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As Raizes de Amora

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

Os moinhos da Amora (1)

10.11.20, os amorenses
Os moinhos da Amora (1)

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Os moinhos de água eram, no final da Idade Média, um importante instrumento num período em que a circulação de moeda era escassa. Os cereais moídos substituíam-se, muitas vezes, à moeda sonante enquanto forma de pagamento. Além disso, o pagamento da moagem dos cereais era feito em espécie – em farinha. Ter um moinho era uma actividade lucrativa. Ter uma moagem que apenas dependesse das marés – 365 dias por ano – às portas de Lisboa era um negócio muito lucrativo.

 
Mas não tinha um moinho quem queria, apenas o dono da terra ( no caso concreto da Amora, em finais do séc. XV, estamos a falar da Ordem dos Carmelitas) podia construir o seu moinho, como é natural surgiam conflitos. A Crónica dos Carmelitas dá-nos conta de como surgiram e resolveram dois conflitos que envolveram moinhos no termo de Almada, concretamente na Amora.
 
O primeiro envolve um moinho que foi construído c. de 1493 por Braz Annes, criado e protegido da Infanta D. Beatriz de Portugal (cujo filho Manuel haveria de ser rei passados uns anos), Senhora de Almada. Digamos que Braz Annes fez uma construção ilegal na Marinha das Vacas, pois aí podia aproveitar a água doce proveniente de Sesimbra (a orografia era diferente da actual). Os Carmelitas apelaram para a Justiça que lhes deu razão e mandou demolir o moinho, mas a poderosa D. Beatriz intercedeu pelo seu criado e o moinho por lá ficou.
 
A Crónica dos Carmelitas dá-nos conta igualmente, de que um esteiro, conhecido por porto da Raposa, pertencente à Capela do Santo Condestável, foi aforado a João da Rocha para que ele aí pudesse fazer um moinho com quatro mós, sendo o prazo de execução da obra de dois anos.
Segundo o contrato (final do séc. XV ou início do séc XVI) em cada ano, durante “dous quinze anos”, ele deveria pagar, por cada mó, doze alqueires de trigo ao Convento. Acontece que João da Rocha vendeu o moinho a D. Gonçalo Coutinho e ,por morte deste, foi herdado por seu filho que, entretanto, também morreu.
 
A viúva, no seu testamento, concedeu a exploração do moinho aos religiosos dominicanos do Convento de S. Domingos de Azeitão devendo estes para além de celebrar duas missas por dia, não mencionando que as terras pertenciam aos Carmelitas razão pela qual estes processaram os Dominicanos de Azeitão por “se acharem intrusos e por estarem desfrutando de propriedade que não era sua”. Após anos na Justiça a sentença foi finalmente favorável aos Carmelitas.
O simples facto de estes moinhos - Marinha das Vacas e Raposa – fazerem parte da Crónica dos Carmelitas mostra a importância económica que estas instalações tinham mesmo para Ordens tão ricas e poderosas como os Carmelitas. Lembremo-nos que estamos em pela época da expansão. O interior do país despovoava-se à medida que Lisboa crescia. A cidade de Lisboa tornou-se uma das mais concorridas capitais europeias. Abastecer a capital pão e as embarcações de biscoitos fazia moer as mós e fazia enriquecer da Ordem.
 
Cf. Na imagem pormenor do mapa Portugalliae que olim Lusitaniae, novissima & exactissima descriptio, c. 1560, BN - publicada por Câmara Municipal de Almada.