O PRIMEIRO ESTALEIRO DE AMORA
O PRIMEIRO ESTALEIRO DE AMORA DO “MESTRE” JOAQUIM MARIA DA FONSECA

"Mestre" Joaquim Maria da Fonseca
A ribeira de Lisboa chamou a si os melhores construtores navais para a grande empresa do reino que era o comercio marítimo, fazendo confluir experiencias e modos dispares, “regionalismos” náuticos, uma notável riqueza etnográfica em termos de arquitetura naval popular, que gerou a panóplia de embarcações que evidenciavam na denominação os lugares a que se encontravam agregados em termos de funcionalidade.
O conhecimento de experiencia e o engenho de gente marítima locais gerou distinções, como expõe Antônio Nabais (1), abordando a criação dos novos tipos de embarcações. A variedade de embarcações do rio Tejo foi aumentando devido não só as suas novas funções, mas igualmente imposta pelo estilo próprio de cada estaleiro naval ou povoação ribeirinha.
As terras do Tejo começaram a desenvolver tipicidades locais nas embarcações, diferenciando-as. Terá sido não só contributo dos construtores locais, mas também de carpinteiros navais de outras paragens, como os de Pardilhó ou Ovar, que migraram para o Tejo, trabalharam em embarcações fluviais e fundaram estaleiros, “permutando” experiencias, ainda que em contexto de rivalidade.
Natural de Pardilhó, no Concelho de Estarreja e Distrito de Aveiro, Joaquim Maria da Fonseca era membro de uma família de antigos construtores navais desta região, com quem aprendeu a profissao e mais tarde apos o seu casamento decide tentar a vida nas aguas do Tejo.

No "Barroca", na Praia da Barroca, "Mesre Joaquim e sua neta Francelina (em cima de L27)
No ano de 1916, encontra-se o registo desta família de Pardilhó, com uma empresa de construção de embarcações, segundo o Arquivo Histórico da Marinha, com data de 10 de julho de 1916, nesta mesma localidade do Concelho de Estarreja.
Não podemos precisar a data da sua vinda para a margem sul do Tejo, no entanto, conseguimos apurar que em 1917, se encontrava na Praia dos Moinhos em Alcochete, onde construiu o seu primeiro barco no Tejo, registado na Delegação Marítima do Barreiro, com o nome, “GUILHERME”, de Tipologia BARCO, com 66,67 tn, teve um custo de 20.000$00 Escudos.
Em 1918 regista um novo barco nesta mesma Delegação com o nome “FLOR DO SADO”, de Tipologia BARCO, com 60,34 tn, teve um custo de 1.400$00 Escudos.
Em 1920 regista outro novo barco nesta mesma Delegação com o nome “FLOR DO RIO FRIO”, de Tipologia FRAGATA, com 122,70 tn, custo não mencionado.
Joaquim Maria da Fonseca e sua esposa Maria da Assunção da Silva Valente, decidem que a Praia dos Moinhos não era o sitio adequado para o crescimento dos filhos.
Foi uma época em que a gripe pneumonica (Gripe Espanhola), matou milhares de pessoas e o casal Fonseca que tinham perdido um filho pensam em mudar-se para a Amora, onde encontrou condições especiais de ancoradouro, quando comparado com outros locais do vasto estuário do Tejo.

D. Maria da Assunção, esposa do "Mestre" Joaquim, acompanhada de descendentes
Terá sido durante o ano de 1920 que a família Fonseca se terá mudado para a Amora, pois o seu primeiro registo na Delegação Marítima do Seixal em 1920, com o VARINO de nome “TALAMINHO” de 40,74 tn, assim o indica.
Segundo Francelina Dias, neta de Joaquim Maria da Fonseca, nascida e criada na Barroca, junto ao estaleiro onde a família tinha a sua habitação, lembra-se de sua Mãe (Lucinda Valente da Fonseca) dizer que tinha nascido em 1922 na Praia da Barroca. Nesta altura já Benjamim Valente da Fonseca e sua irmã Elvira Valente da Fonseca (1920) eram nascidos, vieram com os Pais de Partilhó para uma nova vida junto ao Tejo.

Francelina Dias em pequena na Barroca
O “Mestre” Joaquim e sua esposa D. Maria da Assunção, pela sua forma de ser, bondosos e amigos da família, ajudaram muitos conterrâneos aquando da sua chegada por estas praias de Amora e também por terem sido os primeiros no local. Alguns são família, outros amigos de família e todos necessitavam uns dos outros, uns para trabalhar, outros para empregar, mas a bondade e a amizade estavam sempre presentes.
Em 1926 regista outro novo barco nesta Delegação Marítima do Seixal com o nome “NOVA ALICE”, de Tipologia FRAGATA, com 35,85 tn, teve um custo de 5.000$00 Escudos.
Álvaro Venâncio, fundador dos estaleiros Venamar, também ele de Partilhó, decide em 1930 vir residir para Amora, após o seu casamento com Maria Olivia da Silva Valente e foi no estaleiro do “Mestre” Joaquim, na Praia da Barroca, que iniciou a sua profissão de carpinteiro naval no Tejo, depois da aprendizagem no Estaleiro das Mónicas, na Gafanha da Nazaré, onde aprende a construção de lugres bacalhoeiros em madeira, barcos com cerca de 50 metros de comprimento e outros, fundando o seu estaleiro na Praia das Lobatas em Amora em 1932, laborando dois anos com o “Mestre” Joaquim.
Em 1946 regista outro novo barco nesta Delegação Marítima do Seixal com o nome “GANÇO BRAVO”, de Tipologia FRAGATA, com 18,26 tn, teve um custo de 70.000$00 Escudos e este terá sido o último barco registado pelo Sr. Joaquim Maria da Fonseca.
São estes os barcos construídos pelo “Mestre” Joaquim Maria da Fonseca, na Praia da Barroca em Amora, que seja do nosso conhecimento, outros poderão ter sido construídos e registados pelos donos dos mesmos.

Lucinda Valente da Fonseca e seu neto Alberto
Nos anos 50 do Século XX, Pedro Lopes, um outro carpinteiro naval associa-se a Joaquim Maria da Fonseca, que viria a falecer passado pouco tempo, devido a doença que o colocou na cama até a sua morte.
O Sr. Joaquim Maria da Fonseca está sepultado no cemitério de Amora.
(1) NABAIS, António (2009) - Barcos do Tejo. ACAFA online: Associação de Estudos do alto Tejo, número 2
O nosso obrigado à Sra. Francelina Dias e Familia pela informação e fotos de família que ilustram este texto.
Fontes:
Família do Sr. Joaquim Maria da Fonseca
Município da Moita
Estaleiros de Sarilhos Pequenos
Delegação Marítima do Seixal
Delegação Marítima do Barreiro