquipa de Hoquei em Patins no Ringue do Patronato de Amora (C.A.P.A.) anos 50's
foto: As Raizes de Amora"

No exterior um ringue de patinagem permitia   a   prática   desportiva, nomeadamente o hóquei em patins e a Patinagem artística. 

As obras destas primitivas instalações terminaram no ano de 1954, tendo as mesmas permanecido em suas nobres funções até princípios dos anos 80, altura em que no tempo do padre Pedro Cerântola se   reconstruiu no mesmo local o novo "Centro de Assistência Paroquial de Amora". 

 

fonte: "Amora Memorias e Vivencias d'Outrora" do Prof. Manuel Lima

 

Amora, Meados do Século Passado

25.11.20, os amorenses

AMORA, MEADOS DO SÉCULO PASSADO (1) 

Azulejo existente no Correr d'Agua aluzivo a passa
Azulejo existente no Correr d'Água, na casa da D. Idalina Barreta, alusivo à passagem de Nossa Senhora Peregrina, por Amora, em 1946.

Apesar de, já em finais do século XIX, a freguesia de Amora   ter   sofrido   os   efeitos   da   Revolução Industrial, a qual se viria a fazer sentir ao longo de toda a primeira metade do século XX, tal não trouxe tantos benefícios à população, operária e trabalhadora, como de alguma forma seria de esperar. 

Apesar das variadíssimas indústrias instaladas até aos anos 60 do século passado (moageira, vidreira, conserveira, pólvora, lanifícios, vimes, corticeira, resineira e construção naval, entre outras), nem sempre as mesmas, pelas   frequentes   dificuldades   laborais   ou pelos baixos salários pagos, trouxeram à população de Amora o desafogo de uma vida condigna.  

Grupo de Costureiras trabalhando em casa de D. ValGrupo de Costureiras trabalhando em casa de D. Valentina em Amora 1962 - Foto da Familia de Pastora Lira. A D. Valentina foi uma exímia Bordadeira Amorense, ainda hoje em 2020 é uma das fontes d'As Raizes de Amora em memórias do seu tempo, desde a Australia onde se encontra desde os Anos 70. O nosso Obrigado pela sua participação e enorme carinho pelo nosso site.

De acordo com algumas entrevistas que fiz a vários anciãos do povo, naturais ou há muitos anos residentes em Amora, aqui deixamos expresso alguns factos relativos às dificuldades vividas pela maior parte das famílias locais, no tempo do Estado Novo. 

No que refere à alimentação, e particularmente no período relativo à "Segunda Guerra Mundial", foram muitos os que nesse tempo passaram fome ou pelo menos tiveram uma alimentação desnutrida. 

A sopa e o café de borras feito no braseiro tentavam encobrir a fome, numa altura em que até o pão era racionado. No princípio dos anos 40, por falta de farinha de trigo, chegou-se mesmo, inclusivamente, a fazer pão a partir de farinha de favas moídas. 

Carne só muito esporadicamente era comida, na maior parte das famílias só uma ou duas vezes por mês. 

Grupo de rapazes nos esteiros do Rio Judeu 1959 - Grupo de rapazes nos esteiros do Rio Judeu 1959 - foto da Familia Alfredo Guise

 

Salvava muitas vezes a difícil situação de alguns agregados mais pobres os frutos que o rio podia dar, a lamejinha, as ostras, os xarrocos ou as enguias. 

No Verão e às escondidas, as quintas eram frequentemente "visitadas" pelas crianças, na procura de umas frutas retemperadoras. 

 

Nas azinhagas as amoras silvestres ou os figos da índia, em época própria, constituíam um valor acrescentado. 

Nas mercearias compravam-se pequeníssimas porções de alimentos, uma quarta de café ou um decilitro de azeite tinha de render e remediar, normalmente, famílias numerosas. 

Quando uma fábrica encerrava ou nos períodos de greve, diz-nos Maria Morais Coelho, filha de João "Padeiro": "As pessoas   não podiam pagar, era tudo comprado a fiado, havia um caderno ou rol para assentar as despesas, que muitas vezes só se pagavam quando se conseguia de novo arranjar trabalho." 

Diz-nos também Joaquim "Jota" que: "Nos comércios de porta-a-porta feitos com burros e carroças, como era o caso do peixeiro João Tavares, conhecido pelo "Trouxa", que os fiados eram apontados nas ombreiras das portas ou dos portais, com cruzes, traços ou bolinhas, SÓ se recebendo aos fins-de-semana.  

Sendo o poder de compra baixíssimo, o pouco dinheiro que havia nem sequer dava para o carvão.  
A maior parte das famílias procurava nas matas o combustível das suas fornalhas de cozinha. Pinhas, "taralhões", cascas, tocos e raízes de pinheiros, cujos troncos já tinham sido cortados para outros fins, eram procurados com frequência para esse objetivo, pois só mais tarde haveriam de aparecer os fogareiros a petróleo. 

