OS ALEMÃES DA FÁBRICA DOS VIDROS
Segunda Feira, 12 de outubro, 2020
A Fábrica dos Vidros de Amora, nas Lobatas, foi fundada em 22 de Novembro de 1888 pelos irmãos James e William Gillman e por Justino Guedes e José L. da Silva Gomes.
Os primeiros fornos e máquinas vieram de Inglaterra, bem como os primeiros operários especializados. Contudo, nada correu bem: os fornos avariaram, o preço do carvão subiu, as metas de produção não foram atingidas e, os trabalhadores ingleses entraram em greve, provavelmente por pretenderem salários e condições de trabalho semelhantes às de Manchester.
Entretanto, as relações entre os proprietários ingleses e portugueses deterioraram-se. Finalmente, houve “motins” que levaram à expulsão dos ingleses e ao encerramento da fábrica.
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Uns meses depois formou-se um consórcio ítalo-português. A Companhia da Fábrica de Vidros na Amora foi criada no mesmo local com a capital dos irmãos Centeno e David Corazzi. Agora, a tecnologia é alemã: os altos-fornos e fornos de fundição são da Siemens & Halske.- A 2 de julho de 1890, chegam à Amora, via Hamburgo, 30 sopradores de vidro, seus assistentes e famílias. São cerca de 160 habitantes, é a terceira maior comunidade alemã em Portugal.
De acordo com os registos, os trabalhadores vieram Boémia, Silésia, Turíngia, Württemberg, Baviera, Hamburgo, Saxónia, Hesse-Nassau, Hanover, Prússia, Tirol e até de Vladivostok (i.e., a maioria veio de regiões da actual Alemanha e também das actuais República Checa, Polónia, um pequeno número veio da Áustria e do extremo leste da Rússia). Anton Kreuzer, Eduard Schölzel, Hermann Reuter, Oswald Schaarschmidt, Heinrich Flegel, foram alguns dos operários que se arriscaram a emigrar para Portugal em busca de uma vida melhor.
Rapidamente, os novos habitantes estabeleceram contacto com a população local os casamentos mistos tornaram-se uma realidade, ao final de alguns meses, foi o caso de Hermann Reuter que casou com Philomena do Nascimento.
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Para estes operários e suas famílias foi construída a marginal que ficou pronta em 1891. Tratava-se de casas simples, térreas, cada uma com quatro assoalhadas, cozinha e casa de banho; os trabalhadores mais qualificados receberam edifícios dois pisos mais espaçosos.
No total foram construídas 42 casinhas e 6 casas.
A correnteza ficava junto da fábrica; o caminho para o trabalho era curto. O trabalho começava às 6h30, uma hora depois no inverno. As condições de trabalho eram difíceis: 51 horas por semana no forno de fusão da Siemens e - certamente o trabalho mais difícil - 8,5 horas de trabalho com maçarico. Como aparentemente não havia cantina os operários iam almoçar a casa, tinham uma hora para almoço.
"Os trabalhadores alemães recebiam três marcos do Reich para cada cem garrafas sopradas, ou seja, mais do que o dobro do que recebiam em sua terra natal".
Na Amora foram soprados 18 tipos de garrafas diferentes, desde a garrafa de 0,5 litro a formatos inusitados para vinhos nobres, ao garrafão de 5 litros. Se você contar a produção anual relatada de 2.054.040 garrafas de todos os tamanhos em 1892 para a comunidade de sopradores de vidro daquela época, cada trabalhador qualificado administrava cerca de 240 a 260 garrafas em seu turno diurno.
As doenças profissionais são descritas num relatório de 1893: enfisema pulmonar, tuberculose, fibrose e silicose doenças mortais que coroavam uma vida de trabalho duro. Outro problema era o alcoolismo, a tentação do schnapps foi mais forte para muitos destes alemães. A tal ponto que o chefe do serviço de bem-estar popular do Seixal informava por escrito o seu superior, a 23 de Agosto de 1890, “… que a Amora deve ser rigorosamente vigiada, as tabernas têm de encerrar em horários fixos para evitar que os estrangeiros das fábricas locais levem a noite toda a jogar, cantar e beber. ”
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Era necessária uma escola e um espaço religioso por isso foi concluído um edifício de 3 pisos no final da correnteza. Foi delegado, pela Igreja Evangélica Alemã de Lisboa, um pregador auxiliar Friedrich Hünemörder que descreve assim a sua nova casa: "O andar térreo era composto pela sala de aula. Meu apartamento oficial ficava no primeiro andar tinha uma cozinha, composta por cinco pequenas assoalhadas. A escola naturalmente também serviu de igreja ... ”.
A escola era muito necessária. Em 1891, vagabundo apareceu na Amora a pedir esmola. Era um homem muito viajado, encadernador de profissão. Apresentou-se como professor e foi contratado, mas dois anos depois o alcoolismo tomou conta dele e foi encontrado literalmente numa sarjeta, pelo que foi despedido.
