A Quinta da Atalaia em Amora, um lugar com História (1)
07.11.20, os amorenses
A Quinta da Atalaia em Amora, um lugar com História (1)
Domingo, 23 de Agosto de 2020

Apesar das muitas dificuldades encontradas para conhecer o passado histórico da referida quinta, seguidamente abordarei o que foi possível saber acerca da sua secular existência.
FRADES JERÓNIMOS DE BELÉM, PROPRIETÁRIOS DA QUINTA DA ATALAIA JÁ NO SÉCULO XVI
Nos séculos XVI e XVII, a quinta da Atalaia pertenceu aos frades Jerónimos de Belém. Efetivamente, segundo documentação existente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, relativa ao "Mosteiro de Santa Maria de Belém", sabe-se que, no ano de 1594, o conde da Vidigueira se apoderou ilicitamente dos bens e rendimentos da Quinta da Atalaia, que já nessa altura pertencia aos frades Jerónimos de Belém. No seguimento deste processo litigioso, entre os referidos religiosos e o dito conde, foi este último condenado e obrigado a devolver os rendimentos de que se tinha apropriado ilegalmente.

Dom Francisco da Gama, 4.º Conde da Vidigueira (1565 — Oropesa, julho de 1632) foi um nobre e militar português. Por duas vezes, foi Governador e Vice-Rei da Índia. Era bisneto de Vasco da Gama e filho de Vasco da Gama, 3.º Conde da Vidigueira.
Já no ano de 1655, D. João IV concedia carta de privilégio para as propriedades do Mosteiro de Santa Maria de Belém, sitas nesta região de Amora, fazendo editar nessa data, um alvará que proibia que "pessoa alguma, nas Quintas da Palmeira (Paio Pires), Atalaia e Fernão Ferro, corte pinheiros, nem sobreiros, nem arranque cepos, nem cepa, nem tojo, nem outro qualquer mato sem licença do religioso que nas ditas quintas tiver cargo..."
A NOBRE CASA DOS CONDES DE ATALAIA
Mais tarde, no século XVIII, encontrava-se já esta importante quinta, situada em frente da capital do reino, na posse dos condes de Atalaia. Relativamente a esta época e tendo por base a Corografia Portuguesa, da autoria do padre António Carvalho da Costa, datada de 1712, sobre a freguesia de Amora, é possível saber o seguinte: "Havia nela muitos morgados e quintas e nobres famílias, como o Morgado da Quinta dos condes de Portalegre, pertença de Francisco de Melo, monteiro-mor do reino; o da Quinta Grande, no sítio da Fonte da Prata, que foi dos Correias Lacerda; o dos Condes da Atalaia; e no sítio do Talaminho, outro, da antiga família dos Morais e Cabrais...".
Igualmente na "Revista Agrícola", órgão da Real Associação Central da Agricultura Portuguesa, da autoria de Igínio Gagliardi e datada de 1869, se escreve: "Existe ao pé de Amora, uma quinta que pertencia aos Exmos. Condes de Atalaia, dos quais, segundo parece, assumiu o nome, pelo facto de pertencer a tão ilustre como nobre casa."
Realmente, numa primeira abordagem, tal assim parece ser, até porque aqui na freguesia de Amora muitas quintas adquiriram os nomes dos seus proprietários ou dos seus títulos religiosos e nobiliários.
No entanto, a origem do nome da Quinta da Atalaia é anterior à sua ligação com a casa dos condes de Atalaia, uma vez que já no século XVI e XVII existem referências com a mesma designação à mencionada propriedade, sendo esta nesse tempo pertença dos frades Jerónimos de Belém.
Põe-se então também a hipótese do nome Atalaia estar associado à existência no local, em tempos remotos, de uma torre ou lugar de vigia, ou seja, de uma atalaia, que prevenia a aproximação do inimigo.
Efetivamente, constata-se que nas zonas altas desta Quinta da Atalaia existem locais de onde se abarcam largas vistas, particularmente sobre o grande estuário do Tejo, sendo perfeitamente possível aqui ter existido uma atalaia, remontando à própria Idade Média, quer ao período da ocupação árabe, quer ao da ocupação cristã.
Voltando ao título dos condes de Atalaia, e não se sabendo ao certo a partir de que momento é que esta histórica quinta de Amora passou a pertencer aos ditos condes, pode-se, no entanto, mencionar que esta nomeação honorífica foi atribuída, pela primeira vez, em 1466, no reinado de d. João II, a Vaz de Melo, governador da "Casa do Cível" e senhor da vila de Atalaia. Esta antiquíssima vila de Atalaia, com forais concedidos por D. Afonso II, D. Dinis e D. Manuel I que acabou por constituir priorado da apresentação dos condes de Atalaia, seus donatários, localiza-se hoje no concelho de Vila Nova da Barquinha (Ribatejo) a poucos quilómetros do Entroncamento.
No que respeita ao referido título, viria o mesmo a ser interrompido logo na primeira geração, quando o seu primeiro titular morreu sem deixar descendentes.
Mais tarde, no reinado de D. Filipe I, no ano de 1583, voltou, no entanto, o mesmo a ser atribuído a Francisco Manuel de Ataíde, que o veio a legar aos seus descendentes.

João Manuel de Noronha, 1º Marquês de Tancos, 6.º Conde da Atalaia - fonte : geni.com
D. João Manuel de Noronha, O Sexto e Último conde de Atalaia, a quem também foi dado o título de 1.° marquês de Tancos, por D. José I, no ano de 1751, foi por certo um dos proprietários da Quinta da Atalaia, em Amora, e isto porque, em 1758, em resposta ao Inquérito Pombalino, o pároco de Arrentela, Manuel Vicitas de Macedo, refere relativamente às quintas, nessa altura existentes na região o seguinte: "o lugar do Talaminho e Cheira Ventos com várias fazendas e a melhor do desembargador Domingos Lobato Quinteiro; a quinta da Barroca; a do Excelentíssimo Marquês de Tancos; a das freiras Brigidas e a de D. João de Alencastre, e o lugar de Amora e outra quinta do Excelentíssimo Monteiro Mor do Reino."
(continua)
fonte: “Amora Memorias e Vivencias d’Outrora” do Prof. Manuel Lima
foto: ecomuseu municipal