Amora, Meados do Século Passado
AMORA, MEADOS DO SÉCULO PASSADO (1)

Azulejo existente no Correr d'Água, na casa da D. Idalina Barreta, alusivo à passagem de Nossa Senhora Peregrina, por Amora, em 1946.
Apesar de, já em finais do século XIX, a freguesia de Amora ter sofrido os efeitos da Revolução Industrial, a qual se viria a fazer sentir ao longo de toda a primeira metade do século XX, tal não trouxe tantos benefícios à população, operária e trabalhadora, como de alguma forma seria de esperar.
Apesar das variadíssimas indústrias instaladas até aos anos 60 do século passado (moageira, vidreira, conserveira, pólvora, lanifícios, vimes, corticeira, resineira e construção naval, entre outras), nem sempre as mesmas, pelas frequentes dificuldades laborais ou pelos baixos salários pagos, trouxeram à população de Amora o desafogo de uma vida condigna.
Grupo de Costureiras trabalhando em casa de D. Valentina em Amora 1962 - Foto da Familia de Pastora Lira. A D. Valentina foi uma exímia Bordadeira Amorense, ainda hoje em 2020 é uma das fontes d'As Raizes de Amora em memórias do seu tempo, desde a Australia onde se encontra desde os Anos 70. O nosso Obrigado pela sua participação e enorme carinho pelo nosso site.
De acordo com algumas entrevistas que fiz a vários anciãos do povo, naturais ou há muitos anos residentes em Amora, aqui deixamos expresso alguns factos relativos às dificuldades vividas pela maior parte das famílias locais, no tempo do Estado Novo.
No que refere à alimentação, e particularmente no período relativo à "Segunda Guerra Mundial", foram muitos os que nesse tempo passaram fome ou pelo menos tiveram uma alimentação desnutrida.
A sopa e o café de borras feito no braseiro tentavam encobrir a fome, numa altura em que até o pão era racionado. No princípio dos anos 40, por falta de farinha de trigo, chegou-se mesmo, inclusivamente, a fazer pão a partir de farinha de favas moídas.
Carne só muito esporadicamente era comida, na maior parte das famílias só uma ou duas vezes por mês.
Grupo de rapazes nos esteiros do Rio Judeu 1959 - foto da Familia Alfredo Guise
Salvava muitas vezes a difícil situação de alguns agregados mais pobres os frutos que o rio podia dar, a lamejinha, as ostras, os xarrocos ou as enguias.
No Verão e às escondidas, as quintas eram frequentemente "visitadas" pelas crianças, na procura de umas frutas retemperadoras.
Nas azinhagas as amoras silvestres ou os figos da índia, em época própria, constituíam um valor acrescentado.
Nas mercearias compravam-se pequeníssimas porções de alimentos, uma quarta de café ou um decilitro de azeite tinha de render e remediar, normalmente, famílias numerosas.
Quando uma fábrica encerrava ou nos períodos de greve, diz-nos Maria Morais Coelho, filha de João "Padeiro": "As pessoas não podiam pagar, era tudo comprado a fiado, havia um caderno ou rol para assentar as despesas, que muitas vezes só se pagavam quando se conseguia de novo arranjar trabalho."
Diz-nos também Joaquim "Jota" que: "Nos comércios de porta-a-porta feitos com burros e carroças, como era o caso do peixeiro João Tavares, conhecido pelo "Trouxa", que os fiados eram apontados nas ombreiras das portas ou dos portais, com cruzes, traços ou bolinhas, SÓ se recebendo aos fins-de-semana.
Sendo o poder de compra baixíssimo, o pouco dinheiro que havia nem sequer dava para o carvão.
A maior parte das famílias procurava nas matas o combustível das suas fornalhas de cozinha. Pinhas, "taralhões", cascas, tocos e raízes de pinheiros, cujos troncos já tinham sido cortados para outros fins, eram procurados com frequência para esse objetivo, pois só mais tarde haveriam de aparecer os fogareiros a petróleo.
Os ferros de engomar eram encostados às fornalhas das cozinhas, para que aquecessem. As roupas eram remendadas até à exaustão, muitas vezes com remendos de cores diferentes.
