A Fábrica de Conservas de Sardinhas
11.11.20, os amorenses
DA MOAGEM DOS CEREAIS À FÁBRICA DE CONSERVAS DE SARDINHA

Sem se saber ao certo, a indústria da farinha e do descasque de arroz, nesta unidade fabril, deve ter acabado em princípios do século XX, sendo apenas possível dizer a este respeito que no mesmo edifício já em finais de 1917, se encontrava instalado um outro sector industrial, o das conservas de peixe.
Diz-nos Joaquim "Jota", hoje com 85 anos, que sua avó, Gertrudes Alminhas, lhe dizia ter trabalhado ali naquele mesmo local, mas numa fábrica de "conservas de sardinha". Acerca desta outra atividade, existem vários documentos, que revelam que a dita indústria conserveira aqui esteve instalada, em finais da segunda década do século XX.
Assim, datado de 25 de Abril de 1918, existe um ofício dirigido ao Senhor Administrador do concelho do Seixal, por parte da "Companhia das Fábricas de Garrafas de Amora", queixando-se a mesma de roubo de lenhas das suas instalações. Diz-nos este ofício, a certa altura, que essa lenha teria sido vendida à fábrica de conservas desta localidade de Amora, pertencente à firma "Santana e filho", por parte de Izidro Fernandes e Joaquim José Cunha, os quais por sua vez se desculpavam de que a não tinham roubado, mas sim apanhado no mar.
"Santana, Miranda & C."" parece ter sido exatamente o primeiro nome próprio da referida fábrica de conservas de Amora, com sede em Setúbal, ainda que por pouco tempo, pois alguns meses depois já a mesma fábrica era designada por "Costa, Lda".
Efetivamente, datado de 2 de Outubro de 1918, existe um ofício enviado pelo Senhor Administrador do concelho do Seixal à firma "Costa, Lda." dizendo o seguinte: "brevemente irá a essa fábrica o subdelegado de saúde para proceder à vacinação de todo o pessoal fabril, findo esse serviço, devem enviar uma relação de todos os trabalhadores, e de futuro não poderão admitir alguém, que não seja vacinado."
Também numa relação das fábricas existentes no concelho do Seixal, datada de 16 de Agosto de 1919 e feita pelo chefe de Repartição de Finanças local para o Senhor Administrador do concelho, se referem como existentes nesta data e neste município, quatro fábricas de conservas de peixe com as seguintes designações:
"Almeida & Pólvora, Lda." - Seixal, "Fonseca, Roque & C."" - Arrentela, "Ricardo, Justino & C."" - Arrentela e "Costa, Lda." - Amora.
A última notícia, da qual há conhecimento sobre a velha fábrica conserveira, situada em Amora de Baixo, sítio de Trás-das-Hortas, data de 17 de Maio de 1920, tratando-se de um "termo de prova" de uma caldeira, que diz o seguinte:
"Nesta data, compareceu no referido estabelecimento fabril (fábrica de conservas de peixe de Amora) o Eng. ° Jaime Eloi Moniz, adjunto à terceira Circunscrição Industrial, para proceder à prova da caldeira nº1471, fabricada em Portugal por João Perez em 1904, a qual se encontrava instalada na fábrica de conservas de peixe pertencente à "Sociedade de Conservas Lusíadas, Lda.".
A caldeira tipo E-J, timbre de 6 kg por cm2, 0,9 m3 de capacidade, 12 m2 de superfície, 0,77 m2 de superfície de grelha, verificou prova satisfatória e possui todos os acessórios regulamentares."
É de notar que nesta última alusão à referida unidade industrial já a mesma tinha alterado de novo a sua denominação.
MAIS TARDE A INSTALAÇÃO DA CORTICEIRA "MUNDET"
Tudo leva a crer, com base nas informações recolhidas junto de vários naturais de Amora, hoje octogenários, que, por volta de 1920, o velho edifício do século XIX viesse a ter uma terceira reutilização, desta vez como instalação da empresa corticeira "L. Mundet e Sons", a qual já, desde 1906, se encontrava sedeada no Seixal.

Igualmente segundo Joaquim "Jota", trabalhador desde os doze anos nestas instalações da fábrica "Mundet" em Amora, no velho edifício oitocentista, estavam instalados os diferentes sectores empresariais, desde a administração à produção.
"Jota" recorda mesmo que, no princípio dos anos 30, a "Mundet" ainda tinha as suas diferentes secções distribuídas pelos quatro pisos do centenário prédio, desde o rés-do-chão até ao sótão.
Actualmente a antiga construção do século XIX, que pertence à família "Gameiro", encontra-se já desocupada e em muito mau estado de conservação, sendo difícil recuperá-la.
No entanto, é com saudosas recordações que muitos dos naturais de Amora falam da velha moagem, da antiga fábrica de conservas de peixe e particularmente da mais recente indústria corticeira, a que a mesma construção secular deu abrigo.
fontes: Amora Memórias e Vivencias d'Outrora do Prof. Manuel Lima e fotos: ecomuseu municipal