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As Raizes de Amora

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

OS BORJAS (II) Caetano Alberto Borja, o Amora

30.03.21, os amorenses

Caetano Alberto Borja Lourenço nasceu, na Amora, em 1772 assentou praça no regimento de Gomes Freire de Andrade* onde foi cadete.

Em 1801 tomou parte da Guerras das Laranjas após o que, “livre do Real serviço” casou, em Cascais, no ano de 1804, com Violante Ferreira, filha de Higino José Ferreira.

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As invasões francesas estavam a começar e Caetano Borja foi comandante das forças que se formaram em várias localidades a sul do Tejo para lutar contra os franceses, esteve nas linhas de Torres e participou na Batalha do Buçaco.

Em 1817, os franceses já tinham sido derrotados e saído de Portugal, porém a família Real demorava-se no Brasil deixando o General Beresford à frente dos destinos de Portugal, situação que provocava descontentamento em muitos portugueses.

Distribuíram-se uns panfletos apelando à revolta. Terá havido uma conspiração. O que sabemos é que Beresford terá decidido dar uma lição aos portugueses  e fez abater todo o peso da justiça sobre Gomes Freire de Andrade e seus companheiros de infortúnio. Em toda esta trama,Caetano Borja, o Amora teve um papel ingrato já que foi com base numa conversa com um informador da polícia  em que designou Gomes Freire de Andrade por “o nosso homem” identificando-o assim, como líder da conspiração e condenando-o sem saber.

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Gomes Frei de Andrade e vários dos seus companheiros foram condenados à morte e executados em Outubro de 1817. Outros, mais afortunados, foram degredados para Angola. Caetano Borja nunca chegou a ser preso. Refugiou-se na Serra da Arrábida e aí permaneceu escondido durante quase quatro anos, até que os ventos políticos mudaram e pode finalmente, deixar a clandestinidade, referindo-se a este período afirma que “passou quarenta meses enterrado” e dessa forma escapou à pena de degredo para Angola.

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Amnistiado, em 1822, regressou ao serviço no Regimento de Voluntários de Milícias a Pé da Cidade Lisboa Ocidental até que de novo, foi apanhado pela história: em finais de Julho de 1827, na sequência da demissão de Saldanha, organizaram-se em Lisboa manifestações que por terem decorrido de noite, à luz de archotes, ficaram conhecidas por “archotadas”. Julgado por insubordinação Caetano Borja foi considerado inocente, mas meses depois D. Miguel assume o poder e não perdoa: Caetano volta à clandestinidade e, é preso. Passou os anos da Guerra Civil entre o Limoeiro e o Forte de S. Julião só sendo libertado depois da "batalha de Cacilhas" (1833) e encontrava-se entre aqueles que, em 1834, pegaram em armas e aclamaram a rainha D. Maria II, na cidade de Lisboa.

 Os anos na prisão arruinaram a sua saúde e não o beneficiaram em termos de carreira militar, por isso, apresentou diversas petições para ser ressarcido. Finalmente, foi nomeado capitão adido do batalhão móvel de Almada em 1837 como compensação pelos seus serviços à causa da liberal.

A morte surpreendeu-o na Praça da Figueira em 1849. 

Caetano Alberto Borja, o Amora foi um herói da causa liberal, a sua vida aventurosa não lhe trouxe riqueza e foi rapidamente esquecido. Merece ser reconhecido e lembrado na terra que o viu nascer.

* A proximidade com Gomes Freire de Andrade  leva a terá sido maçon e é nessa condição que referenciado por A.H. de Oliveira Marques, História da Maçonaria em Portugal, vol I.