As crianças andavam na grande maioria descalças.
As próprias habitações eram também muito pobres e modestas. Conta-nos Pastora Lira que, quando casou com Idalino Lira, veio morar para um curral de cabras do seu bisavô situado em Fonte de Cima."
Existia quem, por nada ter, e num ato de desespero, fosse bater de porta em porta a mendigar algo que lhe pudessem valer.
Apesar de tudo, as boas relações de vizinhança e a entreajuda das famílias iam, em muitos casos, operando milagres.
Havia, contudo, algumas famílias mais abastadas na região que algumas vezes ajudavam os mais pobres, como era o caso (segundo nos relataram) de uma senhora chamada Dona Piedade residente na Quinta do Palácio do Infante, que valeu a muita gente.
A "SOPA DOS POBRES"
A partir do princípio dos anos 50, no tempo do Padre Manuel Marques, e numa altura em que a própria fábrica de cortiça "Mundet e C.", Lda." acusava já dificuldades de laboração, foi criada a "sopa dos pobres", que era "feita no "Centro de Assistência Paroquial de Amora" e distribuída por cerca de vinte a vinte e cinco famílias mais necessitadas.

Almoço oferecido pela Casa do Povo de Amora a sócios carenciados - 1958.
Era, a mesma, feita numa enorme panela e distribuída às pessoas, que com marmitas a iam buscar. Nalguns casos de entrevados ou doentes a distribuição era feita ao domicílio.
Para além da sopa, chegava a haver muitas vezes distribuição de pão e mais raramente de leite em pó ou de queijo. Estes últimos alimentos provinham, ocasionalmente, da "Caritas", organização internacional.
AS CARÊNCIAS DE SANEAMENTO BÁSICO
Como serão referidas, muitas foram igualmente as doenças que afetaram a população local, neste tempo do Estado Novo, algumas delas devido não só às carências alimentares, mas também às deficientes condições de saneamento básico existentes.
Na Amora dos anos 30, ainda não existia recolha de lixo porta-a-porta, só mais tarde, anos 40, surgiu a carroça da Junta de Freguesia, que então passou a depositar os lixos, relativos à população, nos terrenos vizinhos da Quinta do Conde (hoje Paivas). Aqui o lixo era amontoado e periodicamente queimado, sendo, posteriormente, muitas das suas cinzas utilizadas na adubação das terras.
Apesar desta recolha, muitos eram os que em meados do século XX depositavam seus lixos em montureiras, no fundo dos quintais, atrás dos muros ou em locais menos expostos. Normalmente os cheiros nauseabundos, as moscas e os ratos encontravam-se associados a estes potenciais focos de doença.
Nas ruas, anos 30, o Manuel "Pastilha" e também o próprio coveiro conhecido por "Charnito" limpavam o maior.
A Azinhaga das Vinhas, ladeada por piteiras, era então, toda ela, um autêntico sanitário público utilizado pela miudagem, que nas suas residências não possuíam casas de banho.
Nas habitações faziam-se as "necessidades" nas chamadas "tigelas da casa", que eram feitas em barro, com duas asas e muito mais altas do que os penicos. As famílias, que moravam mais próximo do rio, iam normalmente fazer os seus despejos nas lamas da maré, sendo um dos locais mais concorridos, aquele que se situava frente à rua das Amoreiras.
Nas alturas em que as mulheres despejavam as ditas "tigelas", conta-nos Joaquim "Jota" que muitos homens, por brincadeira, se metiam com elas, apertando com a mão as narinas ou exclamando "que fedooor!".
No caso das famílias que moravam mais afastadas do rio, também muitos dos dejetos humanos eram atirados para montureiras ou estrumeiras, servindo quase sempre posteriormente para fertilização das terras.
A instalação de esgotos na povoação de Amora só viria a surgir no princípio dos anos cinquenta, sendo a partir desta altura que as condições sanitárias nas habitações começaram a melhorar.
Por outro lado, foi também só na década de 50 que se instalou a rede de abastecimento de águas correntes nos domicílios.
