O Muxito o grito do progresso a decadência e o abandono (2)
Em 1966 é inaugurada a então designada ponte Salazar, rebatizada ponte 25 de Abril depois do estabelecimento da democracia. Algumas teorias dizem que esta ligação, hoje vista como essencial para o desenvolvimento da região a sul do rio Tejo (e onde circula o comboio da ponte desde 1999), fez com que o Muxito ficasse “fora de mão” e a “ver o trânsito a passar nas suas costas”. No entanto, Jorge Garcia, filho de José Garcia (gerente do Muxito), afirma que o pai “nunca comentou nada sobre isso” e que “o Muxito era lucrativo na mesma, fechou por outros motivos”. Hoje, a Autoestrada A2 divide a propriedade, a urbanização está próxima e a vegetação toma conta do antigo hotel que, ainda assim, já não está protegido dos olhares exteriores como acontecia durante o seu período de funcionamento: passando a entrada, à beira da estrada, era um local isolado, com o objetivo de preservar a privacidade e descanso daqueles que podiam pagar a estadia.
A decadência chegou no início dos anos 70. Jorge Garcia conta que o “Cristo [um dos sócios da firma proprietária do complexo] tinha outros negócios e esses é que foram ruinosos”. Zimbarra faleceu em 1973 e com ele morreu também a firma, que declarou falência. Em leilão, o espaço foi adquirido por uma sociedade hoteleira, na altura presidida por Gordana Bayloni, de nacionalidade “jugoslava”, mas que “tinha por detrás dela, evidentemente, altos senhores do nosso país e organizações anónimas”, escreveu o Comércio do Seixal e de Sesimbra, também em 2014, citando o jornal Tribuna do Povo de maio de 1975. Apesar de terem sido realizadas obras e criados projetos para melhorar o Muxito, a estagnação manteve-se “por razões desconhecidas”.
fonte: Jornal O Setubalense - José Vieira Zimbarra (ao centro na primeira fotografia) e José Maria Cristo
Depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, a 7 de Março de 1975, o edifício do Hotel Muxito foi ocupado “por elementos de diversos partidos da extrema-esquerda revolucionária [Frente Socialista Popular e Liga de Unidade e Ação Revolucionária] e por comissões de trabalhadores, para ser colocado ao serviço das classes exploradas”, escreve o Comércio do Seixal e de Sesimbra, a partir do blogue “Abril de Novo”. Começou, assim, a “Comuna Che Guevara” dedicada à instalação de serviços de apoio social. O local passou a funcionar como ponte para um projecto de realização de venda direta de produtos entre os agricultores e o consumidor final, como cantina popular e como jardim-de-infância. Também a piscina foi aberta ao público que a podia utilizar gratuitamente. “No mês de abril de 1975, o negócio da cantina popular rendeu a soma de trinta contos (150 euros). No jardim-de-infância, nesse mesmo abril, estavam já 22 crianças, dos 3 aos 6 anos”, avança a mesma edição do Comércio do Seixal e de Sesimbra. Havia vários outros projetos pensados para o local, também devido ao facto de a comuna ser apoiada economicamente por empresas da área, bem como pela INATEL e pela IFAS.
Em 8 de Novembro de 1975 o jornal a "Tribuna do Povo" escrevia de novo: <<Muxito em foco: onde se prova que não basta ser revolucionário de boca(...). Ocupar realmente não basta...
Para além da falta de limpeza e higiene, do desaparecimento do inventario de moveis após a ocupação, pratica de sexo livre, desvios de dinheiros, inclusive para pagamentos de despesas pessoais, hospedagens gratuitas a familiares e amigos de alguns, desvios para o ócio e sexo de grupos estrangeiros ali chegados inicialmente com outro sentido.
Nem tudo por certo foi negativo nesta triste experiencia, fica, entretanto, bem evidente o oportunismo hoje de tantos como estes, que sabem mandar para a frente nomes bem sonantes como Che Guevara, para encobrir a sua própria miséria.>>
O Complexo do Muxito seria utilizado até 1977 como infantário, encontrando-se abandonado desde então, apesar de ter sido tentado o aluguer das casas a sete famílias em 2002, pela empresa dos herdeiros de Gordana Bayloni a "Lare-i-ra" detentora da Sociedade Hoteleira.
fontes de texto e fotos: Jornal "O Setubalense", Jornal "Tribuna do Povo", Jornal "Comercio do Seixal e Sesimbra", restosdecoleccao.blogspot.com, homemsemblogue.pt, delcampe.net, ephemerajpp.com, citizengrave.blogspot.com