![Sociedade Portuguesa de Explosivos Lda.(SPEL), Cab Sociedade Portuguesa de Explosivos Lda.(SPEL), Cab]()
A fábrica de explosivos, designada por SPEL, "Sociedade Portuguesa de Explosivos Lda.", foi fundada em 1928 na Quinta do Cabo da Marinha, junto da zona ribeirinha de Amora.
Foram seus sócios fundadores, com um capital social de 20 mil escudos, Artur de Sousa, Pedro de Barros Rodrigues, Artur Gomes Bebiano e António Martins.
Antecedendo a instalação desta fábrica nos referidos terrenos de Amora, é sabido da existência, já em 1918, no mesmo local, de uma pequena oficina de pirotecnia, pertencente apenas a Artur de Sousa, a qual teria estado na origem do nascimento da SPEL.
No seu primeiro período de vida, a "Sociedade Portuguesa de Explosivos, Lda." empregava apenas algumas dezenas de trabalhadores, e produzia essencialmente cartuchos de pólvora, com base no clorato de potássio, cheios à mão e destinados ao desmonte de pedreiras e abertura de minas.
Instalada numa área total de 70 mil m2, a fábrica de Amora foi, aos poucos, ampliando as suas oficinas e aumentando o número de operários, empregando já 107 trabalhadores no ano de 1948.
Nestas instalações, foram sendo produzidos sucessivamente explosivos pulverulentos, do tipo "Amonite", explosivos plásticos, do tipo "Gelamonite", "Nitroglicerina" e "Dinamite".
No ano de 1948, sucedeu, na oficina de misturação, um grande acidente, que vitimou 27 trabalhadores, enlutando grande parte da população de Amora. Foi este fatídico acidente uma das principais razões que motivou a deslocação das instalações da Quinta do Cabo da Marinha em Amora, para a região de Santa Marta de Corroios, onde a fábrica foi reconstruída, segundo um projeto moderno e obedecendo a novas regras de segurança.
EM 1948, UMA GRANDE EXPLOSÃO, VESTE AMORA DE LUTO
"Eram treze horas e quarenta e cinco minutos do dia 24 de Novembro de 1948. Amora toda estremeceu!
Um estrondo estonteou não só os amorenses como também as terras vizinhas. Gritos, desmaios, choros e prantos já andam por toda a parte.
Que seria? Uma horrível explosão na fábrica da pólvora!!! Os sinos dobram aflitivamente, as sereias lançam seus gritos dolorosos e arrepiantes, as fábricas param e num movimento quase irrefletido, almas corajosas largam o seu serviço e correm em socorro dos infelizes operários da pólvora (...) Mortos contam-se vinte e sete. A terra está de luto, lenços pretos pela cabeça das mulheres, filhas e mães.
![Nova explosao em 1956 Enlutou Amora de novo.jpg Nova explosao em 1956 Enlutou Amora de novo.jpg]()
Na Amora, agora tudo é preto, tudo é escuro, como o fumo produzido pela explosão, que matara tanta gente honrada." É assim que nos relata a então ainda muito jovem amorense, Maria Morais de Oliveira, um dos acontecimentos mais tristes da história da sua freguesia natal, em texto escrito na época e não publicado.
Fundada em 1928, a "Sociedade Portuguesa de Explosivos Lda." instalou-se inicialmente no lugar do Cabo da Marinha (Amora), em terreno anexo à zona ribeirinha do Tejo.
Em 1948, numa área com cerca de 70 mil metros quadrados, coberta de eucaliptal, onde se distribuíam oficinas de laboração, escritórios, armazéns e paióis, trabalhavam então 107 trabalhadores.
Foi neste cenário, onde se produziam, em meados do século XX, diversos tipos de explosivos, como "amonite", "gelamonite", "nitroglicerina" e "dinamite", que tal acidente trágico viria a acontecer e a marcar durante muitas décadas as memórias locais.
É sobretudo em homenagem a estes corajosos trabalhadores da pólvora, filhos de Amora, que perderam a vida nos seus locais de trabalho, sustento de suas famílias, que recordamos tais factos históricos.