Almoco na Colonia Balnear da Cantina Escolar de Amora 1960 - foto de Tribuna do Povo
Nos anos 40, todas as famílias se abasteciam de poços ou de fontanários públicos, não tendo, sobretudo no caso dos poços, muitas vezes, estas águas grandes qualidade.
Nos anos 30, uma das maiores aspirações da população de Amora era a construção de retretes públicas e de um balneário camarário, onde se pudesse tomar um duche.
Tal só veio a acontecer em meados da década de 40, (ainda que o duche fosse pago) tendo essas mesmas instalações sido construídas no local onde hoje se encontra o edifício sede da AURPIA, integradas no antigo lavadouro.
AS DOENÇAS ASSOCIADAS À POBREZA
Neste difícil período de princípio e meados do século XX, onde as populações da freguesia de Amora, à semelhança do que acontecia um pouco por todo o país, se confrontavam com grandes carências alimentares e baixíssimas condições de saneamento básico, muitas foram as doenças, que se instalaram e que semearam, nalguns casos, a dor da morte, entre as famílias locais.
Exame Medico relativo a tuberculose num consultorio de Lisboa. foto Ilustracao Portuguesa 1910
No período compreendido entre 1925 e 1940 morreram efetivamente muitas pessoas na Amora, sobretudo com a terrível doença da tuberculose, tendo outras ficado marcadas para o resto de suas vidas.
Esta doença, de alguma forma associada a carências alimentares e de salubridade, dizem os mais velhos que contagiosa, levou a que, de alguma forma, as pessoas "fugissem" umas das outras com medo dos contágios. Chegavam a ser afetadas famílias inteiras e os contaminados acabavam de alguma forma por ser marginalizados.
Nesta altura as principais fábricas locais passaram a obrigar os seus operários a fazer rastreios e surgiu no Seixal, Largo dos Restauradores, um centro do "Instituto Nacional de Assistência aos Tuberculosos", onde se faziam consultas especializadas.
Também chegou a vir à localidade de Amora uma carrinha do "IANT", munida de todo o equipamento necessário para efetuar radiografias ao tórax e de alguma forma promover o despiste da doença.
Não sendo, no entanto, uma doença fácil de erradicar, ainda em finais da década de 50, jornais locais, como é o caso da tribuna do povo, apelavam para a necessidade de se efetuarem radio rastreios e a vacinação "BCG".
Outra doença que surgiu em 1951, associada possivelmente à contaminação das águas dos poços que eram utilizadas no dia-a-dia, foi o tifo. Afetando neste caso particularmente a população do Seixal, obrigou no entanto a que houvesse também vacinação antitífica na Amora.
Nestes tempos recuados dos anos 30 e 40 do século XX, não existia ainda igualmente na Amora qualquer consultório médico ou farmácia. Só nas fábricas locais, particularmente na "Mundet e C.", Lda.", havia um enfermeiro (Júlio Ramalhete) e médico assistente.
Quando alguém adoecia era necessário ir, de barco, chamar o médico ao Seixal (sede do concelho), existindo dois médicos, o Doutor Cardoso, ligado à "Delegação de Saúde", e o Doutor Amândio Fiadeiro, ligado ao "IANT".
Quando alguma criança estava para nascer, chamava-se a Ti Joaquina "Petinga" do Correr d'Água, que, sem qualquer curso especializado, aparava o melhor que sabia.
Para comprar medicamentos era necessário ir à Arrentela, farmácia do senhor Anselmo. Só mais tarde, anos 50, surgiu a primeira farmácia em Amora, na Avenida Marginal Silva Gomes, da qual era proprietário Manuel Rego de Almeida, assim como o primeiro consultório médico, situado na mesma rua, paredes meias com a referida farmácia, pertencente ao Doutor Carlos Ribeiro.
Contam também os mais velhos que, as pessoas, quando se sentiam mal, não tinham qualquer socorro rápido ou ambulância que lhes acudisse, chegando a ser transportadas com padiolas em busca da assistência médica necessária.
fonte: "Amora Memorias e Vivencias d'Outrora" do Prof. Manuel Lima
