PRODUTOS CORTICEIROS PORTUGUESES LDA.
Raizes de Amora 13 de outubro de 2020
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Foi em meados dos anos 30 do século passado que a "União de Sucatas Lisbonense" vendeu à firma "Produtos Corticeiros Portugueses, Lda.", uma ampla fatia da antiga Quinta das Lobatas, onde nas primeiras décadas do século XX esteve instalada a "Companhia das Fábricas de Garrafas de Amora".
Veio também a ser neste espaço que a firma dos "Produtos Corticeiros Portugueses, Lda.", criada no ano de 1935, pelo cidadão espanhol Aureliano Solas Fonte e pelo cidadão norte-americano Melchior Marsá Borras, se instalou acabando mesmo por dar trabalho a alguns dos operários que, em tempos anteriores, tinham sido vidreiros.
Efectivamente, a 10 de Agosto de 1936, começava a laborar no referido espaço pertencente a esta freguesia de Amora, um novo ramo industrial, neste caso o sector das cortiças. Inicialmente aproveitando muitos dos edifícios ainda existentes, relativos a anterior indústria vidreira, como é exemplo o da embalagem das garrafas de vidro, e empregando de início pouca gente, apenas algumas dezenas de operários, isto se compararmos com a sua vizinha e conterrânea "Mundet & C.ª Lda.", esta fábrica dedicou-se em particular à produção de discos em cortiça.
(Apurámos também que António Manuel Viana Baptista - presidente da CMS entre 1936-1939 e dirigente da MP - foi gerente e accionista, desta fábrica em Amora que começou a laborar em 1936, sendo que a mesma seria em 1954 vendida à empresa «Queimado e Pampolim, Lda.», que permaneceria aberta até aos Anos 90".)
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- Grupo de trabalhadores da fábrica dos Produtos Corticeiros, no Bairro Operário da Amora, 3 de março de 1949 cedida por Sebastião Pinheiro.
Os discos ou "rondelles" (como também eram designadas) tinham aplicação posterior no forro de "caricas", aplicadas na capsulagem das garrafas dos refrigerantes ou cervejas e ainda também nas rolhas dos frascos relativos a medicamentos.
Num anúncio da revista Turismo, lançado pela fábrica em 1944, é possível constatar (ainda que em língua inglesa) os produtos que esta fábrica corticeira então produzia: "cork discs for crown stoppers." Nesta época, o escritório sede era em Lisboa, na Rua dos Sapateiros, n.° 15, 2.° andar.
Diz-nos Joaquim "Jota" que os dois gerentes da fábrica foram durante muito tempo os senhores "Madi" e "Gilberto", ambos de nacionalidade espanhola e moradores no prédio da Quinta da Maria Pires, situado em anexo à área produtiva da fábrica.
Esta fábrica dos "Produtos Corticeiros Portugueses, Lda.", que na Amora haveria de laborar com esta denominação até ao dia 1 de Outubro de 1954, chegou a empregar já nos últimos anos da sua laboração próximo de quatro centenas de trabalhadores, mantendo sempre a sua vocação original de produção de discos, em quantidades anuais que chegaram a atingir os 800 milhões de unidades.
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ALGUMAS "BENESSES" SOCIAIS DADAS PELA EMPRESA, NESSE TEMPO RECUADO
Segundo notícia do jornal Tribuna do Povo, datada de 20 de Agosto de 1951, nesse ano, a firma "Produtos Corticeiros Portugueses, Lda." concedia ao seu pessoal uma semana de férias, no mês de Agosto, tendo a fábrica interrompido a sua laboração neste período, o que muito veio a agradar a todos os trabalhadores.
Entre as regalias que dava aos filhos dos seus operários, cita-se a ocupação de tempos livres, que muitas vezes lhes proporcionava, como refere a notícia datada de 5 de Agosto de 1952, publicada igualmente pelo mesmo jornal: "Desde segunda-feira, dia 1, que se encontram na colónia balnear infantil, na Foz do Arelho, mais seis crianças, por conta da firma Produtos Corticeiros Portugueses, Lda."
Neste mesmo ano, a 22 de Setembro, a firma corticeira, para usufruto dos seus operários, inaugura alguns melhoramentos no refeitório fabril, cuja notícia é relatada nesta data também pelo já referido jornal Tribuna do Povo:
"Além dos operários que moram perto da fábrica e têm conveniência em tomar as refeições ao meio-dia com a família, há outros a quem convém almoçar dentro da fábrica. Para estes já a fábrica possuía um refeitório, que se a princípio chegava para os que desejavam utilizá-lo, agora já era insuficiente.
A digna gerência, representada em Amora pelo senhor Juan Madi, resolveu construir a cozinha em divisão à parte, afim de que o refeitório ficasse mais amplo. Agora a cozinha é ligada ao refeitório por uma porta em arco, que dá ao conjunto uma impressão estética agradável.
Na visita que fizemos às obras recentemente inauguradas, fomos gentilmente recebidos pelo senhor Madi. Foi sua intenção proporcionar com este melhoramento aos operários, mais asseio e conforto. E conseguiu-o.
Na cozinha prepara-se a comida para os operários, que apenas trazem os géneros para cozinhar, e aquece-se a daqueles que a trazem feita.
Depois os operários sentam-se aos pares, para almoçarem em mesas de mármore. Para que nada faltasse, houve o cuidado de lhes irradiar música por altifalantes. Isto demonstra o interesse que merece a gerência pelo bem dos que a servem."
No que refere à solidariedade social para com a própria população de Amora, também a firma manifestou desejo de ajudar os mais necessitados, contribuindo ainda no ano de 1952, com um donativo de cinco contos e O trabalho de um pedreiro (operário da fábrica) para a construção do patronato local, onde pudessem ser recebidas algumas das crianças mais carenciadas da freguesia.
Com o mesmo intuito de ajudar a proporcionar aos seus trabalhadores melhores condições de vida, também em Setembro de 1953, na referida fábrica, era criado um curso de educação de adultos, do sexo feminino, pois eram especialmente as mulheres que registavam os mais altos índices de analfabetismo.
Esta firma, contudo, não continuaria por muito mais tempo a sua laboração em Amora, sendo a fábrica vendida a novos proprietários, como nos refere o jornal Tribuna do Povo, a 17 de Outubro de 1954: "Por venda, a fábrica de Amora, da firma "Produtos Corticeiros Portugueses, Lda." que abrira há 18 anos, mudou para a firma "Queimado e Pampolim, Lda." no último dia 1 de Outubro.
Num comovente gesto de simpatia e nobreza, o diretor e sócio gerente Sr. Ernesto Miranda, veio despedir-se pessoalmente dos seus 400 operários, apertando no final a mão de todos, sem distinguir o operário mais baixo do empregado de maior categoria."
fonte: “Amora Memorias e Vivencias d’Outrora” do Prof. Manuel Lima
fotos: Gazeta dos Caminhos de Ferro e ecomuseu municipal