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As Raizes de Amora

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

Fábrica Hidráulica no Esteiro do Judeu

11.11.20, os amorenses
UMA FÁBRICA HIDRÁULICA NO ESTEIRO DO JUDEU, PROJECTO DE JORGE HIGGS, FINAIS DO SÉCULO XIX
 

Moinho de Mare de Corroios ainda em funcionamento

A 10 de Janeiro de 1883, o capitão do exército Jorge Higgs dirigia aos Exmos. Senhores Presidente e Vereadores da Câmara Municipal do Seixal o seguinte ofício:

"Eu Jorge Higgs, tendo contratado com o Governo de Sua Majestade (Rei D. Luís) aproveitar a ação das marés, no braço de mar situado no concelho de que Vossas Excelências são dignos Vereadores, aplicando a força hidráulica ali utilizável (energia das marés) à moagem de cereais, descasque de arroz e a quaisquer outras indústrias (lagar de azeite, serração de madeiras, (...), em que aquela força possa ser empregue como motor fabril, de que resultarão grandes vantagem para a localidade e em geral para o país; contrato que foi aprovado pela Carta de Lei de 24 de Abril de 1873, publicada no Diário do Governo de 6 de Maio do mesmo ano; e tendo necessidade de dar o máximo desenvolvimento à empresa, estabelecendo variadas indústrias, tornasse-me indispensável para isto, fazer a aquisição das praias e terrenos salgadiços (baldios), compreendidos entre a Ponta dos Corvos a leste, e os limites do areal da Ponta do Mato, dependência da Real Quinta do Alfeite, a oeste, em toda a largura dos mesmos baldios e praias de Norte a Sul; que pertenceram além de outros aos antigos Frades do Carmo e que foram concedidos ao município que Vossas Excelências administram, (...) propondo a essa Câmara Municipal aforar-lhe as mencionadas praias e terrenos salgadiços (baldios) compreendidos nos limites das confrontações acima especificadas, por uma quantia anual razoável, que será estipulada por acordo entre a Câmara e o suplicante, tendo-se em conta as palpáveis vantagens, que do estabelecimento industrial, de que se trata e do seu máximo desenvolvimento, advirão ao concelho de cujos interesses vossas Excelências são dignos administradores (...)"
 
A construção da designada "Fábrica Hidráulica" de Jorge Higgs implicava a construção de duas barragens de terra, com cerca de 26 metros de largura na base e 3 metros de largura no passadiço superior. Uma, com cerca de 407 metros de comprimento, ligaria a praia do Seixal (junto da Igreja) à Ponta dos Corvos (terminando entre o moinho de maré da Torre e o da Passagem).
Outra, com 869 metros de comprimento, ligaria a praia da Barroca de Amora aos mouchões situados entre a Ponta dos Corvos e a Ponta do Mato.
 
Na primeira destas barragens, a do Seixal, apenas existiam portas de água que, abrindo para dentro, permitiriam que a água entrasse para a baía, mas não pudesse sair.
 
Na segunda barragem, a da Barroca de Amora, seria então construída a fábrica hidráulica, propriamente dita, possuidora de sete rodas motoras de 52 cavalos.
 
No esteiro de Corroios, a poente desta barragem da Barroca, as águas poder-se-iam esgotar por uma comporta, que seria necessário abrir no istmo da restinga do Alfeite, (Ponta do Mato) per- mitindo a mesma a saída das águas do Esteiro, mas não a entrada das águas do lado do Mar da Palha.
 
Na zona compreendida entre as duas barragens, o esteiro do Judeu ficava permanentemente cheio de água, (não se fazendo sentir o efeito da subida ou da descida das marés) criando-se um constante diferencial, em termos de água acumulada, relativamente à zona húmida situada a poente da barragem da Barroca de Amora. Era com esta energia potencial que se pretendia criar a força motriz com que se acionariam as turbinas da dita fábrica.
 
Apesar de muitos moinhos de maré, "Raposa", "Passagem", "Galvão" e "Capitão", passarem a estar situados dentro de uma zona onde o efeito das marés deixaria de se fazer sentir, e deixarem, por consequência, de poder exercer as suas funções seculares, Jorge Higgs justificava o seu projeto, dizendo que o rendimento conseguido com este novo empreendimento era largamente vantajoso para o concelho e para a nação.
 