Os ferros de engomar eram encostados às fornalhas das cozinhas, para que aquecessem. As roupas eram remendadas até à exaustão, muitas vezes com remendos de cores diferentes. 

As crianças andavam na grande maioria descalças. 

As próprias habitações eram também muito pobres e modestas. Conta-nos Pastora Lira que, quando casou com Idalino Lira, veio morar para um curral de cabras do seu bisavô situado em Fonte de Cima." 

Existia quem, por nada ter, e num ato de desespero, fosse bater de porta em porta a mendigar algo que lhe pudessem valer. 

Apesar de tudo, as boas relações de vizinhança e a entreajuda das famílias iam, em muitos casos, operando milagres. 

Havia, contudo, algumas famílias mais abastadas na região que algumas vezes ajudavam  os  mais pobres, como era o caso (segundo nos relataram) de uma senhora chamada Dona Piedade residente na Quinta do Palácio do Infante, que valeu a muita gente. 

A "SOPA DOS POBRES" 

A partir do princípio dos anos 50, no tempo do Padre Manuel Marques, e numa altura em que a própria fábrica de cortiça "Mundet e C.", Lda." acusava já dificuldades de laboração, foi criada a "sopa dos pobres", que era "feita no "Centro de Assistência Paroquial de Amora" e distribuída por cerca de vinte a vinte e cinco famílias mais necessitadas. 

Almoco oferecido pela casa do Povo de Amora a Soci

Almoço oferecido pela Casa do Povo de Amora a sócios carenciados - 1958.

Era, a mesma, feita numa enorme panela e distribuída às pessoas, que com marmitas a iam buscar. Nalguns casos de entrevados ou doentes a distribuição era feita ao domicílio. 

Para além da sopa, chegava a haver muitas vezes distribuição de pão e mais raramente de leite em pó ou de queijo. Estes últimos alimentos provinham, ocasionalmente, da "Caritas", organização internacional. 

AS CARÊNCIAS DE SANEAMENTO BÁSICO 

 Como serão referidas, muitas foram igualmente as doenças que afetaram a população local, neste tempo do Estado Novo, algumas delas devido não só às carências alimentares, mas também às deficientes condições de saneamento básico existentes. 

Na Amora dos anos 30, ainda não existia recolha de lixo porta-a-porta, só mais tarde, anos 40, surgiu a carroça da Junta de Freguesia, que então passou a depositar os lixos, relativos à população, nos terrenos vizinhos da Quinta do Conde (hoje Paivas). Aqui o lixo era amontoado e periodicamente queimado, sendo, posteriormente, muitas das suas cinzas utilizadas na adubação das terras. 

Apesar desta recolha, muitos eram os que em meados do século XX depositavam seus lixos em montureiras, no   fundo   dos   quintais, atrás   dos muros ou em locais menos expostos. Normalmente os cheiros nauseabundos, as moscas e   os   ratos   encontravam-se   associados   a   estes potenciais focos de doença. 

Nas ruas, anos 30, o Manuel "Pastilha" e também o próprio coveiro conhecido por "Charnito" limpavam o maior. 

A Azinhaga das Vinhas, ladeada por piteiras, era então, toda ela, um autêntico sanitário público utilizado pela miudagem, que nas suas residências não possuíam casas de banho. 

Nas habitações faziam-se as "necessidades" nas chamadas "tigelas da casa", que eram feitas em barro, com duas asas e muito mais altas do que os penicos. As famílias, que moravam mais próximo do rio, iam normalmente fazer os seus despejos nas lamas da maré, sendo um dos locais mais concorridos, aquele que se situava frente à rua das Amoreiras. 

Nas alturas em que as mulheres despejavam as ditas "tigelas", conta-nos Joaquim "Jota" que muitos homens, por brincadeira, se metiam com elas, apertando com a mão as narinas ou exclamando "que fedooor!". 

No caso das famílias que moravam mais afastadas do rio, também muitos dos dejetos humanos eram atirados para montureiras ou estrumeiras, servindo quase sempre posteriormente para fertilização das terras. 

A instalação de esgotos na povoação de Amora só viria a surgir no princípio dos anos cinquenta, sendo a partir desta altura que as condições sanitárias nas habitações começaram a melhorar. 

Por outro lado, foi também só na década de 50 que se instalou a rede de abastecimento de águas correntes nos domicílios. 

Almoco na Colonia Balnear da Cantina Escolar de AmAlmoco na Colonia Balnear da Cantina Escolar de Amora 1960 - foto de Tribuna do Povo

Nos anos 40, todas as famílias se abasteciam de poços ou de fontanários públicos, não tendo, sobretudo no caso dos poços, muitas vezes, estas águas grandes qualidade. 

Nos anos 30, uma das maiores aspirações da população de Amora era a construção de retretes públicas e de um balneário camarário, onde se pudesse tomar um duche. 

