Queimado & Pampolim, Lda.
06.11.20, os amorenses
QUEIMADO & PAMPOLIM LDA.
Raizes de Amora 13 de outubro de 2020

Sr. José Ferreira Queimado
A firma "Queimado & Pampolim, Lda.", apesar de só ter passado a administrar o património da antiga fábrica "Produtos Corticeiros Portugueses, Lda.", a partir de 1 de Outubro de 1954, fazendo a continuidade da laboração nos mesmos edifícios, com os mesmos operários e com as mesmas máquinas, já existia desde o ano de 1941, tendo sido fundada nessa data, na povoação do Montijo.
A este respeito, escreve o jornal Tribuna do Povo, de 4 de Dezembro de 1954:
"A firma "Queimado & Pampolim, Lda.", fundada em 30 de Junho de 1941, pelos senhores José Ferreira Queimado e Romérito Rodrigues Pampolim, com um capital inicial de vinte mil escudos, desenvolveu-se extraordinariamente, num relativo espaço de tempo, como exportadora, mercê do esforço de todos os seus componentes, com especial destaque para o seu sócio gerente Sr. José Ferreira Queimado.
"A firma "Queimado & Pampolim, Lda.", fundada em 30 de Junho de 1941, pelos senhores José Ferreira Queimado e Romérito Rodrigues Pampolim, com um capital inicial de vinte mil escudos, desenvolveu-se extraordinariamente, num relativo espaço de tempo, como exportadora, mercê do esforço de todos os seus componentes, com especial destaque para o seu sócio gerente Sr. José Ferreira Queimado.
José Ferreira Queimado (Alenquer, na Pocariça, um pequeno lugar da freguesia de Olhalvo, a 23 de Dezembro de 1913 e faleceu em Lisboa, 23 de Dezembro de 2007) foi um proprietário, industrial, empresário, político e presidente do Sport Lisboa e Benfica.
Como empresário, destacou-se nos negócios da cortiça e do turismo. Foi Secretário e Vice-Presidente do Grémio dos Industriais de Cortiça do Centro. Presidente do Conselho Geral da Caixa de Previdência do Pessoal da Indústria Corticeira. Desempenhou, ainda, as funções de Vogal da Junta Nacional da Cortiça, Procurador ao Conselho Geral do Grémio dos Industriais de Arroz, Secretário-Geral, em Representação de Portugal, na Confédération Européenne du Liège, Vogal da Comissão de Normalização da Cortiça junto da Inspecção-Geral dos Produtos Agrícolas e Industriais, Vogal da Junta Nacional da Educação no Ministério da Educação Nacional, Vogal do Conselho Geral da Caixa de Previdência dos Empregados e Operários da Indústria do Arroz. Na área desportiva foi eleito Presidente da Direcção do Sport Lisboa e Benfica em duas ocasiões, a 16 de Junho de 1966 e a 23 de Junho de 1978, e Presidente da Direcção do Lisboa Ginásio Clube. Na qualidade de Dirigente do Lisboa Ginásio Clube, foi Procurador à Câmara Corporativa na IX Legislatura, de 1965 a 1969, pertencendo à 4.ª Subsecção - Educação Física e Desportos, da II Secção - Interesses de Ordem Cultural.
Este último, desenvolvendo progressivamente a sua atividade, em 31 de Julho de 1948, admitiu como seu sócio o senhor Manuel da Luz Afonso, constituindo ao mesmo tempo sociedade com a firma "M. F. Afonso, Lda.", com sede e fábrica no Montijo, iniciando desta forma, uma nova fase das suas atividades, como industrial, atividade esta, completa agora com a aquisição da fábrica de discos de Amora, antiga propriedade da firma, "Produtos Corticeiros Portugueses, Lda.".
José Ferreira Queimado possui ainda em New York, sob a firma "Queimado & Stern, Inc.", de que é também sócio Paul Stern, uma casa que se dedica a vários negócios de importação e de exportação, cuja importância é enorme, dado o grande montante de suas exportações para os U.S.A. Desde 1950, superintende a fábrica de rolhas Percy Ellis, com cerca de 120 operários e empregados.

A sua importância pode ser apreciada pelos seguintes números, que bem atestam uma existência reveladora de processos comerciais honestos e sã administração dos seus sócios. Exportação em 1941: cerca de 2 mil toneladas e em 1953 cerca de 23 mil toneladas. Número de empregados e operários em 1953: cerca de 800."
Foi este empresário empreendedor, José Ferreira Queimado, industrial corticeiro e igualmente presidente do "Lisboa Ginásio Clube", quem fundamentalmente com a sua experiência viria a modernizar e a ampliar as velhas instalações da Quinta das Lobatas, em Amora, transformando uma indústria em grandes dificuldades, no início dos anos cinquenta, numa indústria que viria a tornar-se de grande sucesso, ao longo dos anos 60.
A importância regional deste estabelecimento fabril passou a ser de tal maneira considerável, que entre outras atividades, tornou-se habitual a promoção de torneios de futebol, onde se disputava o cobiçado troféu (taça) "Queimado & Pampolim, Lda."

