O Muxito o grito do progresso a decadência e o abandono (3)
08.11.20, os amorenses
O Muxito o grito do progresso a decadência e o abandono (3)

TITULOS DESTE POST
- Jorge Garcia conta como foi o Muxito (continuação do post 2)
- A Ruina mais frequentada
- O crescimento da população
- Os planos para a área do Muxito esquecidos pela C.M.S. há mais de 30 anos
- RPG filme Portugues de ficção-científica filmado nas ruinas do Muxito
Jorge Garcia, filho de José Garcia (O Gerente do Muxito), reitera o luxo do complexo: "Na altura aquilo era só frequentado por gente rica. Por exemplo, as equipas estrangeiras que vinham jogar contra o Benfica estagiavam ali.
As pessoas que viviam aqui na zona não frequentavam, não era que fosse interdito, mas sentiam-se mal. As terras do Muxito iam quase até à Fonte da Telha, depois a autoestrada cortou. Lembro-me de o meu pai dizer que ali havia muitos campos de ténis. E há uma coisa que pouca gente sabe: a estrada que vai para a Fonte da Telha foi alargada pelo Muxito para poder levar os turistas à praia porque na altura não havia muitas pessoas a ir à praia”.
E aproveita para recordar os pais que passaram vários anos da sua vida no Muxito:
“O meu pai conheceu a minha mãe [Lídia Garcia] lá. Ela foi para lá trabalhar quando apareceram os primeiros telefones, era telefonista”. José Garcia (que está mais alto na primeira fotografia) foi sempre o gerente e “desde que aquilo fechou, muito antes do 25 de Abril, nunca lá voltou durante mais 30 anos, apesar de ter a chave e de morarmos a um quilómetro dali. Só lá voltámos uma vez poucos anos antes de ele falecer. Quando falava do Muxito era com mágoa, foi mesmo um trauma que ficou, teve um grande desgosto. Depois ainda tentou outros negócios, mas não funcionaram. Ele achava que as coisas podiam ter sido diferentes e ainda tentou reunir dinheiro para ficar com aquilo, mas não conseguiu”.
Embora o Muxito tenha tido sucesso nos anos 50 e 60, houve um episódio lamentável que ainda é recordado na atualidade: “Um casal morreu lá [em 1959] e foi o meu pai que os encontrou e que viu que as crianças estavam vivas. Hoje sabe-se, devido a investigações, que eles foram mortos pela PIDE e isso nem o meu pai sabia. Começou a falar-se disso na comunicação social porque era um casal inglês e dizia-se que eram espiões. O meu pai desconfiou que tivessem sido assassinados porque os filhos estavam vivos”.

Foto de Cima: José Garcia o segundo da esquerda - Foto de baixo: Jorge Garcia e sua Irmã e um cartoon do Recepcionista Sr. Bio, que deu origem ao logótipo do Muxito.
Na segunda imagem está um cartoon com gatos (animal que deu origem ao logótipo do Muxito) a brindarem, numa brincadeira com as “festas” de 1965, e Jorge Garcia explica: “Havia um senhor, que trabalhava lá no Muxito, a quem chamávamos ‘Bio’ e que desenhava muito bem, era recepcionista ou porteiro, não sei, e então ele fez, durante anos e anos, 170 cartoons do Muxito que dava ao meu pai. É engraçado porque, muitas vezes, ele desenhava provérbios e ditados populares, mas com a temática do Muxito. E ia fazendo isto com envelopes ou outros papéis que tinha. Há muitos em que aparece o meu pai e às vezes era para gozar com ele porque acho que o meu pai demorava a acordar, era complicado e ele é que o ia acordar. E ele também fazia alguns a gozar comigo e com a minha irmã”.
Por fim, na terceira imagem está Jorge Garcia, na altura com cerca de cinco anos, na companhia da irmã, a aproveitar um dia nas piscinas do complexo: “Quando o Muxito fechou eu era muito pequenino, devia ter cinco ou seis anos. Tenho poucas memórias. Lembro-me de andar por lá”.
O infantário ainda funcionou até 1977, mas o local encontra-se abandonado desde aí e são poucas as pessoas que se aventuram a entrar no espaço do antigo hotel. O restaurante à beira da estrada tem sido sucessivamente explorado desde então. No entanto, de acordo com Jorge Garcia, “os negócios duram apenas meses, apesar de a localização ser excelente”. E conclui: “Eu acho que há ali alguma maldição”. Atualmente o restaurante está em funcionamento e o cartaz que anunciava a entrada do hotel anuncia agora a entrada para o restaurante.
A RUINA MAIS FREQUENTADA
Não obstante o vandalismo de que o Muxito foi alvo desde o seu encerramento nos anos 70, os seus espaços têm sido palco de utilizações alternativas que vão desde a pintura de grafites (como este que vemos no meio da destruição e que tem a data de 2015 na assinatura). Gastão Silva, autor do blogue “Ruin’Arte”, publicou, em 2010, fotografias desta ruína que o intrigou e o levou a procurar a história e localização da mesma. Na altura com 44 anos, o bloguer descreveu desta forma o cenário que encontrou: “Nunca vi uma ruína tão frequentada, além dos habituais ‘ocupas’, vi também grupos de jovens que se reuniam por aqueles lados para namorar, fumar ganzas, faltar às aulas e talvez vandalizar por divertimento mais um pedaço desta defunta estrutura. Cruzei-me também com um pelotão de jogadores de paintball e assisti a uma autêntica guerrilha urbana”. Forças policiais aproveitam a estrutura do hotel para treinos físicos e grupos de jovens divertem-se a explorar o “perigo” que este local abandonado representa.

