Mas, para além desta, outras indústrias se estabeleceram neste concelho durante os finais do mesmo século, utilizando igualmente na sua laboração a força do vapor produzido em caldeiras, como são exemplo a "Fábrica de Vidros de Amora" ou a "Sociedade Africana de Pólvora" de Vale de Milhaços.
Ainda no caso concreto da freguesia de Amora, tal como nos refere Alberto Pimentel, (1908) em Estremadura Portuguesa, "já em 1862 aqui estava estabelecida uma fábrica de moagem e descasque de arroz."
Também Pinho Leal, no seu dicionário geográfico Portugal Antigo e Moderno, datado do último quartel do século XIX, escreve relativamente à Amora que a dita povoação "tem uma fábrica de moagem e descasque de arroz a vapor."
No ano de 1885, o então pároco da freguesia, padre João Ramalho escreve nas suas Memórias Paroquiais, que "a freguesia de Amora tem pelo último recenseamento 303 fogos, com 1150 habitantes, dos quais uns se empregam no cultivo dos campos, outros na marinhagem, outros são moleiros na fábrica a vapor do senhor José Gomes, (...)"
![Casa de habitacao anexa a antiga moagem de Amora.j Casa de habitacao anexa a antiga moagem de Amora.j]()
De igual modo, um edital emitido a 26 de Agosto de 1876 pelo Administrador do concelho do Seixal, senhor João Cosme Leal, relativo à apanha de ostras na zona ribeirinha de Amora, podemos saber que, nesta época do século XIX, a apanha das mesmas era livre "desde o portão da Quinta da Barroca até à Fábrica de Moagem de José Gomes."
Esta e outras informações indicam-nos ter tido esta família "Gomes", desde longa data, uma vocação especial para as atividades moageiras relacionadas com a produção de farinhas.
Lembremos que, segundo o Rol dos Confessados da Paróquia de Nossa Senhora do Monte Sião, já em 1858, o moinho de maré da Raposa, situado no Correr d'Água, fundo do esteiro do rio Judeu, era explorado igualmente por José Joaquim Gomes, tal como o moinho de maré de Corroios teve exploração por Parte desta mesma família, na pessoa de Manuel José Gomes.
Já numa fase em que possivelmente a moagem a vapor de Amora se encontrava ultrapassada e os históricos moinhos de maré e de vento cada vez mais envelhecidos, a mesma família, através de Manuel José Gomes, natural de Corroios, e seu filho António José Gomes, natural da Cova da Piedade, escolheram o Caramujo para instalação de uma grande unidade industrial, no que refere à produção de farinhas.
Mas voltemos à moagem a vapor que, no século XIX, se encontrava instalada em Amora, sendo ainda hoje e possível localizar o primitivo edifício, onde a mesma iniciou a sua laboração.
Situada na zona ribeirinha de Amora de Baixo, concretamente no sítio outrora designado por Trás-das-Hortas, hoje próximo da Associação Naval Amorense, está uma construção secular de quatro pisos, rés-do-chão, 1.° andar, 2° andar e sótão, que, na sua época, era o mais alto das redondezas..
Construído basicamente com pedra da região de Almada, quase sempre margas fossilíferas, apresenta nas cantarias das portas e das janelas calcários da região de Lisboa.
Para suporte da grande estrutura, são visíveis inúmeros esticadores em ferro, que lhe permitem manter a estabilidade.
Pelo que ainda hoje se pode ver, era essencialmente uma construção corrida, que se dispõe segundo a direção nascente/poente, com uma largura na ordem dos dez metros, comprimento próximo dos cinquenta e uma altura, que rondará os doze metros no topo dos telhados.
Certamente com uma razoável iluminação no interior, mostra ainda hoje, ao todo, umas quarenta a cinquenta janelas.
Segundo os mais idosos, a sala de moagem era no rés-do-chão e possivelmente nos restantes andares seriam guardados os grãos dos cereais e as farinhas, para além de existirem do mesmo modo vestígios de uma residência, certamente a do proprietário.
Na frente do edifício, e fazendo a ligação ao rio, existiu outrora um velho cais de madeira, onde as embarcações encostavam e efetuavam cargas e descargas, relativas às matérias-primas consumidas e aos produtos finais fabricados.
As farinhas produzidas nesta moagem seriam certamente consumidas maioritariamente em Lisboa, uma vez que nesta "Margem Sul do Tejo", neste tempo, o número de residentes era relativamente baixo.
Lembremos ainda que, em relação ao arroz, esta moagem a vapor também descascava o referido cereal, o qual nesse tempo era produzido em parte na própria freguesia de Amora, sendo particularmente relevante a produção dos brejos do Fogueteiro, que se estendiam na direção de Fernão Ferro.
Um dos antigos vestígios, referentes à velha atividade moageira, de que melhor se recordam os amorenses, ainda hoje, é do caminho das mós, que dava acesso a um pequeno cais, onde era possível entrar nas embarcações do tipo lancha.
Muito possivelmente depois de ter parado a laboração da velha fábrica e com as novas reutilizações, que se vieram a dar à mesma, as mós dos engenhos teriam sido deslocadas para a zona ribeirinha e utilizadas na construção de um passadiço, sobre o qual se podia caminhar até ao improvisado porto, sem pisar as lamas dos fundos do esteiro.
Este interessante testemunho viria, contudo, a desaparecer, na sequência das obras realizadas muito recentemente, que levaram à betonagem do referido acesso ao rio e à cobertura das velhas pedras moageiras.
fontes: Amora Memórias e Vivencias d'Outrora do Prof. Manuel Lima