Os Habitantes de Amora no tempo da Primeira República
RESIDENTES EM AMORA NO TEMPO DA PRIMEIRA REPÚBLICA

Grupo trabalhadores vidreiros, junto antiga mercearia de Manuel Henriques anos 20 Sec. XX - Foto Familia Trindade
Ao contrário do que acontece hoje, nas primeiras décadas do século XX, a freguesia de Amora, que então incluía o território da atual da freguesia de Corroios, possuía apenas alguns milhares de habitantes.
Concretamente, segundo os censos oficiais, 2480 habitantes em 1911 e 2704 habitantes em 1920. Lembremos que atualmente, a população conjunta deste território Amora/Corroios ultrapassa os cem mil habitantes, pois segundo o censo de 2001 já constituía local de residência para 97466 pessoas.
O estudo que se segue, referente aos moradores da freguesia de Amora, no período compreendido entre 6 de abril de 1912 e 18 de dezembro de 1921, foi baseado em dados referentes ao "Registo de Óbitos da Paróquia de Nossa Senhora do Monte Sião", onde neste espaço de tempo, cerca de 10 anos, faleceu um total de 640 pessoas.
A NATURALIDADE DOS HABITANTES E A ORIGEM

Familia Valente e Amigos corticeiros em Amora finais anos 30 Sec. XX - Foto Familia de Pastora Lira
Segundo o documento referido anteriormente, cerca de 80% dos aqui falecidos nesta década eram naturais da própria freguesia de Amora, levando igualmente a concluir que, de uma maneira geral, os nascimentos de então aconteciam em casa, sendo rara a deslocação das parturientes, até pela quase inexistência local de transportes automóveis.
Dos restantes 20% de habitantes, metade era natural de outras freguesias do concelho do Seixal ou dos concelhos vizinhos dos distritos de Setúbal e Lisboa.
Apenas 10% da população, englobada neste estudo, tem origem noutros concelhos mais distantes do país, sendo as províncias da Beira Litoral, Beira Alta e Estremadura as mais representadas.

Familia Tato na rua Direita, principio anos 20 Sec. XX
Concelhos como São Pedro do Sul, Tábua, Vouzela, Cadaval ou Cantanhede constituem locais de excepcional proveniência. Certamente este facto deve-se à migração dos designados "Caramelos ou Malteses", trabalhadores rurais que para as quintas da região vinham temporariamente exercer atividades agrícolas.
Ao contrário do que viria a suceder na segunda metade do século XX, nesta época não é registada em Amora a presença de qualquer alentejano ou mesmo transmontano.
Outras províncias do país muito pouco representadas são o Douro Litoral, o Minho e a Beira Baixa.
É ainda de salientar a referência a um estrangeiro de origem alemã, tudo levando a crer que relacionado com a laboração da antiga "Fábrica de Garrafas de Vidro", nesse tempo aqui instalada.
AS PROFISSÕES EXERCIDAS
Ao contrário dos dados relativos a meados do século XIX, onde a quase totalidade dos residentes na freguesia de Amora eram agricultores, mateiros ou marítimos, nesta década compreendida entre 1912 e 1921, já se verifica a existência de uma classe laboral, associada ao sector secundário.

O casal Pastora Lira e Idalino Lira Amora Ano de 1942 foto Familia Pastora Lira
Concretamente constata-se, segundo o estudo efetuado, a existência de um significativo número de operários, certamente vidreiros, pois era, nesta época, a grande indústria local existente. São mesmo especificamente referidas as profissões de garrafeiro e de fogueiro.
Neste período, a percentagem de homens a trabalhar na indústria seria certamente, pelos dados disponíveis, cerca de 25% a 30%, os restantes continuavam a trabalhar na agricultura e noutras atividades ligadas ao sector primário.
Outra diferença relativamente a tempos mais recuados é que, nesta data, também já muitas mulheres tinham enveredado pelo mundo laboral, verificando-se inclusivamente que aproximadamente cerca de 20% das mesmas eram operárias e exerciam profissões, como tecedeira ou empalhadeira.
Possivelmente, para além de trabalharem na "Companhia da Fábrica de Garrafas de Amora", algumas trabalhavam certamente na "Companhia de Lanifícios de Arrentela" e nas oficinas do vime e do empalhamento das garrafas e garrafões.
Mesmo assim, neste período, relativo a princípios do século XX, ainda são referenciadas como domésticas cerca de 80% das mulheres.
Outro facto revelador das dificuldades em que viviam as populações locais é a referência a uma elevada taxa de mendigos, que certamente teria dificuldade em arranjar trabalho ou teria problemas de saúde.
OS ALTÍSSIMOS ÍNDICES DA MORTALIDADE INFANTIL
Sem ser possível, com os dados disponíveis, calcular valores exatos para o atual conceito de mortalidade infantil, que se determina a partir da