O CRESCIMENTO DA POPULAÇÃO
A partir da década de 70, a população do concelho do Seixal aumentou exponencialmente, tendo quadruplicado de acordo com os censos de 2011. A conquista de direitos por parte das pessoas que já habitavam na zona, conjugada com a chegada de novos habitantes, de diferentes proveniências, ao longo dos anos, potenciou o aproveitamento público do espaço para a construção urbanística e para a instalação de equipamentos coletivos como é o caso do Complexo Municipal de Atletismo Carla Sacramento (CMACS), da estação de comboios de Foros de Amora, do quartel da Associação Humanitária de Bombeiros Mistos de Amora e de prédios para habitação nas imediações, alguns deles em terrenos que pertenciam ao Muxito. O CMACS foi inaugurado em 2001 e construído no local onde antes funcionavam os campos desportivos do Muxito. Esta fotografia foi tirada no último piso do hotel, correspondente ao antigo restaurante panorâmico, e permite ver a proximidade dos prédios e a estação ferroviária.

O Muxito em ruinas
PLANOS PARA O MUXITO ESQUECIDOS PELA C.M.S. HÁ MAIS DE 30 ANOS
Embora pareça haver planos para a área do Muxito há quase 30 anos, como podemos ler no Comércio do Seixal e de Sesimbra, a verdade é que o espaço continua maioritariamente entregue ao abandono: “A Assembleia Municipal do Seixal aprovou, em 30 de Julho de 1993, o seu Plano Diretor Municipal, no qual era referido que ‘a área do Muxito apresenta potencialidades para atividades turísticas de desporto e lazer’. A 22 de Outubro de 2001, durante a campanha eleitoral para as eleições autárquicas, Alfredo Monteiro referia ao jornal Setúbal na Rede que ‘o projeto para o Muxito e todo aquele conjunto que tem a pista de atletismo e a área que já é municipal, junto à estação [de comboios] de Foros de Amora, é para fazer um grande espaço de lazer com um complexo de atletismo que irá crescer em termos de equipamento. É uma área de lazer para onde se prevê, também, equipamentos turísticos. Com investimento privado ou com investimento municipal, vamos dotar o Muxito de condições para que venha a ser o grande pulmão e a grande área de lazer deste concelho. O projeto não pode avançar porque, tendo a proprietária do terreno falecido, o processo está com os herdeiros. Mas a câmara está atenta e pretende avançar com este objetivo assim que o caso se resolver”. Os anos (e também os Planos Diretores Municipais) passaram e as propostas para reconverter o Muxito continuam no papel.
RPG FILME PORTUGUÊS DE FICÇÃO CIENTIFICA FILMADO NAS RUINAS DO MUXITO
fontes e fotos: Jornal "O Setubalense", Jornal "Tribuna do Povo", Jornal "Comercio do Seixal e Sesimbra", restosdecoleccao.blogspot.com, homemsemblogue.pt, delcampe.net, ephemerajpp.com, citizengrave.blogspot.com