A partir daí é Hünemörder que toma conta da escola. Em 1906 a Escola Alemã de Amora teria 18 rapazes e 18 raparigas divididos por 3 níveis; 18 eram católicos e 18 protestantes. A língua de ensino era o alemão. Mais tarde, pouco antes da Primeira Guerra Mundial, a Escola tinha 4 níveis, 68 alunos sendo referida como exemplo, em pleno parlamento português: “… posso citar um facto que é frisante e que mostra como noutros países se cuida pela instrução. Numa fábrica de vidros da Amora, para aperfeiçoamento da sua indústria mandaram vir da Alemanha uns operários, que não eram. muitos; pois o primeiro cuidado do Governo alemão foi mandar vir um professor para aquela colónia.”
"Quando o pastor Bindseil veio a Amora, pela primeira vez, em setembro de 1891, esta colónia alemã já contava com 120 almas." Os registos indicam que a comunidade se dividia a meio entre protestantes e católicos. Os pastores tentaram convencer os fiéis a assistir aos serviços religiosos em Lisboa, mas foram ignorados: “O caminho de Amora até a capital era difícil. Na virada do século a única ligação era um barco à vela ou a remo. Os preguiçosos marinheiros cargueiros (saveiros) precisavam de até cinco horas para atravessar o Mar da Palha, dependendo do vento e da corrente.” Além disso a travessia era cara. Foi, então, criado um cargo de pastor depois de negociações entre o Ministério dos Negócios Estrangeiros, o pastor evangélico Oberkirchenrat e Gustav-Adolf-Verein.
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Em 1894, aconteceu na Amora o primeiro serviço ecuménico. No livro da igreja Evangélica Alemã são registados dez batismos, em 11 de março de 1894, todos evangélicos. A idade dos baptizados situa-se entre os 4 e os 15 anos ... também em 1895 ocorreram mais “baptismos de grupo”. Até 1899, os documentos DEKL (Igreja Evangélica Alemã de Lisboa) fornecem informações sobre a vida comunitária dos sopradores de vidro de Amora: as festas de Natal, os concorridos cultos de Páscoa.
Existiu um cemitério alemão que é documentado por uma foto tirada c. de 1934-36 pelo Reverendo Gennrich, situado talvez, numa área adjacente ao cemitério de Amora.
Em 1895, os sopradores de vidro alemães tornaram-se membros da Sociedade Filarmónica Operária Amorense, mas por volta de 1900 mudam-se, juntamente com ingleses da fábrica de cortiça Mundet e, formam um clube conjunto.
Politicamente, os alemães os imigrantes eram segundo Hünemörder "Zelosos sociais-democratas!". Por isso, tiveram algumas dificuldades com as autoridades da monarquia devido às suas com suas ideias de ação industrial. Um relatório policial de Amora, datado de 9 de outubro de 1890 refere: "... acusações contra Johann Michalsky, um cidadão alemão, soprador de vidro, residente em Amora por tentativa de ataque aos superiores ". Mais tarde, este Michalsky tornou-se um homem de família e, provavelmente um protestante devoto. O irrequieto hamburguês, no entanto, teve muito a dizer contra a fixação arbitrária de horas de trabalho e salários.
A colónia alemã acompanhou as contingências da política internacional e do comércio internacional. A comunidade alemã oscilou entre aproximadamente 150 e mais de 300 entre 1902 e 1916. Quando em 9 de Março de 1916, a Alemanha declara guerra a Portugal dá-se o confisco de bens.
Em Setembro de 1916, de acordo com um registo existente no arquivo do Seixal "Os operários e técnicos alemães da Amora são expulsos e seus bens confiscados devido à Grande Guerra". Vários sopradores de vidro fogem para Espanha caso dos irmãos Burding que foram para Madrid, outros partem para Alicante, Barcelona, Málaga e Vigo. Dois terão ficado internados num campo de concentração na Ilha Terceira.
Alguns luso-alemães regressaram, de Espanha, entre 1920 e 1922. Até 1930 viveram na Amora c. de 140 alemães, depois perdeu-se-lhes o rasto.
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Em 1983, foi feito um levantamento arqueológico que foi publicado. Lamentavelmente, a fábrica desapareceu e tudo o que sobra, não por muito tempo, são as ruínas da correnteza.
O gradeamento verde desapareceu, o último morador há muito fechou a porta, as casas estão descaracterizadas ou, arruinadas e o “Leão” ainda resiste à espera de uma morte mais que anunciada.
A Amora está em risco de perder uma zona emblemática e mais do que isso, os vestígios do processo de industrialização de que a sua Fábrica de Vidros foi pioneira em Portugal.
Cf. Associação Luso-Hanseática.
O Occidente, nº 475, 1892