Tal só veio a acontecer em meados da década de 40, (ainda que o duche fosse pago) tendo essas mesmas instalações sido construídas no local onde hoje se encontra o edifício sede da AURPIA, integradas no antigo lavadouro. 

AS DOENÇAS ASSOCIADAS À POBREZA 

Neste difícil período de princípio e meados do século XX, onde as populações da freguesia de Amora, à semelhança do que acontecia um pouco por todo o país, se confrontavam com grandes carências alimentares e baixíssimas condições de saneamento básico, muitas foram as doenças, que se instalaram e que semearam, nalguns casos, a dor da morte, entre as famílias locais. 

Exame Medico relativo a tuberculose num consultoriExame Medico relativo a tuberculose num consultorio de Lisboa. foto Ilustracao Portuguesa 1910

No período compreendido entre 1925 e 1940 morreram efetivamente muitas pessoas na Amora, sobretudo com a terrível doença da tuberculose, tendo outras ficado marcadas para o resto de suas vidas. 

Esta doença, de alguma forma associada a carências alimentares e de salubridade, dizem os mais velhos que contagiosa, levou a que, de alguma forma, as pessoas "fugissem" umas das outras com medo dos contágios. Chegavam a ser afetadas famílias inteiras e os contaminados acabavam de alguma forma por ser marginalizados. 

Nesta altura as principais fábricas locais passaram a obrigar os seus operários a fazer rastreios e surgiu no Seixal, Largo dos Restauradores, um centro do "Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos", onde se faziam consultas especializadas. 

Também chegou a vir à localidade de Amora uma carrinha do "IANT", munida de todo o equipamento necessário para efetuar radiografias ao tórax e de alguma forma promover o despiste da doença. 

Não sendo, no entanto, uma doença fácil de erradicar, ainda em finais da década de 50, jornais locais, como é o caso da tribuna do povo, apelavam para a necessidade de se efetuarem radio rastreios e a vacinação "BCG". 

Outra doença que surgiu em 1951, associada possivelmente à contaminação das águas dos poços que eram utilizadas no dia-a-dia, foi o tifo. Afetando neste caso particularmente a população do Seixal, obrigou no entanto a que houvesse também vacinação antitífica na Amora. 

 Nestes tempos recuados dos anos 30 e 40 do século XX, não existia ainda igualmente na Amora qualquer   consultório   médico   ou   farmácia.   Só   nas fábricas locais, particularmente   na   "Mundet  e   C.", Lda.", havia um enfermeiro (Júlio Ramalhete) e médico assistente. 

Quando alguém adoecia era necessário ir, de barco, chamar o médico ao Seixal (sede do concelho), existindo dois médicos, o Doutor Cardoso, ligado à "Delegação de Saúde", e o Doutor Amândio Fiadeiro, ligado ao "IANT". 

Quando alguma criança estava para nascer, chamava-se a Ti Joaquina "Petinga" do Correr d'Água, que, sem qualquer curso especializado, aparava o melhor que sabia. 

Para    comprar   medicamentos    era   necessário ir à Arrentela, farmácia do senhor Anselmo. Só mais tarde, anos 50, surgiu a primeira farmácia em Amora, na Avenida Marginal Silva Gomes, da qual era proprietário Manuel Rego de Almeida, assim como o primeiro consultório médico, situado na mesma rua, paredes meias com a referida farmácia, pertencente ao Doutor Carlos Ribeiro. 

Contam também os mais velhos que, as pessoas, quando se sentiam mal, não tinham qualquer socorro rápido ou ambulância que lhes acudisse, chegando a ser transportadas com padiolas   em busca   da assistência médica necessária. 

fonte: "Amora Memorias e Vivencias d'Outrora" do Prof. Manuel Lima

 

Os Habitantes de Amora no tempo da Primeira República

24.11.20, os amorenses

RESIDENTES EM AMORA NO TEMPO DA PRIMEIRA REPÚBLICA

Grupo trabalhadores vidreiros, junto antiga mercea
Grupo trabalhadores vidreiros, junto antiga mercearia de Manuel Henriques anos 20 Sec. XX - Foto Familia Trindade

Ao contrário do que acontece hoje, nas primeiras décadas do século XX, a freguesia de Amora, que então incluía o território da atual da freguesia de Corroios, possuía apenas alguns milhares de habitantes. 

Concretamente, segundo os censos oficiais, 2480 habitantes em 1911 e 2704 habitantes em 1920. Lembremos que atualmente, a população conjunta deste território Amora/Corroios ultrapassa os cem mil habitantes, pois segundo o censo de 2001 já constituía local de residência para 97466 pessoas. 

O estudo que se segue, referente aos moradores da freguesia de Amora, no período compreendido entre 6 de abril de 1912 e 18 de dezembro de 1921, foi baseado em dados referentes ao "Registo de Óbitos da Paróquia de Nossa Senhora do Monte Sião", onde neste espaço de tempo, cerca de 10 anos, faleceu um total de 640 pessoas. 

