Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

As Raizes de Amora

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

As Raizes de Amora é um espaço dedicado ao reencontro de amorenses, sua história, cultura e memórias.

Os Transportes em Amora no início do Seculo XX (1)

08.11.20, os amorenses
Os Transportes em Amora no início do Seculo XX (1)
 
Quarta Feira, 12 de Agosto de 2020
No que refere aos transportes que por aqui circulavam, no início do século passado, eram sobretudo as cavalgaduras e os bovinos, quem tomava a dianteira dos carros de tração animal. Carroças puxadas por muares e carretas, por juntas de bois, dominavam então os transportes de mercadorias ou mesmo de passageiros. A profissão de carreiro era exercida por muitos, que das matas e pinhais traziam madeiras e ramas de pinho e das quintas uma grande variedade de produtos relativos as atividades agrícolas.
Na Estrada Real que atravessava a freguesia de Amora, almocreves e outros caixeiros viajantes continuavam a transportar, com a ajuda da forca animal, produtos com destino ao Alentejo e outras regiões do sul do país. Segundo um registo ou nota de gado de 1919, verifica-se que nesta data, praticamente todas as quintas proprietários e industriais da freguesia de Amora, tinham os seus animais de tração, como era o caso de Manuel Luís de Carvalho, possuidor de 24 bois (doze juntas) e dois cavalos, ou de Jose Vicente de Oliveira, quinze bois e um cavalo.
fonte: Biblioteca Nacional Digital
A própria Fabrica dos Vidros de Amora tinha dois muares, certamente para poder fazer alguns transportes relativos à sua indústria. Diz-nos Raul Vindima que seu Pai Jose Vindima era cocheiro dos donos da Fábrica de Vidros de Amora (garrafas), indo muitas vezes a Cacilhas buscar e levar os seus patrões numa charrete.
 
O TRANSPORTE DE PESSOAS
 
Nos transportes de pessoas, nesta época, as famílias mais ricas, como era o caso do Dr. Bossa, de Cheira Ventos, do Conselheiro Custodio Miguel Borja, da Rua Direita, ou do já referido Manuel Luís de Carvalho, da Quinta da Princesa, tinham as suas Charretes puxadas por cavalos, mas a grande maioria das famílias menos apessoadas andavam normalmente a pé ou em alguns casos, de burro, o que nesse tempo, já era de alguma forma um sinal exterior de riqueza.
Conta-nos a Sra. Pastora Lira que ia de Amora para Cacilhas a pé, por dentro dos matos, tal como seus pais, os quais nunca chegaram a ter posses para comprar um burro.
Camioneta até ao Ano de 1935 não existiu. Nesta época, a própria correspondência (correio) chegava a cavalo.
Apesar de em meados dos anos 30, terem surgido os primeiros veículos motorizados, os transportes de tração animal foram dominantes, pelo menos até finais dos anos 40.
E interessante referir um cortejo de oferendas, feito a 14 de Novembro de 1948, onde participaram dez carroças e carros de bois, decorados com festoes e folhas de palmeira, os quais foram recebendo pelas quintas, comércios e fabricas da freguesia as ofertas que posteriormente foram leiloadas, em favor das obras da igreja de Nossa Senhora do Monte Sião.
Também muitos comércios feitos na freguesia, especialmente os de porta a porta, não dispensavam o auxílio das carroças e das bestas de carga.
A própria Junta de Freguesia de Amora tinha um carro de tração animal, para a recolha dos lixos.
O Sr. Joao Gomes da Costa alugava burros ou carroças, para quem quisesse, especialmente no fim de semana, deslocar-se as praias da Caparica ou da Fonte da Telha.
Nas festas populares não podiam faltar as sempre divertidas Cavalhadas.
 
A PRIMEIRA CAMIONETA DE PASSAGEIROS QUE PASSOU EM AMORA
 
Segundo os mais idosos, a primeira camioneta de transporte de passageiros que passou na Amora foi a do ZE DO MOINHO alcunha de Jose Vicente Moreira. Saia de Paio Pires, passava pelo Seixal, Amora, Corroios, com destino a Cacilhas e deve ter aparecido por volta de 1935 ou 1936. Com uma lotação de 20 a 30 passageiros, esta camioneta relativamente pequena, possuía motor avançado, o que dava a sua frente um formato sobressaído muito característico e as janelas não tinham vidros como as de hoje, eram mais semelhantes às dos elétricos de Lisboa. Quando chovia muito a água entrava pelas janelas, obrigando os passageiros a amontoarem-se no corredor. Para arranque, o motor não dispensava um frenético acionar de manivela.