Entrada da Fábrica Queimado & Pampolim Lda. em Amora
Em Maio de 1960, escrevia o jornal Tribuna do Povo relativamente a uma visita feita por jornalistas, ao concelho do Seixal e acompanhada pelo senhor Presidente da Câmara:
"Seguiu-se uma volta muito rápida à florescente fábrica da firma "Queimado & Pampolim, Lda.", onde mal deu tempo para observar as principais fases do fabrico de discos de cortiça, também conhecidos por pastilhas, em que esta firma é especializada, desde a fundação da fábrica, ainda na posse dos antigos proprietários.
O regime da sua laboração é disso uma clara prova. Este produto requer cortiças especiais e conta-se nas encomendas quase sempre por milhões de unidades."
O INÍCIO DA PRODUÇÃO DE ROLHAS PARA EXPORTAÇÃO

Secção da escolha das rolhas
Foi no ano de 1961, depois da construção de novas oficinas, que a firma "Queimado & Pampolim, Lda." viria a iniciar o fabrico de rolhas, o que até então não tinha acontecido. Para esse fim, foram admitidos muitas dezenas de novos trabalhadores, nesse tempo muitos deles provenientes do Alentejo, aumentando significativamente o número global dos operários da fábrica.
No mês de Junho de 1962, a empresa viria no entanto a sofrer um rude golpe, com o falecimento do seu sócio, o senhor Romérito Rodrigues Pampolim, estimado pelos seus trabalhadores, tendo em conta a sua generosidade e compreensão. Tal facto, não fez, contudo, desmerecer os ânimos de José Ferreira Queimado, que levou por diante o sucesso desta indústria, numa evolução de prosperidade.
Segundo um anúncio da firma, que continuou a manter a designação de "Queimado & Pampolim, Lda.", relativo ao ano de 1964, podemos saber que a morada do seu escritório sede era nesta data na Rua Áurea, nº200, 3º andar, em Lisboa.
Refere ainda o mesmo anúncio, que dentro da gama dos produtos e exportações efectuadas estavam incluídos, discos naturais e "hermetic", rolhas, cortiça virgem, refugo, aparas, cortiça em prancha e outras especialidades em cortiça natural.
Já na década de setenta, a "Queimado & Pampolim, Lda.", era a terceira maior empresa corticeira do concelho do Seixal, depois da "Mundet & C.ª Lda" e da "C.G.Wicander, Lda.", empregando próximo dos 600 operários, tendo-se tornado, em curto prazo, numa das cem mais importantes empresas de Portugal, no que refere à exportação de produtos em cortiça.
Segundo relatório da própria empresa, no ano de 1978, para além da produção de discos, produzia a mesma cerca de sete milhões de rolhas por mês.

Armario com amostras de trabalhos
Neste sector das rolhas e consoante "organograma da própria fábrica", existiam ao todo dezasseis secções, que se passam a mencionar seguidamente: "rabaneação, brocagem, lixa, lavagem, secagem, escolha manual, escolha electrónica, escolha em tapetes, moldagem, boleação, ponta limpa, marcação, rebaixamento, contagem de rolhas, esterilização, capsulagem mecânica e embalagem."

Entre as marcas de bebidas espirituosas, que utilizavam no seu engarrafamento as rolhas produzidas por esta fábrica corticeira de Amora podemos citar, (de acordo com catálogo da fábrica) entre outros, os seguintes vinhos do Porto: " "Sandeman", "Offley", "Cintra", "Dow's", "Taylor's", "Croft", "Warre's", "Robertson's", "Diez" e "Calem"."
Para além destas, (refere a mesma fonte) muitas outras bebidas generosas que foram igualmente enrolhadas, com vedantes fabricados nesta empresa, podendo ser referidas como exemplos:
" "Drambuie", "Barbeito", "Tia Maria", "Royal Macieira Old Brandy", "Rozès", "Gammel Dansk Bitter Dram", "Paul Masson", "Sebastiant wine Yards", "Stone's London", "George & J.G. Smith", "Andres Cellars", "Almaden", "Espanola", "John Regg Scotch Whisky", "Great Western", "William's & Humbert's Dry Sack" e "Harveys of Bristol"."
Todas estas rolhas de cortiça possuíam cabeças de massa plastificada, com rotulagem alusiva à respectiva bebida, e encontravam-se antigamente expostas num mostruário, existente no interior das próprias instalações da fábrica.

No que refere ao sector ou departamento dos discos ou "rondelles", podem ser referidas as seguintes secções: "rabaneação, laminagem, brocagem, escolha em tapetes ou escolha electrónica."
As duas secções, ultimamente referidas, estavam sujeitas a um controlo de qualidade, que permitia garantir as boas características dos produtos.
Por outro lado, o sector das rolhas e o sector dos discos eram precedidos e servidos pela secção da prancha, onde era feita a escolha da cortiça e a montagem das paletes, tendo em vista a posterior cozedura da mesma. Para efetuar esta última operação, a fábrica possuía caldeira e tanques de cozimento.
Numa outra secção, a fábrica produzia ainda granulados de cortiça, em duas linhas de moagem, a partir de desperdícios, "rendas", "barrigas" e "broca", assim como de outras cortiças de refugo.
Da sua secção de manutenção faziam parte uma serralharia, uma carpintaria e uma oficina de eletricidade.

