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As Raizes de Amora

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

Amora e a origem do seu nome

06.11.20, os amorenses
AMORA E A ORIGEM DO SEU NOME
 
Sábado, 26 de setembro de 2020

Amora Banner.jpg

No ano de 1384, quando o rei de Castela discutia o seu direito ao trono de Portugal, as tropas castelhanas, cuja frota se encontrava no Tejo, dificultaram a vida aos habitantes de Almada, uma das povoações que se pôs do lado do "Mestre de Avis".

Neste tempo, Almada abastecia-se de nascentes aquíferas existentes junto ao rio, onde os castelhanos não permitiam a recolha do precioso líquido, de tal forma que dentro do castelo, e porque a água tinha acabado dentro das cisternas, homens, mulheres e crianças começavam a morrer à sede.
 
Entretanto, do lado de fora, os castelhanos que se encontravam estacionados no rio e a sitiar Lisboa, tentavam roubar tudo o que se pudesse comer nos territórios da Margem Sul, inclusive na região de Amora.
Relativamente a estas incursões locais dos castelhanos, diz-nos, no entanto, Fernão Lopes, na sua Crónica de D. João I, que os ditos não tinham a vida facilitada, uma vez que: "os da vila (de Almada) saíam fora a esperar os castelãos (castelhanos) em certos passos, (...) e matavam deles e feriam, em tanto, que (os mesmos) já não ousavam de ir senão juntos.Rua das Amoreiras em Amora
Rua das Amoreiras em Amora
E assim (os que estavam com o Mestre) esperavam os que iam nos batéis (castelhanos) à Arrentela e Amora a roubar, de guisa que (de tal forma que) um dia mataram mais de trinta, todos em uma lama (sapal)."
É também esta referência à povoação de Amora, uma das mais antigas que se conhecem, verificando-se que, a mesma, já assim era designada, há mais de seis séculos (622 anos), ainda durante a Idade Média.
O porquê desta designação, ou seja, a origem do topónimo Amora é que não é assim tão fácil de explicar, nem se encontra totalmente esclarecido.
De facto, não se conhece qualquer documento antigo, em que a origem desta designação esteja perfeitamente referida ou justificada.
Normalmente, este nome de "Amora" é considerado como estando relacionado com os frutos das amoreiras, como aliás está representado no próprio "Brasão de Armas" da Cidade. Tem a sua lógica, e poderá ser certamente essa a explicação mais correta, no entanto, não quisemos deixar de meditar sobre este assunto.
Pelo menos, do que não existe mesmo dúvidas é de que há muito que nesta freguesia existem amoreiras e ainda hoje, no núcleo antigo de Amora de Baixo, se podem encontrar as seguintes placas toponímicas: "Rua das Amoreiras", "Travessa Amoreiras" e "Beco da Amoreira". Relacionado com as mesmas amoras está certamente também o Vale das Amoreiras, na Quinta da Mata, a sul do Fogueteiro.
 
Constata-se igualmente que, mesmo em documentos relativos ao Arquivo Paroquial de Nossa Senhora de Monte Sião, "Rol dos Confessados", datados do início do século XIX (com cerca de 200 anos), algumas destas designações, como é o caso da "Rua das Amoreiras", já existiam. Falando com alguns dos anciãos "Amorenses", como é o caso de Pastora Lira, ficamos a saber que aqui existiam muitas árvores com amoras, como era, por exemplo, o caso das que se encontravam na Quinta da Medideira próximo de um tanque de rega, situado junto ao actual campo de futebol. Diz-nos igualmente a prestimosa senhora que, antigamente, à entrada do Largo dos Lobatos havia também uma amoreira muito grande.
Conta-nos por sua vez Joaquim "Jota" que na Quinta do Manuel de Carvalho, situada por detrás da "Vila Branca", existia outrora, junto de um tanque, uma amoreira enorme, assim como na Quinta do Património (hoje externato Novo Dia) existiam duas amoreiras muito grandes, e que se chegava a pagar ao seu proprietário dez escudos para se apanhar e comer amoras durante meia-hora e cinco escudos, por um quarto de hora.