Transportes em Camioneta.jpg

Camioneta da Beira Rio na carreira Paio Pires - Cacilhas. foto gentilmente cedida por Candido Augusto

Poucos Anos depois surgiu então a carreira da Empresa de Transportes Seixalense Lda., cuja camioneta foi apelidada de “batelão”, isto porque esta dita empresa também tinha ligação com os transportes fluviais, que do Seixal saiam para Lisboa. Diz-nos Joaquim Jota que apesar desta camioneta ser maior, cerca de 40 lugares, mais cômoda e mais bonita, mesmo assim as gentes de Amora não a preferiam, “a malta deixava-a passar e apanhava a outra”.
No final dos anos 40 a estrada do Correr de Água e da zona ribeirinha de Amora ficou tão degradada que os autocarros deixaram de vir a Amora. As pessoas que aqui moravam e queriam deslocar-se a Cacilhas, tinham de ir apanhar o transporte ou ao Marco Severino, próximo do Fogueteiro, ou então a Cruz de Pau. A camioneta subia a antiga Rua da Cordoaria das Paivas para a Cruz de Pau.
Em finais dos anos 40, a empresa do Zé do Moinho foi então comprada por a Adolfo dos Santos Silva, conhecido popularmente por Ti Adolfo, que acabaria por fundar a empresa de transportes BEIRA RIO Lda. No princípio dos anos 50 já a Beira Rio efetuava carreiras entre Paio Pires e Cacilhas, referindo o Jornal Tribuna do Povo, em noticia relativa ao ano de 1952, que nesta data, a Beira Rio Lda fez entrar ao seu serviço um belo autocarro de 42 lugares, com assentos recostáveis, que proporcionavam ótima comodidade em viagens longas.
Empresa de Transportes BEIRA RIO 1960
Sabe-se que pelo menos no Ano de 1954, as camionetas voltaram a passar no interior da povoação de Amora, pois neste Inverno e segundo notícia do mesmo jornal, a população local insurgiu-se contra a não existência de um abrigo para os passageiros, na paragem principal de Amora, localizada no Largo da Palmeira, hoje Largo Manuel da Costa, mas na altura ainda conhecido por Largo do Jacinto.

1960-Beira-Rio4.jpg

OS PROPRIETARIOS DOS PRIMEIROS AUTOMOVEIS PARTICULARES

Embora não haja muitas vezes consenso neste assunto, há quem diga que o primeiro carro que apareceu em Amora pertencia a uma das famílias locais mais abastadas, industriais e negociantes da arte dos vimes, a Família Trindade. O carro em questão pertencia a Raul Trindade, era um descapotável em grande parte, forrado de palhinha de vime.
Contudo existem outras pessoas idosas ou naturais de Amora, que afirmam que o primeiro carro desta localidade foi propriedade do Cristino, filho de Josué, que era proprietário de uma mercearia e taberna na Fonte da Prata, em frente a Mundet. Tratava-se de um Chevrolet castanho, que muitas vezes fazia serviços de aluguer, transportando a Arrentela ou ao Seixal pessoas que tivessem urgência nisso. O Cristino de Almeida Josué, para além de colaborar no estabelecimento comercial de seu pai, era igualmente trabalhador na Fábrica da Pólvora do Cabo da Marinha, onde acabaria por ser uma das vítimas mortais da grande explosão ocorrida em 1948.
Outro carro surgiria quase na mesma altura e que viria a ser também um dos primeiros a circular em Amora, foi o do Manuel Henriques Junior, filho de Manuel Henriques, proprietário de uma mercearia/taberna, situada no Largo do Coreto (Praça 5 de Outubro) e onde hoje se encontra o Restaurante Amorense.
Estes carros surgiram ainda durante os Anos 40, embora nos Anos 50 outras viaturas tenham começado a surgir cada vez com mais frequência, quase sempre pertencentes a comerciantes, ou a donos de quintas, como foi o caso do Sr. Santos, da Quinta do Património, do Sr. Simões, da Quinta do Vale da Achada ou ainda do Proprietário da Fábrica de Boquilhas da Cruz de Pau, o Sr. Diogo Ribeiro. De qualquer forma podemos dizer que durante os Anos 50, os miúdos ainda faziam da rua o seu campo de futebol e raramente tinham de parar o jogo, por se aproximar um automóvel.
 
fontes: “Amora Memorias e Vivencias d’Outrora” do Prof. Manuel Lima, Biblioteca Nacional Digital e foto gentilmente cedida por Candido Augusto