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As Raizes de Amora

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

Escolas e Educação em Amora (4)

06.11.20, os amorenses
ESCOLAS E EDUCAÇÃO EM AMORA (4)
 
Quinta Feira 15 de outubro de 2020
O ENSINO ESCOLAR NA FREGUESIA DE AMORA, DE MEADOS DOS ANOS 30 AOS ANOS 50
 
No Verão de 1935, continuavam a ser professores na Escola Velha de Amora", a única ainda então existente, o professor Vinagre e a professora Virgínia, já referidos anteriormente, tal como nos refere a seguinte notícia da época, publicada pelo jornal O Seixalense: "Realizaram-se de 15 a 24 de Julho, os exames de instrução primária elementar oficial deste concelho, que funcionaram na escola "Conde de Ferreira " desta vila, sendo presidente do júri misto o senhor professor Aurélio Rocha.
 
Foram apresentados a exame, provenientes da freguesia de Amora, Escola Feminina; as alunas Ana Clotilde Neves Reuter e Ernestina Soares Barras, aprovadas; proponente professora D. Virgínia do Carmo Santos. Escola Masculina; o aluno Eduardo António Gomes, aprovado e o aluno Alfredo António Baptista Guise, aprovado com distinção; proponente professor José Maria Vinagre Preto da Cruz."
Segundo uma antiga funcionária da "Escola Velha de Amora", D. Maria da Piedade, hoje com 73 anos, o professor Vinagre ensinava muito bem, sendo, contudo, conhecido por professor da "sova", pelos castigos e tareias que dava às crianças, quando entendia que não se portavam bem ou tinham menos bons resultados escolares.
Prof. Jose Maria Vinagre com a Turma de Rapazes da 4 classe em 28 de Marco de 1935
Disseram-nos igualmente outros amorenses entrevistados, como Salvador Barros Tiago (78 anos) e Magnaldo Malta (75 anos), que o professor Vinagre conhecia os pais de todos os alunos e que, quando algum faltava às aulas, ia à sua procura, nem que fosse de noite, à casa da família.
Muitas eram as bofetadas que distribuía pelos alunos, assim como frequente o uso da palmatória ou "menina dos cinco olhos", como vulgarmente era conhecida.
Dizem alguns dos seus antigos alunos, caso dos entrevistados, que chegavam a ficar com as mãos roxas e nalguns casos a necessitarem de ser ligadas.
Havia dias em que se ouvia, a distância apreciável da escola, o choro e os gritos dos alunos quando eram castigados e molestados fisicamente pelo seu professor.
Muitos fugiam à escola por medo. Neste tempo, apesar de viverem algumas vezes o drama dos filhos, os pais não ousavam pôr em causa a autoridade do professor e o estatuto que lhe era atribuído pelo Estado Novo.
José Maria Vinagre, apesar dos seus duros métodos de ensino, nunca foi, contudo, tido como cúmplice do governo de Salazar, tendo mesmo a sua residência sido, a certa altura, invadida pela polícia política do regime ditatorial, como refere Alberto Carvalho, em artigo publicado a 21 de Dezembro de 1974, no jornal Tribuna do Povo: "Invadiram lhe a casa, arrastaram-no para a rua e levaram-no, alheios aos rogos da esposa, que, de joelhos, implorava a liberdade do marido.
Com base nestes factos e na sua oposição ao regime político então vigente, no período pós-revolução de Abril, no dia 1 de Novembro de 1974, às antigas Rua e Praceta Marechal Gomes da Costa foi dado o nome de Professor José Maria Vinagre, o que se viria a manter até hoje.
Placa da Rua Prof. Jose Maria Vinagre
Segundo Guilherme Baptista, na entrevista que nos concedeu, já no final da década de 30 foram professores igualmente nesta escola de Amora, o casal Gouveia e Aninhas, mencionando-nos a ginástica que, nesta altura, se fazia no pátio da escola e os arremessos de objetos, que frequentemente o referido professor atirava aos alunos, quando lhes queria despertar a atenção ou com eles se zangava.
Das poucas professoras que nesta altura ensinaram na "Escola Velha de Amora", cita-se a professora Maria da Luz que vinha de Lisboa, saindo da camioneta no sítio da Cruz de Pau, a mais de um quilómetro da escola, tendo na maior parte dos casos de fazer este percurso a pé ou então de carroça, quando tinha a sorte de alguém lhe oferecer os seus humildes préstimos. Relativamente a esta professora, disse-nos Magnaldo Malta que quando os alunos não tinham aproveitamento os punha à janela com umas "orelhas de burro", feitas de papel.
NOS ANOS 40 e 50, DOIS CASAIS DE PROFESSORES PARTILHARAM O EDIFÍCIO ESCOLAR COMO RESIDÊNCIA
Segundo Salvador Barros Tiago, foi no início dos anos 40 que dois casais de professores passaram a morar nas velhas instalações escolares da Rua Conselheiro Custódio Miguel Borja.
Para além de continuar a ter as suas salas de aula, o edifício passou também a albergar, no 1.º andar, o casal D. Maria da Conceição Ferreira e Teodomiro Dias Costa e no rés-do-chão o casal D. Maria Mercês Vieira Jorge e José Duarte Jorge.
As duas esposas eram igualmente irmãs e consequentemente os professores cunhados.