A   NATURALIDADE DOS HABITANTES E A  ORIGEM

Familia Valente e Amigos corticeiros em Amora fina
Familia Valente e Amigos corticeiros em Amora finais anos 30 Sec. XX - Foto Familia de Pastora Lira

Segundo o documento referido anteriormente, cerca de 80% dos aqui falecidos nesta década eram naturais da própria freguesia de Amora, levando igualmente a concluir que, de uma maneira geral, os nascimentos de então aconteciam em casa, sendo rara a deslocação das parturientes, até pela quase inexistência local de transportes automóveis. 

Dos restantes 20% de habitantes, metade era natural de outras freguesias do concelho do Seixal ou dos concelhos vizinhos dos distritos de Setúbal e Lisboa. 

Apenas    10%    da    população, englobada neste estudo, tem origem noutros concelhos mais distantes do país, sendo as províncias da Beira Litoral, Beira Alta e Estremadura as mais representadas. 

Familia Tato na rua Direita, principio anos 20 Sec

Familia Tato na rua Direita, principio anos 20 Sec. XX

Concelhos como São Pedro do Sul, Tábua, Vouzela, Cadaval ou Cantanhede    constituem    locais    de    excepcional    proveniência. Certamente este facto deve-se à migração dos designados "Caramelos ou Malteses", trabalhadores rurais que para as quintas da região vinham temporariamente exercer atividades agrícolas. 

Ao contrário do que viria a suceder na segunda metade do século XX, nesta época não é registada em Amora a presença de qualquer alentejano ou mesmo transmontano. 

Outras províncias do país muito pouco representadas são o Douro Litoral, o Minho e a Beira Baixa. 

É ainda de salientar a referência a um estrangeiro de origem alemã, tudo levando a crer que relacionado com a laboração da antiga "Fábrica de Garrafas de Vidro", nesse tempo aqui instalada. 

 

AS PROFISSÕES EXERCIDAS 

Ao contrário dos dados relativos a meados do século XIX, onde a quase totalidade dos residentes na freguesia de Amora eram agricultores, mateiros ou marítimos, nesta década compreendida entre 1912 e 1921, já se verifica a existência de uma classe laboral, associada ao sector secundário. 

O casal Pastora Lira e Idalino Lira Amora Ano de 1

O casal Pastora Lira e Idalino Lira Amora Ano de 1942 foto Familia Pastora Lira

Concretamente constata-se, segundo o estudo efetuado, a existência de um significativo número de operários, certamente vidreiros, pois era, nesta época, a grande indústria local existente. São mesmo especificamente referidas as profissões de garrafeiro e de fogueiro. 

Neste período, a percentagem de homens a trabalhar na indústria seria certamente, pelos dados disponíveis, cerca de 25% a 30%, os restantes continuavam a trabalhar na agricultura e noutras atividades ligadas ao sector primário. 

Outra diferença relativamente a tempos mais recuados é que, nesta data, também já muitas mulheres tinham enveredado pelo mundo laboral, verificando-se inclusivamente que aproximadamente cerca de 20% das mesmas eram operárias e exerciam profissões, como tecedeira ou empalhadeira. 

Possivelmente, para além de trabalharem na "Companhia da Fábrica de Garrafas de Amora", algumas trabalhavam certamente na "Companhia de Lanifícios de Arrentela" e nas oficinas do vime e do empalhamento das garrafas e garrafões. 

Mesmo assim, neste período, relativo a princípios do século XX, ainda são referenciadas como domésticas cerca de 80% das mulheres. 

Outro facto revelador das dificuldades em que viviam as populações locais é a referência a uma elevada taxa de mendigos, que certamente teria dificuldade em arranjar trabalho ou teria problemas de saúde. 

 

OS ALTÍSSIMOS ÍNDICES DA MORTALIDADE INFANTIL       

 Sem ser possível, com os dados disponíveis, calcular valores exatos para o atual conceito de mortalidade infantil, que se determina a partir da

Genoveva de Almeida e Sa marido e filhas Familia d

Genoveva de Almeida e Sa marido e filhas Familia de Amora 1920 foto Familia Pastora Lira

razão entre o número de óbitos de crianças com menos de um ano de vida, pelo número de nascimentos nesse mesmo período, é fácil, no entanto verificar que, neste tempo recuado, ultrapassar a idade dos dez anos era realmente um bem precioso. 

Analisando as idades com que faleceram as já referidas 640 pessoas nesta freguesia de Amora, no período compreendido entre 1912 e 1921 registam-se as seguintes percentagens relativas ao número total de óbitos: nados-mortos 6%, crianças com menos de 1 ano 38%, crianças entre 1 e 10 anos 15,7%. 

Como resultado desta análise, podemos concluir assustadoramente que, nesta época, mais de metade dos óbitos se referiam a crianças com idades inferiores a 10 anos. 