Genoveva de Almeida e Sa marido e filhas Familia de Amora 1920 foto Familia Pastora Lira
razão entre o número de óbitos de crianças com menos de um ano de vida, pelo número de nascimentos nesse mesmo período, é fácil, no entanto verificar que, neste tempo recuado, ultrapassar a idade dos dez anos era realmente um bem precioso.
Analisando as idades com que faleceram as já referidas 640 pessoas nesta freguesia de Amora, no período compreendido entre 1912 e 1921 registam-se as seguintes percentagens relativas ao número total de óbitos: nados-mortos 6%, crianças com menos de 1 ano 38%, crianças entre 1 e 10 anos 15,7%.
Como resultado desta análise, podemos concluir assustadoramente que, nesta época, mais de metade dos óbitos se referiam a crianças com idades inferiores a 10 anos.
Nesta altura, eram sobretudo os recém-nascidos extremamente vulneráveis, particularmente até atingirem a idade dos três meses. Tal facto parece dever-se às baixíssimas condições económico-sociais vividas pela população. A não existência de um médico na freguesia, as fracas condições de salubridade, as habitações sem água corrente nem esgotos e alguns surtos de doenças infectocontagiosas em muito contribuíram certamente para tal situação.
Recordemos que, atualmente, a taxa de mortalidade infantil no nosso concelho é reduzidíssima, situando-se, aproximadamente, em cerca de 6 crianças por cada dez mil nascidas.
A BAIXA ESPERANÇA MÉDIA DE VIDA
Analisando agora as idades dos óbitos, depois de ultrapassadas as idades da infância, verifica-se que, mesmo as pessoas que conseguiam sobreviver nos primeiros anos de vida, não atingiam, de uma maneira geral, grandes longevidades.
Manuel de Sa e Familia fragateiro da Mundet Quinta do Conde Amora 1940 foto Familia Pastora Lira
Assim, e em percentagens relativas ao total de óbitos, incluindo as crianças de tenra idade, no escalão dos 10 aos 20 anos morreram (5,8%), entre os 20 e os 30 anos (4%), entre os 30 e os 40 anos (4,5%), entre os 40 e os 50 anos (5%), entre os 50 e os 60 anos (5%), entre os 60 e os 70 anos (7%), entre os 70 e os 80 anos (5%), entre os 80 e os 90 anos (3%) e entre os 90 e os 100 anos apenas (1%).
Tendo em conta a elevadíssima taxa de mortalidade infantil e as idades relativamente jovens com que se falecia na idade adulta, somos levados a concluir que, a esperança média de vida neste tempo seria muito baixa relativamente aos nossos dias, onde a mesma para os homens já ultrapassa os 75 anos e para as mulheres os 80 anos.
Na Amora, entre 1912 e 1921, só 21% das pessoas neste período falecidas tinham idade superior a 50 anos.
Por vezes, muitos de nós somos levados a crer que antigamente as pessoas duravam muitos mais anos do que hoje, mas tal é completamente errado. No tempo da monarquia e no que refere aos nossos próprios reis, que teriam certamente uma vida privilegiada, dezasseis deles faleceram com menos de 50 anos e só três, D. Afonso Henriques, D. João I e D. Maria I chegaram à casa dos 70.

Joaquim Jota segundo da Esquerda com grupo Amigos
Quinta da Princesa Amora 1931 foto Familia Pastora Lira
Ainda a propósito das razões de tão pouca durabilidade, é de referir que a época a que nos reportamos, primeira República, em nada favorecia tal facto. Período que inclui a primeira guerra mundial, 1914/1918, tempo de fome e racionamento, mas também de epidemias, como foi o caso da pneumónica ou febre de Espanha, que grassou particularmente entre 1918 e 1920. Como parteira havia apenas uma "comadre" não diplomada e médico só na sede do concelho, tendo a família que dele necessitava de o ir chamar ao Seixal, sendo muitas vezes a deslocação feita de barco.
Algumas destas causas fizeram do ano de 1918 um ano particularmente negro, não só para o nosso concelho, mas também para o país, onde a morte ceifou impiedosamente grande número de pessoas.
Alguns anos mais tarde, a esperança média de vida viria, contudo, a aumentar de forma muito significativa, especialmente a partir do momento em que se deu início à produção de antibióticos em massa.
Seria "Fleming", com os seus estudos, assim como mais tarde outros seus seguidores, quem viria a descobrir nos anos 30 a penicilina, que se tornaria fundamental no combate a estas doenças infectocontagiosas, assim como a tão elevada taxa de mortes prematuras.
fonte: Amora Memorias e Vivencias d'Outrora do Prof. Manuel Lima
foto de Capa: Pormenor da capa do Almanaque d'O Mundo, 1910. Pintura de Alberto Souza. parlamento.pt