 

Reproduções:

Assento de casamento (Arq. Paroquial de Cascais)

slide da exposição Felizmente há luar - 200 anos da execução de Gomes Freire de Andrade (ANTT)

Processo de Gomes Freire de Andrade (ANTT)

Os Borjas (I)

27.03.21, os amorenses
Custódio Miguel Borja é o mais conhecido membro desta família que se estabeleceu na Amora no início do séc. XVIII.
Em c. de 150 anos a família prosperou nesta região (Amora/Almada), proponho-vos seguir esta família até ao início do séc. XX.
Originário de Viseu, Casais do Monte, Francisco Lourenço casou, em 1729, com Joana Teresa, nascida na Amora. Sabendo que os casamentos eram, naquela época, uma questão de estratégia familiar que permitia alargar e reforçar redes de contactos e, ao mesmo tempo, assegurar a solidez do património e a descendência por isso admito que Francisco Lourenço pudesse ser considerado “um bom partido”. Na sua terra natal tinha sido lavrador e, ao instalar-se na região de Lisboa dedicou-se sobretudo à produção vinícola em fazenda sua "vinhas que granjeava e mandava grangear".
Em 1760, o filho deste casal, Francisco Borges Lourenço que casou com Rosa Maria de Jesus, deste casamento nasceram pelo menos sete filhos e filhas.
Ao longo dos anos, irá deixar cair o apelido Borges para o transformar em “de Borja”. Suponho que a devoção a São Francisco de Borja, um dos pilares dos jesuítas na Península Ibérica possa explicar esta transformação.
De Francisco de Borja sabemos que foi militar (Alferes primeiro, mais tarde,

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Sargento-mor) e que era um dos pilares da comunidade muito ligado à igreja. A escolha criteriosa dos padrinhos dos filhos mostra bem o cuidado que teve em fortalecer a sua “rede” social: Custódio (nascido em 1765) recebe o nome do seu padrinho de baptismo, Custódio José Bandeira, homem de bens avultados que lhe permitiram comprar a Quinta do Vinagre (Sintra), casar com a Morgada e conviver com a realeza; já a filha Doroteia, nascida em 1779, teve como madrinha Doroteia Bandeira, filha do mesmo Custódio Bandeira; por seu turno, Caetano Alberto Borja, nascido em 1772, teve como padrinho José Ribeiro Botelho, Cavaleiro da Ordem de Cristo e homem de considerável riqueza.

Os Borjas, aproximaram-se dos círculos da Corte pelo menos, desde D. João V, consolidando o seu poder. Francisco de Borja era um homem ambicioso que construiu uma teia de ligações com influência na justiça, na Igreja e no Paço. No entanto, os seus últimos anos não foram fáceis: Caetano que tinha sido sentenciado ao degredo andou a monte desde Junho de 1817; os filhos mais velhos, Doroteia e Custódio, desentenderam-se com ele por causa da herança as relações familiares esfriaram e tornaram-se conflituosas.
Teve uma vida excepcionalmente longa para a sua época, tendo terminado os seus dias “entrevado” em 1820.
Após a sua morte, a batalha judicial que se seguiu e que durou anos permite conhecer a dinâmica familiar e, ao mesmo tempo, perceber as inquietudes por um lado, das filhas solteiras, que próximas dos 60 anos se viam em risco de ficar sem um património que lhes permitisse viver; por outro lado, a inquietude de Doroteia e Custódio que temem ter de partilhar os seus bens com as irmãs e com a Igreja.
Os destinos dos irmãos Borja foram muito diferentes: Doroteia da Purificação casa com José João de Figueiredo e Oliveira, filho de um Desembargador e Juiz de Fora de Almada, ele próprio Bacharel e “homem de posses”; as outras irmãs, Maria Gertrudes e Ana Paula, ficaram solteiras e cuidaram de seu pai até este morrer; Caetano Alberto teve uma vida cheia de peripécias ao sabor dos ventos da história de Portugal; e, Custódio Miguel, capitão-mor, proprietário, lavrador, apoiante e benemérito da causa liberal, consolidou o património familiar e o poder familiar.
 
Fonte: Arquivo Paroquial de Amora 
            Diligência de Habilitação de Doroteia Borja