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As Raizes de Amora

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

Os Habitantes de Amora em Meados do Séc. XIX (2)

20.11.20, os amorenses

OS CRIADOS EXISTENTES NALGUMAS CASAS MAIS ABASTADAS

António de Carvalho G com selo RA.jpgNúcleo urbano antigo de Amora. Antiga residência
Foto e residência de António Carvalho, proprietário e lavrador de Amora, último quartel do século XIX

É interessante verificar que, nesta época, apesar da maior   parte   da   população viver com muitas dificuldades, é referida a existência de uma relativa quantidade de criados e criadas em algumas das casas então existentes, o que mostra uma certa abundância por parte de algumas famílias. 

Sempre segundo o "Rol dos Confessados da Paróquia", relativo ao ano de 1853, são referidos como exercendo a atividade de serviçais nesta freguesia, ao todo 15 pessoas, 9 mulheres e 6 homens, para o conjunto das 238 casas existentes, na totalidade da região. 

Embora nesse tempo, oficialmente já não existisse escravatura em Portugal, pois em 1836 o Marquês Sá da Bandeira decretou a abolição da mesma no nosso país, não se conhecem as condições, estatutos ou situação em que viveriam estes ditos criados. 

Por outro lado, é curioso referir que, se recuássemos ao século XVII, já eram relativamente frequentes as referências a escravos e seus filhos ilegítimos, nos livros dos registos paroquiais relativos a todo o termo de Almada, onde então se incluía o atual território da freguesia de Amora. 

AS CRIANÇAS EXPOSTAS OU ENJEITADAS 

É igualmente interessante saber que, nesta data de 1853, também o "Rol dos Confessados da Paróquia de Amora", indica como vivendo integrados em diversas famílias locais, doze crianças expostas ou enjeitadas. 

 Lembremos que, nesta época, era relativamente comum algumas pessoas mais pobres, e por razões essencialmente económicas e sociais, abandonarem seus filhos, para que alguém com maiores posses lhes pudesse valer. 

José Gomes de Duarte G com selo RA.jpgResidencia de Jose Gomes Duarte.jpg

Foto e Residênciade de José Gomes Duarte, proprietário e comerciante de Amora, no último quartel do século XIX

Nas grandes povoações ou cidades, onde existiam conventos, as crianças eram abandonadas numa porta giratória, de formato cilíndrico, a que vulgarmente se passou a chamar "roda dos expostos". 

Os familiares, que antes de deixarem seus filhos nesta roda tocavam a campainha, não eram identificados nem punidos por lei, sendo as crianças encaminhadas para o interior do convento, onde passavam a ser sustentados e educados pelos religiosos ou outras instituições paralelas, como era o caso das misericórdias. 

No ano de 1783, já o Intendente Pina Manique tinha oficializado a roda dos expostos, criando-se para dar assistência, educação e ensino a estas crianças abandonadas a Casa Pia de Lisboa. 

Luísa Saraiva de Carvalho, ano de 1904, esposa de Manuel Luís de Carvalho

Em povoações pequenas, como era nesse tempo a Amora, as crianças eram deixadas à porta da igreja ou das famílias mais abastadas da região, quase sempre os proprietários das quintas. 

Analisando concretamente cada um dos casos, verifica-se efetivamente que, nesta freguesia tinham a seu cargo crianças expostas, maioritariamente, os fazendeiros que viviam em Amora de Cima, perto da igreja, quase sempre pais de outras crianças. 

  A PRÁTICA RELIGIOSA 

Neste início da segunda metade do século XIX, foi prior da Paróquia de Nossa Senhora do Monte Sião, em Amora, o pároco António da Cunha Lima e seu sacristão, o senhor Caetano José, que residia em Amora de Cima, próximo da igreja.

Nesta época, o culto católico era comum, atingindo-se níveis de prática religiosa muito superiores aos do nosso tempo. Segundo registo do "Rol dos Confessados", o cumprimento dos preceitos quaresmais, incluindo a comunhão pascal, era exercido por mais de 60% do total dos residentes, se exceptuarmos as crianças com idades inferiores a dez anos. 

Alfreda Maria Trindade, esposa de Raul Trindade, moradora em Amora - 1927

Embora de impossível comparação, diremos que muito recentemente, e conforme dados referentes ao censo de 1991 e informações fornecidas pela Paróquia de Amora, o número de comungantes nas missas dominicais, nos nossos dias, é de aproximadamente 1200 pessoas para um total de 44 mil, o que corresponde apenas a uma percentagem de 2,5%, ou seja, cerca de 24 vezes menos do que aquela que se registava em meados do século XIX. 

Referiremos ainda que, outrora, a classe que menos cumpria este preceito religioso era a dos embarcados ou marítimos, talvez pela morosidade das viagens efetuadas além-mar. Por outro lado, verifica-se ainda que, quanto mais longe moravam os fregueses relativamente à localização da igreja paroquial, como era o caso dos moradores nas quintas de Corroios ou dos Foros de Amora, menor era a participação nas práticas religiosas.

Alfreda Maria Trindade, esposa de Raul Trindade, moradora em Amora - 1927

fonte: "Amora Memorias e Vivencias d'Outrora" do Prof. Manuel Lima
fotos: A Voz d'Amora e ecomuseu municipal