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As Raizes de Amora

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

A Arte do Vime em Amora

06.11.20, os amorenses
A Arte do Vime em Amora, na primeira metade do Século XX

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Foi em 1888 que foi fundada a "Fábrica de Vidros de Amora", importante unidade industrial que viria a laborar durante cerca de quatro décadas.
No seu período de funcionamento, esta fábrica produziu muitos milhões de garrafas e garrafões em vidro, muitos dos quais, para melhor resistirem ao seu manuseamento, passaram mais tarde a ser forrados de vime.

Ao revestimento do vasilhame dava-se vulgarmente o nome de "empalhamento".
 
A "Companhia das Fábricas de Garrafas de Amora", mais conhecida por "Fábrica de Vidros de Amora", chegou a empregar para esse fim mais de meia centena de mulheres operárias. Eram empalhadas várias medidas de vasilhas, desde as garrafas de 1 litro aos garrafões de 30 litros.
Um dos seus mestres da oficina de empalhação foi um antigo cesteiro de vimes, de nome Joaquim Trindade, natural da Aldeia de Gonçalo, no Distrito da Guarda.

Familia Trindade.jpg

Foto da Familia de Joaquim Trindade

Este homem beirão, que já trabalhara anteriormente na fábrica de vidros de Braço de Prata, em Lisboa, e que nascera numa freguesia onde esta arte tem tradições centenárias, viria a expandir toda uma indústria dos vimes, nestas paragens, até meados dos anos 40Joaquim Trindade, inicialmente mestre da arte de empalhar, na "Fábrica de Vidros de Amora", tornar-se-ia alguns anos mais tarde empreiteiro da mesma, acabando por se estabelecer por conta própria já em finais dos anos 20. Nesta época, para além do empalhamento de garrafões, desenvolveu vários ramos da indústria do vime, em instalações que montou na Amora de Baixo - Quinta do Rosinha. Destas instalações fazia parte um pavilhão corrido, onde anteriormente tinha funcionado a velha "Fábrica de Xailes de Amora" e mais tarde (1949) se veio a instalar a "Cooperativa Progresso e União Amorense".

Raul Trindade zona ribeirinha de Amora Anos 30.jpg

Raul Trindade

(filho de Joaquim Trindade) proprietário da antiga oficina de vimes da Quinta do Rosinha, repousando junto da zona ribeirinha de Amora.

Anos 30 do século XX. Foto Familia Trindade

Edificio onde primeiramente esteve instalada a Fab

 

Em primeiro plano, o edifício onde outrora esteve instalada a oficina de vimes

pertencente à família Trindade na Quinta do Rosinha.

Imagem de 1964.  Foto da família de Pastora Lira

 

Para preparação e corte do vime, existiu igualmente uma outra oficina, situada numa correnteza de casas existente na rua da Fonte da Prata, quase em frente do antigo posto da Guarda-Fiscal, e onde, até há pouco tempo, existiu uma oficina de motorizadas.

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Rua da Fonte da Prata, vendo-se em primeiro plano as casas onde funcionou a preparação dos vimes da família Trindade. Imagem de 2003. Foto Manuel Lima

 
Joaquim Trindade, durante os anos 30, chegou a ter a trabalhar por sua conta várias dezenas de mulheres, produzindo objetos em vime tão diversos como papeleiras, cadeiras, cestos ou malas. No caso destas últimas, fabricavam-se tamanhos diferentes.
 
Este industrial de Amora, que viria a prosperar na sua arte, comprou algumas propriedades na região baixa e húmida de Corroios, concretamente as Quintas do Campo e da Argena, onde chegou mesmo a habitar. Pai de oito Filhos, transmitiu aos seus descendentes o gosto pela arte do vime e pela continuidade dos negócios.
 
Desta forma e contando, fundamentalmente, com a colaboração dos seus filhos António Trindade e Raul Trindade, moradores na rua das Amoreiras, montou mais duas oficinas, uma na Quinta do Campo em Corroios e outra no Fanqueiro - Foros de Amora, dando trabalho a largas dezenas de trabalhadores.
 