Nesta altura, eram sobretudo os recém-nascidos extremamente vulneráveis, particularmente até atingirem a idade dos três meses. Tal facto parece dever-se às baixíssimas condições económico-sociais vividas pela população. A não existência de um médico na freguesia, as fracas condições de salubridade, as habitações sem água corrente nem esgotos e alguns surtos de doenças infectocontagiosas em muito contribuíram certamente para tal situação. 

Recordemos que, atualmente, a taxa de mortalidade infantil no nosso concelho é reduzidíssima, situando-se, aproximadamente, em cerca de 6 crianças por cada dez mil nascidas. 

A BAIXA ESPERANÇA MÉDIA DE VIDA 

Analisando agora as idades dos óbitos, depois de ultrapassadas   as   idades   da   infância,  verifica-se   que, mesmo as pessoas que conseguiam sobreviver nos primeiros anos de vida, não atingiam, de uma maneira geral, grandes longevidades. 

Manuel de Sa e Familia fragateiro da Mundet QuintaManuel de Sa e Familia fragateiro da Mundet Quinta do Conde Amora 1940 foto Familia Pastora Lira

Assim, e em percentagens relativas ao total de óbitos, incluindo as crianças de tenra idade, no escalão dos 10 aos 20 anos morreram (5,8%), entre os 20 e os 30 anos (4%), entre os 30 e os 40 anos (4,5%), entre os 40 e os 50 anos (5%), entre os 50 e os 60 anos (5%), entre os 60 e os 70 anos (7%), entre os 70 e os 80 anos (5%), entre os 80 e os 90 anos (3%) e entre os 90 e os 100 anos apenas (1%). 

Tendo em conta a elevadíssima taxa de mortalidade infantil e as idades relativamente jovens com que se falecia na idade adulta, somos levados a concluir que, a esperança média de vida neste tempo seria muito baixa relativamente aos nossos dias, onde a mesma para os homens já ultrapassa os 75 anos e para as mulheres os 80 anos. 

Na Amora, entre 1912 e 1921, só 21% das pessoas neste período falecidas tinham idade superior a 50 anos. 

 Por vezes, muitos de nós somos levados a crer que antigamente as pessoas duravam muitos mais anos do que hoje, mas tal é completamente errado. No tempo da monarquia e no que refere aos nossos próprios reis, que teriam certamente uma vida privilegiada, dezasseis deles faleceram com menos de 50 anos e só três, D. Afonso Henriques, D. João I e D. Maria I chegaram à casa dos 70. 

Joaquim Jota segundo da Esq. grupo Amigos Quinta d

Joaquim Jota segundo da Esquerda com grupo Amigos

Quinta da Princesa Amora 1931 foto Familia Pastora Lira

Ainda a propósito das razões de tão pouca durabilidade, é de referir que a época a que nos reportamos, primeira República, em nada favorecia tal facto. Período que inclui a primeira guerra mundial, 1914/1918, tempo de fome e racionamento, mas também de epidemias, como foi o caso da pneumónica ou febre de Espanha, que grassou particularmente entre 1918 e 1920. Como parteira havia apenas uma "comadre" não diplomada e médico só na sede do concelho, tendo a família que dele necessitava de o ir chamar ao Seixal, sendo muitas vezes a deslocação feita de barco. 

Algumas destas causas fizeram do ano de 1918 um ano particularmente negro, não só para o nosso concelho, mas também para o país, onde a morte ceifou impiedosamente grande número de pessoas. 

Alguns anos mais tarde, a esperança média de vida viria, contudo, a aumentar de forma muito significativa, especialmente a partir do momento em que se deu início à produção de antibióticos em massa. 

Seria "Fleming", com os seus estudos, assim como mais tarde outros seus seguidores, quem viria a descobrir nos anos 30 a penicilina, que se tornaria fundamental no combate a estas doenças infectocontagiosas, assim como a tão elevada taxa de mortes prematuras. 

fonte: Amora Memorias e Vivencias d'Outrora do Prof. Manuel Lima

foto de Capa: Pormenor da capa do Almanaque d'O Mundo, 1910. Pintura de Alberto Souza. parlamento.pt

A Epidemia

23.11.20, os amorenses
A EPIDEMIA
 
O primeiro quartel do séc. XX foi marcado, em Portugal, e no resto do mundo, pela instabilidade económica, pelos conflitos sociais, pela guerra e, por uma pandemia, que apesar de ter começado nos EUA recebeu a designação de gripe espanhola. Ao longo de séculos as sociedades humanas estiveram periodicamente sujeitas a epidemias, mais ou menos devastadoras: gripe, tuberculose, varíola, tifo, cólera… A pneumónica foi a última pandemia numa era em que as vacinas, os antibióticos, os antivirais estavam prestes a dar luta à doenças e a aumentar a esperança de vida humana… mas enquanto não acontecia, morreram milhões.
 
