A Quinta da Princesa e Infanta, que se insere na freguesia de Amora, concelho do Seixal, localiza-se na margem direita da “Vala de Santa Marta”. É abrangida pela REN, facto que se deve tanto à sua inserção na “Faixa de proteção ao estuário”, bem como à sua proximidade ao “Sapal dos viveiros da Vala de Santa Marta” e do “Sapal de Corroios/Talaminho”. 2 Dos seus cerca de 30 ha, uma pequena parcela, 5.74ha, está inserida dentro da RAN.3 Na sua envolvente ainda subsistem alguns terrenos agrícolas e manchas de mata. A sudoeste encontra-se o bairro social da Quinta da Princesa, a sul algumas indústrias, e a nordeste os estaleiros navais do Talaminho. Identificam-se ainda algumas quintas na sua evolvente, como a Quinta de Cheira Ventos, nas proximidades do bairro social, em decadência, e a Quinta do Talaminho, da qual só subsistem alguns vestígios. O relevo, onde se insere a quinta, é de declive suave, tendo exposições a norte, este e oeste. Estas exposições, bem como a proximidade da água e a influência das brisas, contribuem para a amenidade local nos períodos quentes.
História
Segundo o que conseguimos apurar, o que hoje reconhecemos como a Quinta da Princesa e Infanta terá resultado da junção de quatro propriedades, ao longo do século XVIII e XIX, no “sítio do Rocio do Lugar de Amora”.1
A primeira propriedade, que foi adquirida em 1790, designava-se por “Quinta Grande do Rocio de Amora”.2
Esta quinta foi depois ampliada pela incorporação de três outras propriedades, em 1794 pela “Quinta dos Padres de S. Domingos”3 ,
em 1836 pela “Quinta dos Padres Irlandeses”4 e em 1838 pela “Quinta do Frota” 5 ,
tendo sido posteriormente integrados outros terrenos “como courelas de vinhas, pinhais, domínios diretos de sapais e baldios (…), entre outros.”6 Estas aquisições e ampliações foram feitas pela Infanta, depois Princesa do Brasil, D. Maria Francisca Benedita e, posteriormente, por sua sobrinha (e sobrinha-neta), a Infanta D. Isabel Maria.
A antiga “Quinta Grande do Rocio de Amora”7 terá sido a primeira aquisição feita pela Princesa-Viúva do Brasil, no sítio antigamente designado por Rocio da Amora. A princesa-viúva adquiriu esta propriedade em 1790 , “que a passa a designar pela sua «Quinta de Regalo» ou Quinta da Infanta e Princesa.” 9
A segunda quinta a ser adquirida foi a “Quinta dos Padres de S. Domingos”10.
Em 1348 era descrita como já possuindo vinhas. 11
Credictos da foto - www.geocaching.com
Em 1459 eram referenciadas as vinhas, os pinhais e o lagar.12
Em 1644, a quinta, por testamento, passa para os Religiosos de São Domingos, e era constituída por vinhas, lagar, e cavalariça.1 Estes religiosos mantiveram a posse da mesma até 1794, altura em que foi “sub-rogada por um Padrão de Juro com a Infanta D. Maria Benedita”.2
Em 1829, com o falecimento da Princesa-Viúva do Brasil, as casas da sua quinta ficam em testamento para a Infanta D. Isabel Maria de Bragança, sua sobrinha, e as “fazendas”, por sua vez, são doadas ao Hospital de Inválidos Militares de Runa por si fundado.3
A “Quinta dos Padres Ingleses”4 é adquirida em 1836 pela Infanta D. Isabel Maria. Numa escritura de 15 de junho de 1836 são referidos os principais produtos desta propriedade, como o pomar, as vinhas e as oliveiras. 5
Também em 1836, a Infanta compra as “fazendas” deixadas por sua tia ao Hospital de Inválidos Militares de Runa. 6
A antiga “Quinta do Frota”7 corresponde ao atual núcleo principal da Quinta da Princesa e Infanta, e foi a última propriedade comprada pela Infanta D. Isabel Maria em 1838. 8
A Infanta, em 1865, deixa escrito em testamento que a quinta, bem como outras propriedades anexas, fossem para os Missionários Ingleses do Colégio de S. Pedro e S. Paulo. Todavia, em 1877, um ano após a morte da Infanta, o Infante D. Augusto, filho de D. Maria II, adquire a Quinta da Princesa e Infanta, como se pode ler na “escritura de venda lavrada em 8 de Agosto de 1877, (…), sendo os bens vendidos «um prédio rústico que S. A. possuía conhecida pela denominação de «Quinta de Amora», (…) que consta de palácio, ermida, adega e mais oficinas, quintas, vinhas, terras de semeadura, pinhais, (…)»”.9
O mesmo infante adquiriu por esta altura, em 1882, a Quinta de Cheira Ventos, e juntou ambas as propriedades. 10
Enquanto pertença do Infante, a quinta foi palco de um conjunto de alterações. D. Augusto trouxe grande dinâmica à quinta, uma vez que mandou plantar vinhas e pinhais, ajardinou a área envolvente aos edifícios de habitação, adquiriu gado, estabeleceu uma coudelaria, mandou abrir poços e secar pântanos, etc. 1 Até a produção de vinho da quinta, que tinha sido profundamente afetada com as pragas, voltou novamente a ganhar alguma relevância. A antiga producção de vinho era apenas de oito pipas, e D. Augusto conseguiu elevar esse numero a sessenta. 2
A quinta durante o século XIX foi muito frequentada pela família real e outros membros da corte, que procuravam aqui o refúgio de Lisboa, enquanto espaço de recreio e vilegiatura. A família real, para além da sua ligação às quintas de Amora, era detentora da “Quinta Real do Alfeite” 3 . A Quinta da Princesa e Infanta era provida de um pequeno porto, o que permitia a ligação direta à capital. Em 1920 a propriedade estava arrendada a Manuel Luiz de Carvalho, “incutindo-lhe grande dinamismo rural no cultivo de cereais e leguminosas, na produção de vinho e de azeite.”4 Em 1942 a quinta é adquirida pelo Eng.º Francisco José Anjos Ribeiro Ferreira, marido de D. Ana de Jesus Maria de Figueiredo Cabral da Camara, descendente da Infanta D. Ana de Jesus Maria de Bragança. Estes proprietários fundaram na quinta a “Sociedade Agrícola da Quinta da Princesa”, onde promoveram um conjunto de produções diversificadas, como a vinha, o olival, os citrinos, os cereais, as hortícolas, entre outros, preservando a identidade rural desta paisagem. 5 A pedido de D. Ana de Jesus, foram também realizadas obras, acréscimos e reconstruções na quinta, que ficaram sob projeto do Arquiteto Raúl Lino.6 Na quinta identificámos algumas intervenções que remetem para essa altura, pelos materiais utilizados.
Fontes:
1 Tribuna do Povo, Ano VI - n.º 195, s.l., 1959, p.1.
2 Rui Mendes, “A Sul do Esteiro: Três Sítios e Quintas Históricas entre Corroios e Amora: Do Castelo em Corroios, Da Princesa no Rocio da Amora e D Paço do Infante em Cheira-Ventos”, in Atas 1º Encontro Sobre Património de Almada e Seixal, Almada, Centro de Arqueologia de Almada, 2013, p.19.
3 Ibidem, p.20.
4 Ibidem.
5 Ibidem.
6 Ibidem.
7 Ibidem.
8 Curiosamente a quinta foi adquirida dois anos após a morte de seu marido, D. José, o que poderá indicar que a infanta, e princesa, terá adquirido esta unidade em busca do refúgio.