AS FESTAS POPULARES DA CRUZ DE PAU, NO INÍCIO DOS ANOS 50
Segunda Feira, 12 de outubro de 2020
Foi no ano de 1951, dias 28, 29 e 30 de Julho, que se realizaram, pela primeira vez, as "Festas Populares da Cruz de Pau".
Nesta época, escrevia o jornal Tribuna do Povo, referindo-se a esta então pequena localidade: "Aventurou-se agora, apesar do seu tamanho e mercê da boa vontade de um esforçado grupo de homens, a fazer a sua festa." Efetivamente, as "Festas Populares da Cruz de Pau", que foram realizadas durante cerca de 5 anos seguidos, 1951-1956, foram iniciativa de uma Comissão Organizadora, formada por pessoas que viviam na Cruz de Pau, onde se incluíam essencialmente operários, mas também alguns comerciantes.
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Inicialmente, as reuniões desta Comissão de Festas foram realizadas na casa do senhor Manuel Simões, proprietário da padaria antigamente localizada na entrada da rua Infante D. Augusto e pai do antigo jogador internacional do "Sport Lisboa Benfica", António Simões.
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Desta Comissão Organizadora das Festas fizeram parte, ao longo dos anos em que se realizou, para além do Sr. Manuel Simões, entre outros: "Celestino Ribeiro (mestre geral da Fábrica da Pólvora de Amora), Sebastião "Trapeiro" (casa de bicicletas), João Ribeiro, Amélia Filipe, António José leite, Américo "Padeirinho", Casimira Gonçalves, Sílvio Moura, Fernando Máximo, Augusto Cristóvão, José Ribeiro da Silva, Venâncio Mendes Alves, Armindo Rodrigues e Alexandre da Cunha Ribeiro."
Relativamente às primeiras festas, escrevia em Agosto de 1951, o jornal Tribuna do Povo: "O bem elaborado programa, os concertos magistrais, os divertimentos, a luz e as quinquilharias alteraram a feição da Cruz de Pau."
Com um arraial feito com varas embandeiradas, que serviam ao mesmo tempo de suporte para autofalantes e lâmpadas de iluminação, foram as Festas Populares da Cruz de Pau inauguradas neste primeiro ano, pelo próprio Presidente da Câmara Municipal do Seixal.
Cerca de um ano depois, refere igualmente o jornal "Tribuna do Povo": "Neste ano de 1952, dia 22 de Junho, realizou-se a inauguração do coreto destinado às festas desta colectividade (Cruz de Pau) com um concerto gracioso, que se prolongou das 18 às 20 horas e trinta minutos, executado pela banda da SFOA, sob a regência do seu maestro Álvaro de Sousa. (...) Este coreto, construído pela Comissão de Festas, custou 20 contos.".
Nos três dias de festividades, que se voltaram a festejar no mês de Julho de 1952, actuaram três bandas de música e uma orquestra. Normalmente tocavam nas Festas da Cruz de Pau, para além da "Sociedade Filarmónica Operária Amorense", igualmente a "União Arrentelense", a "União Seixalense", a "Artística Piedense" e a "Incrível Almadense".
No último dia, e com o objectivo de abrilhantar o baile de fecho das Festas, tocava então uma orquestra ou conjunto, que vinha normalmente de Coina, da Cova da Piedade ou mesmo da própria Cruz de Pau, como era o caso do "Luna".
Segundo António José Leite, foi aqui, nestas Festas, que se fizeram as pazes entre as bandas de Amora e de Arrentela, durante muito tempo de "costas viradas".
Para além da música, as Festas contavam com múltiplas diversões, havendo circo, carrosséis, quermesse, leilões, barracas de tiros, de louças e de comes e bebes.
Mas alguns dos momentos mais divertidos destas festividades eram sem dúvida as corridas de sacas, as corridas com colher e ovo e sobretudo as cavalhadas à antiga portuguesa.
Para participar nas cavalhadas, nesta altura, já feitas especialmente com bicicletas, tendo em conta que os burros iam desaparecendo da paisagem local, muitos vinham de outras freguesias do concelho do Seixal ou mesmo do concelho de Almada.
Os prémios, essencialmente galináceos, mas também outros animais de criação (patos, pombos, coelhos, ...), eram aliciantes e havia quem viesse prevenido com grades (gaiolas) para levar a totalidade dos prémios arrebatados.
De cada vez que participavam numa corrida, passando por debaixo dos cacifos, onde estavam encerrados os prémios, pagavam dez escudos.
Para levar o prémio, era necessário, sempre em andamento, em cima de uma bicicleta ou de um burro, enfiar uma vara numa argola, a qual se encontrava pendurada na ponta de um cordel, por sua vez também ele atado normalmente às patas do animal (o prémio), que caía, se o concorrente conseguisse abrir o cacifo.
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No caso dos burros ou cavalos, tornava-se muito hilariante, porque a própria assistência tocava ou batia no burro, para que o mesmo corresse e dificultasse a tarefa do concorrente.
A 3 de Agosto de 1952, o jornal Tribuna do Povo escrevia a respeito destas concorridas Festas Populares, o seguinte: "Foi uma inundação de luz, cor e movimento, que polarizou todo o município. (...) Foi uma avalanche de povo, ultrapassando todas as expectativas, o êxito destas Festas da Cruz de Pau foi enorme, particularmente no Domingo, em que não se podia romper pelo meio da multidão densíssima" (...) " Pode dizer-se que a Cruz de Pau foi durante a Festa o centro de todo o concelho."
Nas festividades desta primeira metade dos anos cinquenta, o movimento de forasteiros era de tal maneira grande, que a empresa de camionagem "Beira-Rio", tinha de efetuar vasta série de carreiras extras, desdobramentos, no sentido de satisfazer as necessidades dos transportes.
Estas festas, para além de constituírem um polo de diversão e de cultura popular, ainda contribuíam com parte dos seus lucros para os Fundos de Assistência Municipal.
A partir do ano de 1956 foram perdendo a sua grandeza inicial, o coreto em madeira deteriorou-se e foi desmontado, passando as mesmas, nos anos 60, a ser feitas, já não no recinto da Cruz de Pau (Quinta da Viúva), mas apenas na Rua Infante D. Augusto.
fonte: “Memórias e Vivencias D’Outrora” do Prof. Manuel Lima
fotos: CRCP, Prof. Manuel Lima, Sebastião Pinheiro e ecomuseu municipal