Quando ressoava a trovoada no segundo andar da casa dos meus pais, era certo que a casa se enchia rapidamente das vizinhas temerosas. Procuravam a segurança da minha casa e a calma da minha mãe. Ali ficavam até voltar o silêncio. A D. Rita, vizinha do 3º andar, era de todas a que mais temia a trovoada e amiúde lembrava a tragédia da fábrica da pólvora. Lembrando os nomes e as histórias dos que pereceram, mas também daqueles que sobreviveram.
Mais tarde, o meu avô paterno, contou-me que Lisboa estremeceu. Apesar da distância, apesar de nada o ligar à Amora ficou tão impressionado que até ao fim da vida guardou os recortes dos jornais. Hoje, estive a fazer uma primeira triagem dos jornais que ele me deixou. Infelizmente, os recortes extraviaram-se, mas procurando os jornais online foi possível encontrar as notícias que partilho convosco. As notícias de uma tragédia que impressionou gerações. Uma página negra na história de Amora que as edições do Diário de Lisboa (24,25 e 26 Novembro de 1948) nos dias que se seguiram, ajudam a reconstituir.