A OPOSIÇÃO AO "PROJECTO" POR PARTE DE ALGUNS PROPRIETÁRIOS LOCAIS
 
Para a generalidade dos proprietários existentes nas margens dos esteiros do Judeu e de Corroios, a principal questão levantada era o problema da manutenção da navegabilidade, que ficava comprometida nestes braços do rio, e consequentemente a comunicação, entre as diferentes freguesias do concelho e a capital. O próprio escoamento dos produtos, inerentes à laboração industrial existente na região, poderia estar ameaçado.
Para além deste inconveniente, outros se referem, nomeadamente a impossibilidade do aproveitamento das praias do esteiro do Judeu para a construção naval, o inquinar das águas dos poços ribeirinhos, que se tornariam salgadas, impossibilitando a rega de hortas e dos pomares; também a dificuldade do escoamento das águas estagnadas dos brejos, existentes em redor do esteiro, que assim permaneceriam como águas insalubres; ou mesmo a dificuldade generalizada de utilização dos cais aqui existentes, como era exemplo o Porto da Raposa.
 
Domingos Afonso, proprietário da Quinta do Castelo e do moinho de maré de Corroios, nesta época, pertencentes ao território da freguesia de Amora, foi sem dúvida um dos grandes opositores ao projeto de Jorge Higgs, conforme se pode constatar pela carta que dirigiu, a 27 de Março de 1883, ao excelentíssimo presidente da Câmara Municipal do Seixal:
"Não posso deixar de ser contrário a um aforamento que é favorável à empresa de que é concessionário o excelentíssimo senhor Jorge Higgs, que tem por fim aproveitar, para si, a força hidráulica do braço do rio, existente neste concelho em prejuízo meu e de todos aqueles que têm direitos nos logradouros, servidões, entradas e saídas de marés.
 
Como vossa excelência muito bem sabe; os portos de Corroios e Carrasco, além de interessarem ao meu moinho, (...) são as únicas serventias para todas as propriedades desta parte do concelho, especialmente para os pinhais de sua Alteza senhor Infante D. Augusto, para a quinta da Bomba de sua Majestade El-rei o Senhor D. Luís e para as minhas propriedades.
Estou, pois, certo, que todos hão-de opor-se a tal aforamento e da minha parte eu não posso deixar de declarar a vossa Excelência que hei-de contestar contra ele e fazer os meus direitos perante o governo de sua Majestade, pela compra que fiz do dito moinho (de Corroios) à Fazenda Nacional, o qual não pode deixar de garantir-me, o que me vendeu e todos os seus direitos."
 
O PROJECTO DE JORGE HIGGS, SUAS CONSEQUÊNCIAS NA ZONA RIBEIRINHA DE AMORA
 
Apesar deste projeto ter certamente as suas vantagens, maior aproveitamento da energia das marés, maior rendimento económico e riqueza produzida, possibilidade de criar mais uns quantos postos de trabalho na região para os moradores de Amora, a sua concretização era vista com alguma desconfiança, tendo em conta algumas das consequências previstas.
Sabendo-se que tal obra levava ao permanente alagamento do esteiro do Judeu, braço do rio situado entre as freguesias de Amora e Arrentela, tal facto trazia, entre outros problemas, a dificuldade no abastecimento de águas às populações locais, assim como para a lavagem de suas roupas.
 
De facto nesta data, a povoação de Amora tinha como única água pública, mas abundantíssima e da melhor qualidade, a nascente da "Fonte da Prata", que rebentava na praia e onde a água só podia ser recolhida durante o baixa-mar. Se o esteiro se conservasse sempre cheio, conforme o projeto fazia prever, a povoação ficaria sem a água, com que se abastecia até então.
Por outro lado, existiam também na dita praia de Amora pequenos charcos de água doce, que serviam durante a vazante como lavadouros públicos "os Lavadouros das Lamas".
Havia inclusivamente lavadeiras que lavavam roupa "para fora" e que faziam desta atividade o seu ganha-pão. Esta pequena indústria, da lavagem da roupa, feita no intervalo das marés, acabaria por ser impossível, caso o projecto fosse levado por diante e o esteiro ficasse continuamente cheio.
 
Queixavam-se igualmente os moradores de Amora que, com a consecução desta obra, grande parte do caminho em terra batida, que ligava a Amora de Baixo ao Correr d'Água, passando pelo Sapal das Lobatas e pelo Brejo do Duque, ficaria permanentemente inundado, dificultando-se as acessibilidades à povoação, tendo em conta a impossibilidade de continuarem a circular carros nesta via ribeirinha.
Este projecto, de Jorge Higgs, que poderia ter definitivamente mudado para sempre o rosto da paisagem de todo o concelho do Seixal e em particular da freguesia de Amora, alterando significativamente o rumo da história local, não veio, contudo, pela oposição que lhe foi movida, a ser concretizado.
 
Fonte texto: “Memórias e Vivencias D’Outrora” do Prof. Manuel Lima
fotos: Manuel Lima, ecomuseu municipal