Na Europa, a urbanização, a industrialização, a pobreza, a I Guerra Mundial constituíram um caldo de cultura para a pneumónica.
Entre tantas notícias a “epidemia” quase passa despercebida. É a falta de bens essenciais que faz manchetes: falta pão, leite…
Morte súbita, colapsos, síndrome de dificuldade respiratória aguda estes os sintomas aliados, ao facto, de os casos mais graves e mortais incidirem sobre a população jovem levaram a um crescente alarme social. Em Portugal, nas três vagas (Maio 1918-Maio 1819) terão morrido cerca de 100 000 pessoas levando Portugal a uma crise demográfica grave.
 
A imprensa da época, por incrível que pareça, não deu grande relevo à “epidemia”. Os jornais nacionais dedicaram pouco espaço a esta doença, mas as referências à sobrelotação dos hospitais, à escassez de medicamentos, à insalubridade, e ao elevadíssimo número de órfãos ajudam-nos a compreender a dimensão humana da tragédia.
 
Próxima de Lisboa, a Amora, não deixou de receber a visita da “senhora espanhola”. A Voz da Amora noticia, em Novembro de 1918, que a epidemia grassava com grande intensidade: “Os atacados [na freguesia de Amora] foram mais de 1000. E o obituário subiu felizmente só a 46 neste mês e meio de peste. Neste número estão incluídos grande número de tuberculosos.”
 
Vd.
Álvaro Sequeira, A influenza espanhola, in História da Medicina, Vol VIII,2001
Seixal, 1914-1918: o outro lado Da guerra – jornal da exposição, Ecomuseu Municipal do Seixal.

Os Habitantes de Amora em Meados do Séc. XIX (2)

20.11.20, os amorenses

OS CRIADOS EXISTENTES NALGUMAS CASAS MAIS ABASTADAS

António de Carvalho G com selo RA.jpgNúcleo urbano antigo de Amora. Antiga residência
Foto e residência de António Carvalho, proprietário e lavrador de Amora, último quartel do século XIX

É interessante verificar que, nesta época, apesar da maior   parte   da   população viver com muitas dificuldades, é referida a existência de uma relativa quantidade de criados e criadas em algumas das casas então existentes, o que mostra uma certa abundância por parte de algumas famílias. 

Sempre segundo o "Rol dos Confessados da Paróquia", relativo ao ano de 1853, são referidos como exercendo a atividade de serviçais nesta freguesia, ao todo 15 pessoas, 9 mulheres e 6 homens, para o conjunto das 238 casas existentes, na totalidade da região. 

Embora nesse tempo, oficialmente já não existisse escravatura em Portugal, pois em 1836 o Marquês Sá da Bandeira decretou a abolição da mesma no nosso país, não se conhecem as condições, estatutos ou situação em que viveriam estes ditos criados. 

Por outro lado, é curioso referir que, se recuássemos ao século XVII, já eram relativamente frequentes as referências a escravos e seus filhos ilegítimos, nos livros dos registos paroquiais relativos a todo o termo de Almada, onde então se incluía o atual território da freguesia de Amora. 

AS CRIANÇAS EXPOSTAS OU ENJEITADAS 

É igualmente interessante saber que, nesta data de 1853, também o "Rol dos Confessados da Paróquia de Amora", indica como vivendo integrados em diversas famílias locais, doze crianças expostas ou enjeitadas. 

 Lembremos que, nesta época, era relativamente comum algumas pessoas mais pobres, e por razões essencialmente económicas e sociais, abandonarem seus filhos, para que alguém com maiores posses lhes pudesse valer. 

José Gomes de Duarte G com selo RA.jpgResidencia de Jose Gomes Duarte.jpg

Foto e Residênciade de José Gomes Duarte, proprietário e comerciante de Amora, no último quartel do século XIX

Nas grandes povoações ou cidades, onde existiam conventos, as crianças eram abandonadas numa porta giratória, de formato cilíndrico, a que vulgarmente se passou a chamar "roda dos expostos". 

Os familiares, que antes de deixarem seus filhos nesta roda tocavam a campainha, não eram identificados nem punidos por lei, sendo as crianças encaminhadas para o interior do convento, onde passavam a ser sustentados e educados pelos religiosos ou outras instituições paralelas, como era o caso das misericórdias. 

No ano de 1783, já o Intendente Pina Manique tinha oficializado a roda dos expostos, criando-se para dar assistência, educação e ensino a estas crianças abandonadas a Casa Pia de Lisboa. 

Luísa Saraiva de Carvalho, ano de 1904, esposa de Manuel Luís de Carvalho

Em povoações pequenas, como era nesse tempo a Amora, as crianças eram deixadas à porta da igreja ou das famílias mais abastadas da região, quase sempre os proprietários das quintas. 

Analisando concretamente cada um dos casos, verifica-se efetivamente que, nesta freguesia tinham a seu cargo crianças expostas, maioritariamente, os fazendeiros que viviam em Amora de Cima, perto da igreja, quase sempre pais de outras crianças. 

  A PRÁTICA RELIGIOSA 

Neste início da segunda metade do século XIX, foi prior da Paróquia de Nossa Senhora do Monte Sião, em Amora, o pároco António da Cunha Lima e seu sacristão, o senhor Caetano José, que residia em Amora de Cima, próximo da igreja.

