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As Raizes de Amora

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

A "Mundet & C.ª Lda.", em Amora (1)

07.11.20, os amorenses
A "Mundet & C.ª Lda.", em Amora (1)
 
Domingo, 30 de Agosto de 2020

Mundet Amora Edificio 5.jpg

AS PRIMEIRAS INSTALAÇÕES NO INÍCIO DOS ANOS 20

 
Ao contrário do que sucedeu na fábrica sede, onde a corticeira "L. Mundet & Sons" se estabeleceu a partir de 1906, em Amora as instalações referentes à mesma empresa só viriam a entrar em laboração alguns anos mais tarde, não sendo possível neste caso confirmar exatamente a data do seu arranque. Contudo, tendo em conta que a dita empresa veio a ocupar os velhos edifícios que desde 1862 tinham sido uma fábrica de moagem e descasque de arroz a vapor, pertencente a José Gomes e posteriormente uma fábrica de conservas de sardinha designada por "Costa, Lda.", que aqui laborou até ao início de 1920, somos levados a crer que, pelo menos neste velho edifício oitocentista do lugar de Trás-das-Hortas, localizado em Amora de Baixo, a firma "L. Mundet & Sons" deve ter iniciado as suas atividades, no princípio dos anos 20.
 
Quem nos refere a estruturação da fábrica nesses tempos recuados é Joaquim "Jota", hoje (2006) com 85 anos, que nela trabalhou a partir dos doze. Diz-nos "Jota" que, na década de 30 do século passado, a fábrica tinha como edifício principal, aquele que ainda hoje se destaca pela sua dimensão, na atual rua Mundet, antiga rua da Praia, em Amora de Baixo.
 
Este edifício, que terá hoje (2006) próximo de cento e cinquenta anos e apresenta quatro níveis de utilização, rés-do-chão, 1º andar, 2º andar e sótão, foi construído basicamente com rochas trazidas da região de Almada, mantidas pela resistência de múltiplos esticadores em ferro, ainda hoje observáveis no exterior das suas paredes. Com uma largura aproximada de dez metros e um comprimento próximo de cinquenta, apresenta o edifício nos seus diferentes pisos um grande número de janelas, que proporcionaria uma razoável iluminação durante o período de trabalho diurno.
Diz-nos Pastora Lira, que também aqui trabalhou, que a velha fábrica, neste tempo recuado, não possuía luz eléctrica da rede pública, porque a mesma só chegou à povoação de Amora em 1937. Desta forma, a iluminação do estabelecimento fabril era feita à custa de barulhentos geradores a fuel óleo, existentes em instalações anexas e que se faziam ouvir a grande distância.
 
Esta energia era, contudo, imprescindível à laboração da fábrica, não só para ativação de máquinas, mas também porque a mesma trabalhava em dois turnos; o diurno das oito às dezessete e o noturno das dezessete às duas da madrugada. Só no restante intervalo de seis horas o gerador era então desligado.
fonte: ecomuseu municipal
Mas voltando ao velho edifício corrido, onde quase toda a atividade produtiva se processava inicialmente, diz-nos Joaquim "Jota" que no rés-do-chão, no local designado por fundão, se empilhava a cortiça cozida para endireitamento ou espalmação da mesma.
Já as caldeiras, à semelhança dos geradores eléctricos, anteriormente referidos, se encontravam num outro edifício adjacente, de menor dimensão, situado do lado sul e com acesso pelo pátio.
Também no rés-do-chão, ao lado do fundão, existia uma secção de teares onde se fabricavam serapilheiras e sacas, que serviam para embalar e fazer a expedição dos produtos acabados.
fonte: ecomuseu municipal
A cortiça, depois de ser carregada para o primeiro andar, encontrava aqui duas importantes secções, a de rabaneação, onde a prancha era cortada em fatias ou rabanadas e a da espaldação, onde se produziam as tiras de cortiça, já desprovidas de costas e barrigas, com destino ao fabrico de discos e de palmilhas.
Continuando a subir no edifício principal, no segundo andar situavam-se as brocas automáticas, onde homens e mulheres, num trabalho exaustivo, davam prosseguimento à produção das rolhas.
fonte: ecomuseu municipal
No último piso, o sótão, as rolhas eram submetidas finalmente a rebaixamentos, de acordo com as medidas adequadas ou pretendidas. Neste tempo, produziam-se para além de rolhas e discos, igualmente palmilhas, calcanheiras e capachos.
No extremo deste velho edifício, lado oeste, existe na sua continuidade uma outra construção, ao que parece também ela contemporânea da anterior, onde se destaca no topo, distinta decoração de balaústres e velhas mansardas. Foi neste primeiro andar, do lado oposto ao rio e por conseguinte mais próximo da atual Rua da Fonte da Prata, que outrora parece ter morado o proprietário da velha moagem a vapor e mais tarde a empresa "Mundet & Ca. Lda." instalou os seus escritórios locais.
fonte: Google Earth
Com o avançar dos anos, mas ainda na década de 30, foram surgindo novas construções a sul deste conjunto primitivo, entre os quais a casa da prensa, onde se passaram a enfardar os desperdícios de cortiça, tendo como objetivo a sua expedição para as fábricas do Montijo. O primitivo cais de madeira, que dava acesso ao rio e já existente antes da instalação da própria "Mundet", foi restaurado e mantido, passando a ser então a principal porta de entrada e saída da fábrica.

Aqui, varinos e fragatas faziam chegar as matérias-primas e escoavam os produtos acabados.
Mais tarde, a "Mundet", (instalações de Amora) chegaria mesmo a ter quatro cais semelhantes a este, chegando, no entanto, alguns transportes a serem feitos com o auxílio de carroças, sobretudo quando se queria estabelecer ligação entre esta unidade industrial em Amora e a fábrica sede.
 
fonte: “Amora Memorias e Vivencias d’Outrora” do Prof. Manuel Lima
foto: ecomuseu municipal