Por outro lado, ainda hoje é possível encontrar por aqui alguns velhos exemplares destas árvores, como é o caso daqueles que se encontram junto ao antigo tanque de rega da Quinta do Talaminho ou junto do portão principal da entrada da Quinta da Princesa.
Antiga Amoreira na Quinta do Talaminho - foto: Prof. Manuel Lima
Em Amora de Cima, próximo do Cruzeiro, desde há muito que sempre existiram amoreiras e na Avenida das Paivas, já no período pós"25 de Abril", foram plantados muitos exemplares destas árvores, os quais se encontram hoje no seu estado adulto.
Rua 1 de Maio - Amora de Cima - Amoreiras Adultas
É, no entanto, importante referir que não existe apenas uma espécie de amoreira nesta freguesia de Amora, pois existem várias. A amoreira branca (Morus alba), originária da China e da região da Mongólia, a amoreira indiana (Morus indica), originária do norte da índia bastante cultivada em Goa, e a amoreira negra (Morus nigra), esta originária de uma área geográfica mais próxima de Portugal, o Médio Oriente e a Pérsia. No caso das duas primeiras espécies, onde se inclui a amoreira branca, que é hoje muito abundante nas Paivas e noutros espaços verdes de Amora, devem as mesmas, pela sua origem (Extremo Oriente) ter chegado a Portugal só depois do século XVI, após a época dos Descobrimentos.
Sabe-se que estas duas espécies, cujas folhas são as melhores para alimentar os bichos-da-seda, passaram a ser cultivadas em Portugal, sobretudo a partir do século XVII, reinado de D. Pedro II (pretendia-se nesse tempo que houvesse mais amoreiras, para que se pudesse produzir mais seda). Por decreto régio de 1678 é recomendado então que se plantem "na maior quantidade que puder ser, nos campos, hortas, baldios e mais sítios que se acharem capazes."
Em 1734, reinado de D. João V, foi lavrada escritura para a instalação daquela que viria a ser a importante "Fábrica Real das Sedas" construída no Rato (Lisboa).
Em 1752, reinado de D. José I, foram concedidas grandes facilidades aos plantadores de amoreiras, para aumentar a produção nacional de seda e evitar assim a sua importação.
Diz o alvará emitido nesta data que: "Sua majestade honra todos os que se ocupam, tanto da criação das sedas, como das amoreiras" e que "aos que lavrarem três arrobas de seda e daí para cima ficam homens nobres (...) "e aos que já forem nobres acrescenta Sua Majestade sua nobreza."
Na Amora houve, em tempos, certamente criação de bichos-da-seda. Aliás, há quem se recorde que, mesmo nos anos 60 do século XX, ainda passava uma pessoa a recolher os casulos daqueles que exerciam essa atividade.
Fabrica de Tecidos de Seda Praça das Amoreiras, em 1961 (Foto: Arnaldo Madureira, Arquivo Municipal de Lisboa)
Mas o que está em causa, lembremos, é a origem do nome Amora, que remonta não ao século XVI ou XVII, anteriormente referidos, mas pelo menos ao século XIV, altura em que não se conhecem referências de plantações de amoreiras ou de criação de bichos-da-seda em Portugal.
Se o topónimo Amora estiver ligado às amoreiras, certamente que se referirá à amoreira negra, (Morus nigra) a que dá, não as melhores folhas para os bichos-da-seda, mas os melhores frutos comestíveis.
É, pois, mais provável que esta espécie, por ser originária do Médio Oriente, possa ter sido introduzida no tempo dos Romanos, Visigodos ou mesmo dos Árabes.

Na freguesia de Amora esta espécie de amoreira, que desde há muito parece ter sido cultivada a pensar nos seus frutos suculentos, apresenta folhas em tons de verde-escuro, ásperas na página superior e pubescentes na inferior.
É essa espécie, ainda hoje representada localmente por alguns velhos exemplares, que certamente têm maior probabilidade de estar relacionada com a origem do nome amora.
Aliás, era essa a convicção da população amorense, quando aplicou folhas e frutos de amoreira nos trajes dos figurantes da sua "Marcha popular", que desfilou pelas ruas de Amora em 1940, ou mais tarde escolheu uma amora como um dos símbolos do Brasão de armas da cidade, conjuntamente com o bote do pinho e a roda dentada.
Brasão de Armas da Cidade de Amora
 
Apesar da grande probabilidade de ser esta a origem deste topónimo, existem sempre outras hipóteses, uma das quais nos parece igualmente muito plausível, como é o caso daquela que o relaciona, não com as amoras (das amoreiras), mas sim com as amoras silvestres.
Ninguém terá dúvidas de que os valados e azinhagas desta freguesia sempre tiveram, assim como têm hoje, em muitos locais moitas de silvas (Rubus ulmifolius, Schott), plantas trepadoras com espinhos, da família das rosáceas, espontâneas ou autóctones desta região. "Filhas da casa", sempre aqui existiram, certamente mesmo no séc. XIV, quando este pequeno lugarejo já se designava então por "Amora".
Continuando a não haver certezas, é, no entanto, também muito provável que as amoras silvestres, fruto múltiplo de pequenas drupas, oferecido pela natureza e muito apreciado sobretudo em momentos de escassez de alimentos, possa estar na origem do nome desta freguesia.
Imagine-se a "Amora" do século XIV, com meia dúzia de casas, próximo de Cheira-Ventos, às quais se chegava através de caminhos de terra, trilhados por carros de bois e bestas de carga tocadas por almocreves, que vindos, dos lados de Almada, por aqui passavam a caminho de Sesimbra, Palmela ou Terras do Alentejo.
É muito provável que estes caminhos, ladeados por taludes e barrancos, oferecessem no Verão, ao viandante, os frutos saborosos dos seus silvados (as amoras) e que tal possa também ter estado na origem do nome desta Terra, onde mais tarde muitos nasceram e sobretudo hoje muitos residem.
 
fonte e fotos: “Amora Memorias e Vivencias d’Outrora” do Prof. Manuel Lima
foto de capa: Paulo Cavaco