Turma com o Professor José Duarte Jorge
Os professores Teodomiro e Jorge davam aulas aos rapazes, no 1.º andar, e as professoras D. Maria Mercês e D. Maria da Conceição às raparigas, no rés-do-chão, mantendo-se, ainda nesta época, um ensino que não contemplava a coeducação.
Veio a ser, no entanto, nesta época, em que estes professores aqui ensinaram, que se implementou, apesar de tudo, um ensino mais humanizado e familiar, talvez até pelos laços de parentesco que se registavam entre os mesmos docentes.
Foi nesta altura que se construiu a primeira casa de banho destinada aos alunos no interior do edifício da escola e assim deixou de ser obrigatório para as crianças irem fazer as suas "necessidades" aos campos vizinhos.
Professora D. Maria da Conceicao na Escola Velha de Amora com uma Turma de Raparigas, meados dos Anos 40 do Seculo XX
Apesar de algumas melhorias, nesta década de 40 (século XX), muitas eram ainda as carências das famílias locais, o que se refletia no ambiente escolar e nas condições vividas pelos alunos.
Por força do regime político, nesse tempo, dentro das instalações escolares vivia-se obrigatoriamente a verdadeira filosofia imposta pelo Estado Novo. Nas paredes das salas de aula, as fotografias dos então chefe do Governo da Nação, Dr. António Oliveira Salazar e do Sr. Presidente da República, António Oscar Fragoso Carmona.
Professor Teodemiro Costa com turma de 1957
Como nos referiu Salvador Barros Tiago, nesta época, havia aulas também ao sábado de manhã, os alunos cantavam com frequência o hino "A Portuguesa" e a bandeira nacional era içada no mastro da escola, aos domingos e feriados.
Por outro lado, os alunos eram obrigados a ir regularmente com os seus professores à missa, acontecendo que, muitas vezes, já dentro da igreja, alguns fugiam aos seus mestres e vinham jogar com a trapeira (bola de trapos) para o adro da igreja, tendo o cuidado de estar de novo no mesmo lugar que tinham abandonado, antes da celebração terminar, sem que o professor desse por isso.
Dentro da sala de aula, os alunos sentavam-se aos pares em carteiras de madeira e tampos inclinados nas quais estavam inseridos dois tinteiros de louça branca, onde se molhavam as canetas de aparo e em caso de derrame de tinta se utilizava o mata-borrão.
Nesta época, as primeiras letras ainda eram aprendidas na cartilha de João de Deus e ao quadro negro de lousa, só se ia depois de se saber escrever o abecedário.
Classe de Raparigas com Professora D. Merces com o seu sobrinho Jorge junto a mesma. Fonte: Maria da Conceicao Lousada
Nos níveis seguintes de aprendizagem, era preciso esmerar a caligrafia, saber de cor a tabuada e evitar ao máximo os erros do ditado, que davam normalmente direito a reguadas. (nesta altura a palmatória entrava já em desuso, dando lugar às conhecidas réguas de madeira)
Os pesos e medidas, seus múltiplos e submúltiplos, eram já estudados na 3.a classe.
A 4.a classe não a fazia ninguém, que não soubesse, de fio a pavio, todos os reis e dinastias de Portugal, todas as linhas de caminho-de-ferro, serras e rios portugueses.
No que refere a castigos e punições, neste tempo dos professores Teodomiro e Jorge, já a mesma não era praticada como nas décadas anteriores.
Dizem alguns amorenses que o professor Jorge usava uma caninha com a qual ia chamando a atenção de alguns alunos mais distraídos e que o professor Teodomiro, "lagarto" de gema, quando a sua equipa perdia, avisava logo: "Oh, rapaziada, ponham-se a pau, que o Sporting perdeu!".
No que refere a jogos ou divertimentos, neste tempo, feitos pelos alunos na hora do recreio ou no caminho do regresso a casa, podem-se referir: o pião, a fisga, o berlinde, o salto ao eixo, o arco e a gancheta ou o botão.
Para jogarem este último, muitos dos rapazes procuravam botões junto dos lavadouros da praia de Amora ou do rio do Talaminho. O jogo consistia em arremessar botões contra a parede, de forma a tentar ficar perto dos outros botões dos adversários e assim poder ganhá-los.
Também por vezes se faziam "torneios", um rapaz "o cavaleiro" montava às cavalitas de outro, "o cavalo", constituindo o conjunto dos dois, uma parelha de luta. Depois de formadas várias parelhas e num terreno de areia existente na Quinta do Rosinha, situado em frente da escola, começava o torneio, vencendo aquela parelha que se aguentasse até ao fim sem cair.
Por sua vez, as raparigas jogavam, normalmente, jogos menos duros ou violentos, como é o caso das pedrinhas, da macaca, da cabra-cega ou do lenço.
 
Homenagem de antigas alunas a Dna. Maria Mercês Vieira Jorge (1980)
 
Homenagem aos Professores Maria da Conceição e Teodemiro Costa com Maria da Piedade e Magnaldo Malta na foto
 
Homenagem de antigos alunos ao Professor Teodemiro Costa - foto junto da Velha Escola de Amora
fonte: “Amora Memorias e Vivencias d’Outrora” do Prof. Manuel Lima
fotos: Maria da Conceição Lousada e ecomuseu municipal