As Festas do Natal, Carnaval e Páscoa em Amora
AS FESTAS DO NATAL, DO CARNAVAL E DA PÁSCOA

Zona ribeirinha de Amora, antiga Alameda Oliveira Salazar hoje Largo Manuel da Costa. Anos 40 Sec. XX - foto Messias
Uma das interessantes realizações que durante o tempo de Natal, dos anos 50, (século XX) se levava a cabo na freguesia de Amora era a construção de presépios em diferentes locais da freguesia, chegando mesmo a haver prémios para os que melhor se apresentavam.
São dignos de notícia aqueles que, por exemplo, se fizeram na "Casa do Povo de Amora" ou no "Museu Evocativo Particular Vitória", pertencente ao Senhor José Inácio Rodrigues Costa, na altura localizado na Avenida Marginal Silva Gomes, já muito próximo da Praça 5 de Outubro.
Era igualmente habitual, nesta época, a realização de festas alusivas à quadra natalícia no Patronato, "Centro de Assistência Paroquial de Amora", onde participavam as crianças da catequese e das escolas locais.
Festa de Natal do Patronato. Presepio no Palco Ano de 1960 - foto Tribuna do Povo
No Ano Novo, à meia-noite do dia 31 de dezembro, fazia-se entoar o batuque das latas, o disparo de espingardas, os apitos das fábricas e o estalejar dos foguetes.
No dia 1 de janeiro, a banda da SFOA também percorria as ruas da Amora, para saudar os seus sócios e a população em geral.
No que refere à celebração do Carnaval em Amora, diz-nos Joaquim "Jota" que, nos anos 30 e 40, era o mesmo muito divertido, porque se faziam diversas "cegadas", que percorriam as ruas e às quais as pessoas assistiam livremente.

Criancas das Escolas de Amora mascaradas principio anos 60 - foto Tribuna do Povo
Cada cegada era constituída, normalmente, por quatro a cinco homens, que vinham apetrechados de alguns instrumentos musicais e representavam um género de enredo teatralizado, na maior parte das vezes de grande comicidade (tipo paródia). Como eram feitas nos locais de maior concentração popular, as pessoas normalmente juntavam-se à volta e divertiam-se com os "parodiantes".
Havia também um outro género de intervenções, designadas por "contradanças", em que, neste caso, prevalecia a expressão corporal.
Existiam também os chamados "ditoches" ou "pulhas", que se dirigiam a quem passava, ou àqueles com quem se tinha mais confiança e onde se permitia, só neste período carnavalesco, um certo abuso de linguagem verbal.
Quadro da Sagrada Familia oferecido pelas escolas da Freguesia a Casa do Povo de Amora principios dos Anos 50 - Foto Tribuna do Povo
Também no Carnaval, a rapaziada tinha algumas brincadeiras, nem sempre aceites de bom agrado pelos mais velhos, como, por exemplo, baterem às portas das pessoas e fugirem ou baixarem as cordas dos estendais, onde se secavam as roupas.
Conta-nos igualmente Joaquim "Jota" que outro momento muito interessante das tradições carnavalescas, dos anos 40, era o "Enterro do Entrudo". Para se poder celebrar este festejo, na quarta-feira de cinzas, ia-se buscar aos Foros de Amora, Quinta da D. Ermelinda, um boneco, que vinha normalmente dentro de um caixão e em cima de uma carroça, que imitava de alguma forma um carro funerário. A música da SFOA vinha atrás da carroça a tocar e os rapazes acompanhavam o cortejo aos gritos e fingindo que choravam, em grande alvoroço.
Este boneco, que representava o Carnaval ou Entrudo, chegava então finalmente à Amora de Baixo, Largo dos Lobatos, em frente do estabelecimento do senhor "João Padeiro", onde era queimado. Para dar mais aparato, e resultar em espetáculo, colocavam-se algumas bombinhas de Carnaval no seu interior, para que, de vez em quando, algumas delas explodissem e o boneco se despedaçasse.
No tempo da Páscoa, uma das tradições, mais antigas e interessantes, que se realizava nesta freguesia de Amora, nos anos 30/40, era a do Judas Iscariotes, efetuada no Sábado de Aleluia, às dez horas da manhã, junto ao Cais da Rampa.
Em tempos mais recuados, um boneco feito de trapos e roupas velhas, representando Judas Iscariotes, o traidor, que a troco de dinheiro entregou Jesus, para que fosse morto, era conduzido por um cortejo de barcos que, vindos do lado do Seixal, o traziam até à Amora. Desta comitiva naval faziam parte canoas e botes de pinho, que habitualmente navegavam no rio Judeu. O "Judas" (boneco) vinha pendurado na canoa do "Joaquim da Isabel". Depois de muito insultado e descomposto, pela atitude que teve para com Jesus, o "Judas maldito" era então finalmente queimado, enquanto o povo rezava e louvava a Deus.
É de notar que nesta altura a freguesia de Amora não tinha um pároco a tempo inteiro, tratando-se, pois, de uma tradição de caris estritamente popular e não acompanhada pelos serviços religiosos.
Também segundo recolha oral, pensamos que certamente numa fase um pouco mais tardia, o mesmo "Judas" (boneco) passou a ser retirado do barco que O trazia, e na rampa do cais entregue à rapaziada, que ansiosamente por ele esperava. Uma vez em terra, era o "Judas" arrastado com o auxílio de uma corda pelas ruas de Amora, batendo-lhe então os miúdos e mesmo graúdos com paus, até que no meio de grande algazarra finalmente se desfazia por completo.
fonte: "Amora Memorias e Vivencias d'Outrora do Prof. Manuel Lima