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As Raizes de Amora

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

A Quinta do Conde ou do Monteiro Mor

11.11.20, os amorenses
A QUINTA DO CONDE OU DO MONTEIRO-MOR DO REINO
 

O velho solar da Quinta do Conde (à direita) e a

A 20 de Abril de 1758, o então vigário de Amora, Sebastião Roiz Rogado, em resposta ao "Inquérito Pombalino" (reinado de D. José I), referindo-se às ermidas existentes na sua paróquia, escreve: "... a quarta é na quinta do Monteiro-mor do Reino, chamada a quinta do Conde, é da invocação de Nossa Senhora da Piedade, com porta para a rua, e tem sino, é muito antiquíssima."

 
Recuando ainda um pouco mais, e agora segundo a Corografia Portuguesa do padre António Carvalho da Costa, datada de 1712, podemos ler em relação à freguesia de Amora o seguinte: "há nela muitos morgados e antigas quintas e nobres famílias, como são o morgado da Quinta dos Condes de Portalegre, que possui hoje Francisco de Melo, Monteiro-mor do reino."

Francisco de Melo, Monteiro-mor do reino.jpg

Destas duas transcrições relativas ao século XVIII, e ainda com base na memória dos mais antigos, ficamos a saber que a Quinta dos Condes de Portalegre, também conhecida por Quinta do Monteiro-mor do Reino, se situava na atual grande mancha urbana da freguesia de Amora, genericamente conhecida por Paivas.

Alipio Soeiro e Familia.jpg

Nos últimos tempos, antes de ser urbanizada, a Quinta do Conde de Portalegre, uma das maiores de Amora, era propriedade dos Duques de Palmela, sendo seu caseiro Alípio Soeiro, que aí vivia com sua família.

Possuidora de casas de habitação com primeiro andar, capela, arrecadações de alfaias, abegoaria, adega, poços, pomares, hortas e vasto sobreiral, foi seu último rendeiro, no princípio dos anos 40, António Ceroulas, apresentando a quinta no seu tempo, importante atividade rural.
 
Todas estas infraestruturas relativas ao passado agrícola desta histórica Quinta, que já se encontravam em avançado estado de degradação nos anos 60 do século XX, acabariam por desaparecer, dando lugar às urbanizações, edificações e equipamentos sociais hoje ali existentes, os quais começaram a ser construídos ainda na década de 70.
 
O próprio topónimo Paivas, também de origem relativamente recente, terá a ver, ao que parece, com o nome de uma das famílias, que só a partir de finais do século XIX passou a ser proprietária de algumas das terras vizinhas da Quinta do Conde, situadas a sul do atual troço da EN 10 (Avenida 1. ° de Maio), que liga a Cruz de Pau ao Fogueteiro. Por outro lado, como se verifica pelas transcrições apresentadas no início do texto, o próprio nome desta Quinta dos Condes de Portalegre, localizada em Amora, remonta pelo menos ao século XVII.
 
Não havendo certeza acerca dos nomes dos Condes de Portalegre que foram proprietários desta Quinta, sabe-se, no entanto, que o referido título nobiliário foi pela primeira vez concedido, em 1498, por D. Manuel I, à pessoa de D. Diogo da Silva Meneses (1° Conde de Portalegre) e que da mesma denominação honorífica passaram a ser titulares, ao longo de séculos, diversas figuras históricas da monarquia portuguesa, onde se inclui o 5º Conde de Portalegre, D. Diogo da Silva, governador do reino, durante os reinados de Filipe II e Filipe III.
 
Já a partir de 1759, este título passou a ser representado pelos Marqueses do Lavradio.
Mas lembremos a figura daquele que foi seguramente proprietário desta Quinta do Conde, em princípios do séc. XVIII, D. Francisco de Melo, com o cargo de monteiro-mor do reino.
 

Marco de divisão de propriedade pertencente aos d

Marco de divisão de propriedade pertencente aos duques de Palmela

Sem que muito se saiba sobre esta personalidade que viveu no reinado de D. João V, faremos referência particularmente às suas funções. O cargo de Monteiro-mor do reino foi criado por D. João I, a partir do séc. XIV, para superintender na administração de todas as coutadas reais, áreas de território nacional onde, salvo raras excepções, só o rei e as suas comitivas podiam caçar.

Habitualmente, cada couto tinha como responsável um monteiro-mor, ajudado por outros monteiros, guardadores ou couteiros. À frente de todos eles, e supervisionando todo e qualquer couto a nível nacional, encontrava-se então, como responsável máximo, o monteiro-mor do reino.
 
Este cargo, para além de outras regalias, tinha direitos sobre os valores das multas aplicadas a quem fosse apanhado a caçar indevidamente nos coutos do Rei, assim como alçada jurídica sobre os mesmos infratores.
 
No que refere à península de Setúbal, incluindo a atual área da freguesia de Amora, já em 1381, no reinado de D. Fernando I, este território se encontrava todo praticamente inserido numa coutada real, tendo aqui sido proibida, entre outras atividades, a caça ao javali.
Ainda um pouco mais tarde, no reinado de D. João I, são referidos como existentes nas coutadas da Estremadura Odiana (Guadiana), para além dos javalis, igualmente cervos (veados) e até mesmo ursos.
Com o passar dos anos, e fundamentalmente a partir do século XVI, as quintas foram-se instalando nesta região de Amora, dando as matas e as charnecas lugar aos espaços agrícolas, como veio por certo a ser o caso da Quinta dos Condes de Portalegre ou do monteiro-mor do reino, a que neste texto nos referimos.
 
Fazendo votos para que também estas linhas possam contribuir para melhor conhecermos o passado histórico do território, que nos acolhe para viver, termino agradecendo a Jaime Soeiro, filho de Alípio Soeiro, antigo caseiro da Quinta do Conde de Portalegre, toda a informação e colaboração que me prestou, para a elaboração deste texto.
 
Fonte: “Memórias e Vivencias D’Outrora” do Prof. Manuel Lima
Fotos: Nelson Cruz, Tribuna do Povo, Jaime Soeiro, Manuel Lima