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As Raizes de Amora

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

Escolas e Educação em Amora (3)

06.11.20, os amorenses
ESCOLAS E EDUCAÇÃO EM AMORA (3)
 
Terça Feira, 08 de setembro de 2020
NA PRIMEIRA REPÚBLICA, A POBREZA VIVIDA PELAS FAMÍLIAS DE AMORA DIFICULTAVA A IDA À ESCOLA
Diz António Henriques Marques, em artigo publicado no jornal Tribuna do Povo, datado de 5 de Dezembro de 1977: "Há 60 anos (em 1917) Amora (povoação) pouco mais teria de 800 a 1000 habitantes, o número de analfabetos era grande, 80% da população não sabia ler. Os rapazes começavam a trabalhar entre os 8 e os 10 anos e não havia tempo para aprenderem a ler. As meninas essas ainda menos, por conveniência dos pais..."
Efetivamente, neste tempo, em que a escola não era obrigatória, muito poucos eram ainda os que frequentavam com sucesso o ensino primário. A grande necessidade e pobreza da maior parte das famílias obrigavam a que os filhos, ainda na idade de crianças, começassem a sua atividade laboral, como foi o caso de Pastora Lira (hoje com 91 anos) e de Idalino Augusto Lira, (92 anos) dois dos nossos entrevistados. No caso concreto de Amora era, nesta época, especialmente a fábrica de vidros "Companhia das Fábricas de Garrafas de Amora" que recrutava, na tenra idade, aqueles que viriam a ser canalizados para aprendizes da arte.
Esta foto representa a primeira e segunda classe no Ano de 1950 com o Professor Teodemiro Costa
Os que iam à escola faziam-no, nem se calcula com que dificuldades para as famílias e em que condições para os alunos.
Segundo informação que nos proporcionou Joaquim "Jota", hoje com 85 anos, quando ele entrou para a escola, ano de 1926, nessa altura, o que encobria a miséria das poucas roupas que possuíam as crianças era um bibe riscado aos quadradinhos azuis e brancos, usado tanto por rapazes como por raparigas.
Por não haver casa de banho no edifício escolar, os alunos faziam as suas "necessidades" nos valados de uma azinhaga que existia em frente da escola, designada por Azinhaga das Vinhas, ou debaixo de um castanheiro, que existia na anexa Quinta do Rosinha.
No que diz respeito a calçado, ainda segundo Joaquim "Jota", mais de três quartos dos alunos andavam descalços, só alguns, que viviam um pouco mais remediados, como eram exemplo os filhos dos encarregados gerais das fábricas (vidros ou cortiça), é que usavam alpercatas de borracha e lona, do tipo chinelas.
Se alguém tivesse sapatos teria de os descalçar quando queria jogar à bola, para que não os estragasse.
O Professor Jose Duarte Jorge, na Escola Velha de Amora, com uma turma de rapazes, 4 classe anos 60 do Seculo XX. Foto Messias
As malas da escola eram sacolas feitas artesanalmente de serapilheira, que alguns dos pais arranjavam na fábrica de cortiça "Mundet & C", Lda.".
O lanche ou merenda não havia, só alguns, muito poucos, levavam uma "bucha" ou côdea de pão, na maior parte dos casos dura.
Cadernos e lápis quase não existiam, sendo muito restritos. Neste tempo, usavam-se sobretudo as ardósias, que se apagavam com um trapo velho.
A 1ª. e a 2ª. classe eram então ministradas no rés-do-chão e a 3ª. e 4ª. classes no
1.º andar.
No rés-do-chão, apesar de haver só uma sala, os rapazes estavam separados das raparigas. No 1.º andar havia uma sala distinta para cada um dos sexos.
Neste final da década de 20, princípios dos anos 30, do século passado, ministravam na "Escola Velha de Amora", segundo nos informou, por sua vez, Guilherme Baptista, com 83 anos de idade, o professor Paliar Ferreira, irmão do então diretor da Casa Pia de Lisboa, o professor José Maria Vinagre, muito temido pelos seus alunos, e a professora Virgínia Santos, casada com o barbeiro da terra, o senhor Vieira, estabelecido na Rua das Amoreiras.
Turma de raparigas na Escola Velha de Amora
Apesar do funcionamento escolar e tendo em conta a baixa frequência por parte das crianças, que eram canalizadas para a vida operária, diz-nos Guilherme Baptista, o analfabetismo continuava a ser grande nesta época, ainda que com alguma redução, relativamente a épocas anteriores.
Segundo o censo da população de Portugal, do 1º. de Dezembro de 1930, a população da freguesia de Amora, nesta data, era de 2756 habitantes e a percentagem das pessoas que não sabiam ler nem escrever próximo dos 64%.
fonte: “Amora Memorias e Vivencias d’Outrora” do Prof. Manuel Lima
fotos: ecomuseu municipal, Tulio Soares