Nesta época, o culto católico era comum, atingindo-se níveis de prática religiosa muito superiores aos do nosso tempo. Segundo registo do "Rol dos Confessados", o cumprimento dos preceitos quaresmais, incluindo a comunhão pascal, era exercido por mais de 60% do total dos residentes, se exceptuarmos as crianças com idades inferiores a dez anos. 

Alfreda Maria Trindade, esposa de Raul Trindade, moradora em Amora - 1927

Embora de impossível comparação, diremos que muito recentemente, e conforme dados referentes ao censo de 1991 e informações fornecidas pela Paróquia de Amora, o número de comungantes nas missas dominicais, nos nossos dias, é de aproximadamente 1200 pessoas para um total de 44 mil, o que corresponde apenas a uma percentagem de 2,5%, ou seja, cerca de 24 vezes menos do que aquela que se registava em meados do século XIX. 

Referiremos ainda que, outrora, a classe que menos cumpria este preceito religioso era a dos embarcados ou marítimos, talvez pela morosidade das viagens efetuadas além-mar. Por outro lado, verifica-se ainda que, quanto mais longe moravam os fregueses relativamente à localização da igreja paroquial, como era o caso dos moradores nas quintas de Corroios ou dos Foros de Amora, menor era a participação nas práticas religiosas.

Alfreda Maria Trindade, esposa de Raul Trindade, moradora em Amora - 1927

fonte: "Amora Memorias e Vivencias d'Outrora" do Prof. Manuel Lima
fotos: A Voz d'Amora e ecomuseu municipal

Os Habitantes de Amora em Meados do Séc. XIX (1)

19.11.20, os amorenses

MODOS DE VIDA E VIVÊNCIAS DO PASSADO 

Azinhaga das Vinhas.jpg

AZINHAGA DAS VINHAS - Correnteza de casas térreas de um dos bairros antigos e pobres de Amora nos finais do Séc. XIX  (foto: Maria Morais)

Aquando da fundação deste concelho, em 1836, o território da freguesia de Amora incluía não só a área relativa à Paróquia de Nossa Senhora de Monte Sião, mas igualmente aquele que é o atual território da freguesia de Corroios. 

Nessa altura, e até ao ano de 1976, pertencia à Amora uma vasta região, que se estendia de Vale de Milhaços ao Fogueteiro. 

Com base em estudos efetuados no "Rol dos Confessados da "Paróquia de Nossa Senhora do Monte Sião", período compreendido entre 1851 e 1861, verifica-se que nessa época viviam por aqui menos de mil pessoas (no ano de 1853, exatamente 931 habitantes, em 238 casas). 

Atualmente, neste mesmo território de Amora e de Corroios vivem, segundo o senso de 2001, exatamente 97 466 munícipes, um valor que supera cerca de cem vezes mais, o registado nesse tempo recuado. 

Para se poder ter uma ideia da distribuição relativa do número de habitantes, que viviam nos diferentes lugares e quintas da freguesia de Amora há cerca de 150 anos, e se poder tirar ilações em relação à atual situação, aqui se deixa o levantamento referente ao ano de 1858: 

Josefina Maria da Trindade conhecida por PRESSA finais do Sec. XIX (foto: Familia Pastora Lira)

Josefina Maria da Trindade de alcunha Pressa finaiAmora de Cima - 123 (pessoas) 
Rua Direita - 58 
 
Trás das Hortas - 18 
 
Fonte da Prata - 31  
Beco do Baptista - 15  
Fonte de Cima - 49  
Beco da Fonte de Cima – 33 
Pátio do Manuel Paulo - 28  
Pátio do Quina - 19  
Bairro de São Francisco - 7  
Quinta do Braz - 1  
Lobatas - 138  
Rua d'Amoreira - 50  
Quinta da Atalaia - 6  
Quinta da Barroca - 4  
Quinta da  Palhaceira -  5  
Quinta  das Inglesinhas -   10  
Talaminho -  12 
Cheiraventos - 20  
Património - 1  
Cruz de Pau - 13  
Poço do Bispo - 46  
Charnequinha - 62  
Quinta de Vale da Loba - 24  
Quinta do Valongo - 1  
Quinta do Semião - 1  
Quinta do Conde - 1  
Sítio do Fetal - 1  
Moinho da Raposa – 2 
Quinta de Sua Alteza - 15  
Santa Marta - 30  
Quinta do Castelo - 3  
Quinta da Água - 1  
Quinta do Brasileiro - 1  
Moinho de Corroios - 7  
Quinta do Rouxinol – 2 
Quinta da Bomba - 5  
Quinta da Varegeira - 4  
Corroios - 18  
Quinta de São Nicolau - 9  
Quinta da Niza - 4  
Quinta do Alferes - 1  
Quinta da Mata - 1  
Quinta de Marialva - 4  
Vale de Milhaço - 41  
Quinta de São Pedro – 1 
Casa de Pau - 7. 