Para além das instalações na Margem Sul do Tejo, possuía esta família outra oficina no Bairro Alto e um lugar de vendas na Avenida 24 de Julho, em Lisboa. Diariamente, uma carroça da firma carregada com os artigos mais diversos, dirigia-se a Cacilhas, onde atravessava para o Cais-do-Sodré via ferry-boat. Grande parte desta produção destinava-se à exportação.
 
As varas de vime, utilizadas nesta indústria de empalhamento de vasilhames e cestaria eram na maior parte dos casos importadas da Ilha da Madeira. Como eram muito poucos os exemplares de vimeiro que vegetavam espontaneamente na área do concelho do Seixal, a família Trindade introduziu a plantação desta espécie em várias zonas húmidas da região, muito particularmente nas terras brejoeiras das Quintas da Argena e do Campo, em Corroios, embora também haja conhecimento da existência desta árvore nos Brejos do Duque, junto ao Correr d'Água e nos Brejos do Rio Judeu, próximo do Fogueteiro.
 
Alguns artigos de vime semelhantes aos fabricados pela família Trindade, nas suas oficinas da freguesia de Amora. Foto Manuel Lima

Artigos semelhantes aos fabricados pela familia Tr

Quase sempre plantados a ladear as linhas de água das valas reais, foram no caso específico da Quinta do Campo, onde existia com frequência charcas durante o Inverno, plantados à linha, em talhões, como se de um pomar se tratasse.
As varas do vimeiro (Salix viminalis), finas e amareladas, eram cortadas de ano a ano, sendo na oficina de Corroios, pertencente à família, que normalmente se fazia a descasca do vime. Para que tal operação se pudesse efetuar com maior facilidade, as varas cortadas eram colocadas de molho dentro de água, durante algum tempo.
 
Evitava-se deixar secar o vime, pois quando tal acontecia, era necessário proceder à sua cozedura, para tornar possível a descasca. Após descascadas em Corroios, as varas de vime eram trazidas para a oficina da Amora, onde eram rachadas em "ripas", com o auxílio de máquinas rachadeiras. Estas "ripas", antes de serem aplicadas em obra, eram ainda tingidas numa caldeira de cobre, para obter uma cor mais acastanhada.
O vime, na altura em que ia ser utilizado na oficina, tinha de ser molhado com alguma antecedência, para ganhar maleabilidade/flexibilidade, de forma a permitir o entrelaçado da cestaria.
 
Os operários desta indústria trabalhavam, normalmente, sentados ao nível do chão, com as pernas dobradas na sua frente, numa posição incómoda de início, mas a que se iam habituando com o tempo. Para além das rachadeiras, as ferramentas dos cesteiros eram fundamentalmente as tesouras de podar e as facas ou navalhas.
Ainda relativamente às oficinas de vime pertencentes à família Trindade, revela-nos hoje Joaquim "Jota" (que "um dos últimos grandes artífices desta arte, que trabalhou nas instalações de Amora foi Joaquim Matias, igualmente fadista amador, recordando ainda outros nomes como é o caso de Laura da Sá, Maria da Laura ou daquele que era conhecido vulgarmente por "Cassala".
 
Diz-nos também "Jota" que "nos Últimos tempos desta laboração já só trabalhavam em Amora, cerca de três homens na oficina da rua da Fonte da Prata e cerca de doze mulheres no pavilhão da Quinta do Rosinha."
 
Para além desta empresa com carácter industrial, pertencente à família Trindade, existiram igualmente em Amora, em meados do século XX, alguns pequenos artesãos de cestaria e de cabazes, que exerciam a sua atividade em instalações anexas à sua própria residência.
Estão neste caso o cesteiro "José Pacheco", que trabalhava em vime e morava no largo do Coreto, ou o cabazeiro "Ti Calcinhas", que trabalhava com canas rachadas e morava no largo Manuel da Costa. O seu trabalho era vendido de porta em porta ou em locais onde se fizessem feiras.

Antonio de Matos antigo empalhador desta margem su

Antonio de Matos antigo empalhador desta margem sul do Tejo. Foto de 1984. Foto Manuel Lima

 
fonte: “Amora Memorias e Vivencias d’Outrora” do Prof. Manuel Lima