Departamento dos discos ou "rondelles"
EQUIPAMENTO SOCIAL E ORGANIZAÇÃO INTERNA DA CORTICEIRA
No que diz respeito ao apoio prestado aos trabalhadores, garantia a fábrica, para além dos serviços administrativos, uma bem equipada cozinha, um refeitório, assim como sala de duches, para quem os quisesse tomar, após largar o serviço e antes de regressar a casa.
No que refere a acidentes de trabalho, e segundo relatórios da empresa, aconteciam em média cerca de 50 por ano, especialmente no sector da rolha, os quais maioritariamente eram socorridos na enfermaria ou no posto médico ali existente.

Interior da Queimado & Pampolim em Amora
Nem sempre as condições de trabalho eram as melhores, devido essencialmente à falta de climatização da fábrica e à existência de grande número de poeiras de cortiça. Para combater este último problema, a muitos operários foram distribuídas máscaras, ainda que normalmente não fossem usadas.
Segundo alguns indicadores retirados do "Balanço Social" desta fábrica, referente ao ano de 1986, nesta unidade industrial de cortiças, a "Queimado & Pampolim, Lda." situada em Amora, trabalhavam nesta data 436 pessoas, das quais 373 pertenciam ao efetivo permanente e 63 ao número dos contratados a prazo.
Deste total de 436 trabalhadores, 131 eram homens e 305 mulheres, constatando-se serem estas mais do dobro dos homens.

Interior da Queimado & Pampolim em Amora
Relativamente aos níveis etários dos trabalhadores, a sua idade média era de 39 anos, donde se conclui que, para além de empregar alguma gente nova, muitos eram os que já tinham idades avançadas. Quanto ao nível de antiguidade dos trabalhadores da fábrica, ele era em média de 22 anos, verificando-se, pois, que, grande número de trabalhadores ali exercia há muito a sua profissão, sendo cerca de 67 os que tinham mais de 25 anos de trabalho efetivo na empresa.
Considerando agora as habilitações académicas destes trabalhadores corticeiros, constata-se que, maioritariamente, cerca de 365, o que corresponde a 82%, não tinham concluído o 1° Ciclo do Ensino Básico, ou seja, não fizeram o antigo exame da quarta classe. Só cinco, em 436, possuíam o Ensino Secundário completo.
Quanto à taxa de absentismo verificada ao longo deste ano de 1986, (também segundo valores apresentados pela empresa no seu "Balanço Social" referente a este ano) sabe-se que, pelas causas de acidente de trabalho, doença, maternidade, assistência inadiável e outras faltas justificadas, se registou um valor de 16% de absentismo.

Interior da Queimado & Pampolim em Amora
No que diz respeito a este último ponto, é interessante verificar que a fábrica "Queimado & Pampolim Lda", no seu regime de faltas, tinha em conta a assistência a membros do agregado familiar, e considerava também em relação às mulheres, terem as mesmas, direito a dois dias remunerados por período menstrual, desde que apresentassem declaração médica. No caso de falta de declaração médica haveria justificação, mas não remuneração.
A CRISE DE FINAIS DOS ANOS OITENTA E O ENCERRAMENTO DA FÁBRICA
Já no final dos anos oitenta, a fábrica começou a ter dificuldades de colocação dos seus produtos no mercado, onde o plástico cada vez mais se impunha, e a sua produção, tal como o número efetivo de trabalhadores, foi decrescendo continuamente atingindo-se, nesta época, produções mensais de 3 toneladas de rolhas, 25 toneladas de discos e 80 toneladas de granulados.

Interior da Queimado & Pampolim em Amora
Sem conseguir contrariar a crise, que cada vez mais afligia esta indústria, em meados do ano de 1992, por falta de viabilidade económica e com os salários dos seus trabalhadores em atraso, a firma entra em falência, fechando então por completo e definitivamente os seus portões.
Algum tempo depois, todo o património da antiga corticeira, incluindo o terreno onde estava implantada, foi vendido em hasta pública e comprado pela atual sociedade, sua proprietária.
Em 2003, já pouco mais restava que algumas instalações desocupadas e ao abandono, onde apenas eram visíveis no meio de escombros, alguns testemunhos da antiga atividade corticeira, tal como velhos documentos escritos, alguns dos quais ainda utilizados para poder redigir este texto.

Trabalhadores procedendo à escolha de pranchas

Trabalhadores procedendo à escolha de pranchas

Fardos de pranchas

Interior do escritório da empresa Queimado & Pampolim (Lisboa)
Os ex funcionários da Queimado & Pampolim Lda. reunem-se para um Jantar Anual e teem um facebook onde socializam com ex colegas: https://www.facebook.com/meloguerreiro
fonte: “Amora Memorias e Vivencias d’Outrora” do Prof. Manuel Lima
fotos: ecomuseu municipal