Nesta altura, embora se registem agregados familiares com sete a dez elementos e onde portanto o número de filhos seria elevado, a média de habitantes por casa é de cerca de quatro pessoas. Tal situação deve-se ao facto de em variadíssimas quintas apenas residir permanentemente uma pessoa, certamente o feitor ou o caseiro das mesmas. 

No que refere à ocupação das mulheres, e numa altura em que a industrialização local ainda não tinha qualquer significado, são muito poucas as referidas como tendo uma profissão, levando a pensar que a maioria ajudaria nos trabalhos agrícolas, para além de exercerem tarefas domésticas e relativas à educação de seus filhos. 

É importante referir que nestes números não se inclui uma população flutuante de trabalhadores rurais migrantes, oriundos

da Beira Litoral, os Caramelos ou Malteses", que trabalhavam periodicamente e à jorna, em muitas destas quintas. 

No ano de 1861, são citados no mesmo Rol dos Confessados, já referido anteriormente, 57 destes jornaleiros, o que por si só

constituía cerca de 25% da mão-de-obra masculina, a exercer atividade sazonal no território da freguesia. 

 

AS OCUPAÇÕES E OS OFÍCIOS PRATICADOS NESSE TEMPO 

Ainda segundo o "Rol dos Confessados da Paróquia de Nossa Senhora do Monte Sião", relativo ao ano de 1853, é possível verificar que, nessa época, cerca de três quartos das profissões dos habitantes da freguesia de Amora estavam relacionadas com as atividades rurais e agrícolas, inerentes às quintas então aqui existentes. 

 Nesta grande fatia incluíam-se essencialmente fazendeiros (em grande número), caseiros, trabalhadores rurais e ainda alguns cabreiros (pastores). 

Francisco de Almeida e Sa maritimo de Amora que faFrancisco de Almeida e Sa maritimo de Amora que fazia viagens para Africa finais do Sec. XIX (foto: Familia Pastora Lira)

Em número apreciável eram igualmente os marítimos, cerca de 17%, que trabalhavam a bordo das embarcações e efetuavam os transportes entre esta Margem Sul do Tejo e a Capital do Reino ou mesmo as rotas de África, Brasil e Oriente. 

Associada à exploração das lenhas existentes nas matas e nos matos, encontrava-se cerca de 8% da mão-de-obra ativa, exercendo estes trabalhadores como mateiros, carreiros (condutores de carretas de bois) ou carvoeiros. 

Ligados à pequena indústria e à construção civil são mencionados 1 tanoeiro (produtor de vasilhame para o vinho), 1 ferreiro (construtor de alfaias agrícolas e de ferramentas), 2 sapateiros (fabrico de calçado), 1 fogueteiro (Joaquim Santos, morador na Azinhaga das Vinhas), 3 pedreiros e 1 carpinteiro. 

Também no domínio dos serviços e do comércio, são mencionados vários cargos e atividades, onde se incluem 1 mestra de meninas (Maria Rosa, moradora no Pátio do Quina), 1 professor do ensino primário (António Porfírio de Sousa Valdez, morador no Beco da Fonte de Cima), 1 parteira (Francisca Maria, moradora na Rua Direita), 3 tendeiros (merceeiros), 1 barbeiro, 1 padeira e 1 sangrador (matador de animais), localizando-se todos eles essencialmente, em Amora de Baixo (Largo das Lobatas e Largo da Fonte da Prata), por excelência nesse tempo os grandes átrios de Amora. 

fonte: "Amora Memorias e Vivencias d'Outrora" do Prof. Manuel Lima

Uma Noite no Teatro

19.11.20, os amorenses
UMA NOITE NO TEATRO

Teatro D. Maria II.jpg

Ao passear os olhos sobre as páginas amareladas dos jornais oitocentistas encontro, de vez em quando, uma nota sobre a Amora é o caso deste anúncio, no Diário do Governo, de 26 de Abril de 1862, um espectáculo no Teatro D. Maria II cujos fundos reverteriam para a paróquia de Nossa Senhora de Monte Sião e Irmandade do Santíssimo Sacramento.

Ha muitos Anos.jpg

Imagino que no passado, como hoje, os recursos fossem sempre escassos. Assim, provavelmente fazendo valer os ilustres e reais visitantes de Amora, a paróquia conseguiu recolher mais alguns fundos, os fundos de uma beneficente noite no teatro.

Mas o que sabemos sobre esta peça? Sabemos que, em 1860, quando se estreou foi um enorme êxito. A estrela da companhia era Emília das Neves, a Linda Emília. O seu desempenho nesta peça seria recordado (foto) anos mais tarde (O Occidente, 1893, nº 185).
Podemos pois, imaginar que o teatro D. Maria II se encheu, pela Amora, nessa memorável noite de 28 de Abril de 1862…
 

Ha muitos Anos 1.jpg

 

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