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As Raizes de Amora

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

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A Quinta da Atalaia em Amora, um lugar com História (2)

07.11.20, os amorenses
A Quinta da Atalaia em Amora, um lugar com História (2)
 
Quarta Feira, 26 de Agosto de 2020

Quinta da Atalaia.jpg

DOS FRADES DE S. DOMINGOS, À REESTRUTURAÇÃO AGRÍCOLA DO SÉCULO XIX

Já na segunda metade do século XIX, e segundo registo predial da própria Quinta de Atalaia, foi a mesma adquirida à Fazenda Nacional, em hasta pública, pelo Dr. Luiz Carlos Pereira e isto na sequência da expropriação do Convento de S. Domingos de Lisboa, a quem pertencia a Quinta por altura de 1834, ano da revogação das ordens religiosas em Portugal e da estatização dos seus bens.
Apesar da indisponibilidade de toda a documentação que permitiria fazer uma completa sequência histórica dos sucessivos proprietários da Quinta da Atalaia, tudo leva a crer que, em finais do século XVIII, a propriedade deve ter deixado de pertencer aos condes de Atalaia, tendo passado para a posse dos frades dominicanos que, igualmente, tinham outras propriedades em Corroios.
Mas remontemos a 1869, altura em que a Quinta entra num novo ciclo da sua história, a um relato feito pela Revista Agrícola, órgão da Real Associação Central da Agricultura Portuguesa, da autoria do já referenciado autor Igínio Gagliardi: "A quinta que passou, haverá três anos, ao Sr. Dr. Luiz Carlos Pereira, o qual a adquiriu unicamente para se dedicar, como passatempo, à agricultura, da qual é verdadeiro amante, nada possuía que pudesse merecer atenção. O pomar de laranjas estava estragadíssimo; as oliveiras velhas e mal tratadas não prosperavam; a vinha perdida e extenuada; as noras quebradas; as arribanas arruinadas, aqui e acolá grandes barrancos encontravam-se produzidos pelas águas hiemais, que desenfreadas se precipitam pelo vale abaixo, formando grandes escavações, depositando areia e esterilizando grande porção de terreno; finalmente estava completamente abandonada."
Ordem Dominicana, fonte: dominicanos.pt
(É de notar que, nesta altura, já tinham passado mais de trinta anos sobre a data em que a propriedade deixou de ser tratada pelos religiosos do Convento de S. Domingos.) "Além do exposto possuía um sapal ou pântano misto, que a tornava muito sezonática."
Após três anos na posse do novo proprietário, refere o mesmo autor uma mudança significativa nas condições agrícolas existentes na quinta, escrevendo no mesmo artigo:
"Hoje mudou completamente a face, pode-se dizer que uma nova força motora dela se apossou, que o sopro da prosperidade e progresso ali se instalou, (...) que ali não falta o cuidado e a actividade, mas antes ali persiste, transformando-a numa grande granja modelo."
 
Pela experiência adquirida nas suas viagens por Itália e França e tendo em conta o tipo dos solos de pouca qualidade (siliciosos) e a sua topografia, Luiz Carlos Pereira como agricultor passou a cultivar na sua Quinta da Atalaia, especialmente "tubérculos por estes lhe darem maior interesse e lucro, que não as outras plantas. Vendo-se igualmente obrigado a ter gado para empregar na lavoura e para o serviço das noras, (...) mandou construir prados artificiais em esplanada (...) e uma arribana para guardar as forragens."
Refere ainda o mesmo documento que este proprietário entusiasta plantou igualmente um novo pomar de laranjas, com plantas que comprou numa quinta situada em sítio agreste e desabrigado, das quais nem uma só morreu e todas tomaram grande incremento e vigor.
Para proteger os seus pomares dos ventos norte e sudoeste, plantou árvores para esse fim essencialmente (Pinus halepensis) e (Pittospomm undulatum), estes últimos ainda hoje comuns na zona alta da Quinta.
charrua "Dombasle"
Por serem os terrenos da Atalaia inclinados, construiu bem organizados e delineados socalcos, assim como uma rede de caminhos, que facilitavam a serventia do campo.
Nada era deixado ao acaso. Como a quinta estava, tal como hoje, à beira do braço de mar, que vai à Arrentela e Amora, e como nesse braço abundavam os Iodos, igualmente pensou no modo de os aproveitar como fertilizantes para os seus terrenos. Para desenvolver as suas atividades agrícolas, possuía, no século XIX, uma charrua "Dombasle" e outra de "Grignon", sendo a primeira empregue nos alqueives e nas arroteias e a segunda na lavra das terras. Um moderno sachador mecânico, para a época, era utilizado na sacha dos favais e dos batatais.
Neste tempo, ano de 1871, e segundo o Rol dos Confessados da paróquia de Nossa Senhora do Monte Sião (Amora), o caseiro da Quinta era Leandro Cardoso, que ali vivia com sua mulher e filha e ainda cinco malteses que trabalhavam à jorna.
 
fonte: “Amora Memorias e Vivencias d’Outrora” do Prof. Manuel Lima
fotos: ecomuseu municipal,
dominicanos.pt