![Fabrica SOCER, Comercio e Industrias de Resinas SA Fabrica SOCER, Comercio e Industrias de Resinas SA]()
Antiga Fabrica de Resinas SOCER, na Quinta do Serrado em Amora. Aspeto da trasfega das resinas dos bidoes para as Tulhas. Foto de 1988.
A antiga fábrica de resinas de Amora, pertencente à empresa "Socer, Comércio e Indústria de Resinas, S. A.", localizou-se até há bem pouco tempo (1998) em terrenos que faziam parte da antiga Quinta do Serrado, próximo da Escola Secundária de Amora e da Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Monte Sião.
Com cerca de meio século de permanência por estas paragens, a Fábrica de Resinas de Amora instalou-se neste local em meados dos anos 40, como propriedade da "União Resineira Portuguesa".
Só mais tarde, 1954, surge então, ocupando as mesmas instalações, a recém-constituída empresa Socer, que já nesta época possuía outras unidades industriais espalhadas pelo país, o que lhe conferia o estatuto de empresa nacional polinucleada, no domínio dos produtos resinosos.
Com sede e escritório central na Avenida António Augusto de Aguiar, em Lisboa, a Socer, nos anos 70 e 80 mantinha em laboração, para além da fábrica de Amora, as fábricas de Ermesinde (Porto), Alferrarede (Abrantes) e Pombal, esta última continuando ainda hoje a laborar na produção dos produtos resinosos.
A ORIGEM DAS RESINAS QUE CHEGAVAM À FÁBRICA DE AMORA
Sendo nesta época a Socer a única fábrica de resinas situada a sul do Tejo, encontrava-se a mesma associada à exploração de todos os pinhais existentes nos vales do Tejo e do Sado, onde se incluíam as manchas verdes da península de Setúbal e nalguns casos particulares localizadas no próprio território da freguesia de Amora.
Chegaram a ser utilizadas pela Socer as resinas colhidas nos pinhais do Muxito, Belverde ou Verdizela.
O Resineiro Antonio Ramalho na recolha da Resina.Pinhal do Caldas. Ano 2000.
Nas matas, a Socer tinha a trabalhar para si, direta ou indiretamente, largas centenas de resineiros (500 a 800).
As campanhas, que visam a recolha da resina, ontem tal como hoje, ocorriam normalmente de Março a Novembro, realizando-se no período de tempo mais quente e favorável, que inclui o próprio Verão. Sucessivas operações, como o desencarrascar dos pinheiros, a colocação das bicas e respectivos púcaros, assim como a ativação da exsudação com pasta sulfúrica, antecedem a colheita da resina.
A altura de maior produção coincide com os meses dos maiores calores, quase sempre Julho e Agosto.
Apesar do pinheiro-bravo ser a espécie resinosa mais abundante por estas paragens, também os pinheiros-mansos eram muitas vezes resinados, produzindo inclusivamente maior quantidade e melhor qualidade de resina.
Nos tempos em que a fábrica de Amora se encontrava em plena laboração, o consumo anual de resinas atingia de 2000 a 5000 toneladas.
AS LINHAS DE PRODUÇÃO NA FÁBRICA DE AMORA, PROCESSOS E PRODUTOS FINAIS
À fábrica da Socer, na Amora, chegavam as resinas em bidões de 200 litros, os quais eram colocados a escorrer para dentro das tulhas, tendo em vista a sua posterior destilação.
Para que se pudesse realizar o referido processo, possuía a fábrica duas caldeiras geradoras de vapor, as quais provocavam o elevado aquecimento das matérias-primas.
Aos poucos, e após longo percurso, a resina ia sendo desdobrada nos dois produtos finais. Um mais espesso e denso, o pez, em cor de mel e armazenado em bidões de 250 kg ou sacos de 50 kg. Outro mais fluido e incolor, a aguarrás, armazenada em depósitos de grandes dimensões.
As quantidades relativas extraídas para cada um destes dois produtos eram de cerca de 70%, para o primeiro, e de 15%, para o segundo, registando-se uma quebra de 15% sobre o volume das resinas.
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Nas instalações da fábrica propriamente dita, incluindo sectores de produção e administrativo, trabalharam durante muitos anos aproximadamente 30 trabalhadores.
A GRANDE DIVERSIDADE DE PRODUTOS, QUE TÊM POR BASE O PEZ E A AGUARRÁS
Ainda que não sejam diretamente produzidos pela fábrica, é interessante referir toda uma gama de numerosos produtos, que são derivados do pez e da aguarrás e obtidos posteriormente por outras indústrias, os quais nos são tão familiares no nosso dia-a-dia.
O pez constitui a base de produção de grande parte das colas, adesivos, fitas-cola, elastómeros, ceras depilatórias, graxas, sabões e alcatrões.
Por sua vez, a aguarrás pode ser utilizada no fabrico de diversificados produtos, como é o caso dos óleos essenciais, das ceras, dos vernizes, dos perfumes ou mesmo de alguns combustíveis. Lembremos que as próprias pastilhas, que as crianças mastigam, podem ser obtidas com larga percentagem de pez.
A EXPEDIÇÃO DOS PRODUTOS E SUA EXPORTAÇÃO
Os produtos eram expedidos da fábrica de Amora em camiões cisterna, caso da aguarrás, ou em bidões de 250 kg, acondicionados dentro de contentores de 20 toneladas, caso do pez.
Do total da produção, só 10% eram destinados ao consumo nacional, visando os restantes 90% a exportação para variadíssimos países do mundo, chegando inclusivamente Portugal a ser o primeiro exportador mundial destes derivados da resina, particularmente de pez. De entre esses países importadores salientam-se pelas quantidades adquiridas a Alemanha, os Estados Unidos da América e o Japão.
A CRISE INSTALADA E O FECHO DA EMPRESA
No ano de 1992, a fábrica da Socer, na Amora, acabaria por deixar de laborar definitivamente com resinas, ficando, no entanto, a funcionar, até 1998, como entreposto abastecedor do mercado interno nacional para os produtos que fabricou durante largos anos, agora produzidos apenas noutras instalações da mesma empresa, como era o caso das existentes no Pombal.
Também no período entre 1992 e 1996, a Socer de Amora enveredou pela produção de embalagens industriais, em alternativa à sua atividade tradicional.
As razões que levaram esta unidade transformadora a tomar tal atitude devem-se particularmente a uma redução brusca na produção nacional de resinas, por motivos diversos, onde se destacam as grandes áreas ardidas e o acentuado encarecimento do custo da mão-de-obra em Portugal.
Outros países como o Brasil, a China ou a Indonésia, onde a mão-de-obra regista valores muito baixos, passaram a surgir nos mercados internacionais com resinas económicas, ainda que, quase sempre, de menor qualidade.
A competição feroz e a lei da oferta e da procura acabariam por não tornar possível à Socer a manutenção da sua antiga fábrica de Amora, restando hoje no seu lugar a chaminé, que foi preservada, e um novo hipermercado.
fonte: "Memórias e Vivencias D'Outrora" do Professor Manuel Lima editado em 2006