Segundo descrição feita, na altura, ao jornal O Século, por um dos feridos internado no Hospital de Almada, o senhor Manuel Fernandes, encarregado de oficina: "Havia todo o cuidado nas diferentes secções, como era natural, a desgraça deu-se na oficina de fabrico de "amonite", uma pasta perigosíssima feita com nitroglicerina.
Esta substância é de grande sensibilidade ao choque. Deve ter sucedido que qualquer pedacito (uma grama bastava) se introduziu na máquina onde se faz a mistura daquele produto com nitrato de amónio e birito líquido, por meio de palhetas (...)tantas precauções e afinal foi aquele horror.
Dentro da máquina havia 50 quilos de dinamite (...) eu estava a uns dez metros, não sei como me encontro vivo."
Conforme nos refere a citação anterior, tudo teria começado na oficina de encartuchamento da "amonite" (explosivo destinado ao desmantelamento de pedreiras), onde qualquer atrito esteve, ao que parece, na origem da deflagração.
Na sequência deste primeiro rebentamento, viria a explodir posteriormente também a secção da parafinagem, onde se encontravam a trabalhar dez mulheres.
A 50 metros do local da explosão, encontrava-se no escritório, que ficou completamente destelhado, o mestre da fábrica, Celestino da Cunha Ribeiro.
Este, ligeiramente ferido, foi um dos primeiros a vir até junto do portão da fábrica, na procura de socorros.
Diz quem se encontrava nas redondezas do acidente que foram dois enormes estrondos, seguidos de uma nuvem de fumo negro que se projetou no espaço, a trinta ou quarenta metros de altura.
![Encartuchamento de Explosivos na SPEL do Cabo da M Encartuchamento de Explosivos na SPEL do Cabo da M]()
A explosão, que foi sentida em Lisboa, estilhaçou, quase na totalidade, as vidraças das modestas casas da vizinha povoação de Amora, algumas a escassas centenas de metros.
A população deste núcleo urbano, na altura pouco mais de 1500 pessoas, entrou em estado de choque, temendo o pior para os seus familiares, que ali trabalhavam.
Foram os operários da fábrica de cortiças "Mundet & C." Lda.", com instalações situadas nas imediações da explosão, que, num gesto de solidariedade, primeiro acorreu em socorro das vítimas.
Após sentido o rebentamento, foram parados todos os maquinismos da referida fábrica e um grupo de 50 a 100 homens, de mãos empoeiradas pela cortiça, correram para o local da catástrofe, num gesto de abnegação inexcedível.
![Enfermeiro Julio Ramalhete.jpg Enfermeiro Julio Ramalhete.jpg]()
Foi na ambulância da "Mundet", cujos bombeiros não tiveram sequer tempo para vestir as fardas, que foram transportados os primeiros feridos.
De imediato, e com risco da própria vida, os operários desta fábrica corticeira combateram o fogo, propagado ao eucaliptal existente dentro do próprio perímetro da fábrica, evitando que as chamas atingissem outras secções, incluindo um enorme depósito de nitroglicerina, que poderia fazer desaparecer toda a povoação de Amora, caso explodisse.
Temendo pela dimensão da tragédia, o motorista de uma camioneta da empresa "Beira-Rio", que na altura passava por perto e sentiu o abalo da explosão, convidou os passageiros a sair e transportou também alguns dos primeiros feridos ao Hospital de Almada.
Apesar dos telefones terem sido afetados, pouco tempo depois acudiram ao local diversas corporações de bombeiros, com ambulâncias e prontos socorros, para transporte de feridos e combate ao incêndio. Estiveram presentes os bombeiros voluntários de Almada, Cacilhas e Barreiro, assim como algumas ambulâncias da Cruz Vermelha, provenientes de Lisboa.
Do Corpo de Marinheiros do Alfeite vieram cerca de 90 praças, comandadas pelo capitão-de-fragata, Horácio Pereira.
Com risco da própria vida, populares, bombeiros e marinheiros removeram os destroços, à procura das vítimas.
Nos locais das explosões, tinham ficado enormes covas, rodeadas por montes de escombros. Fortíssimas emanações de amoníaco obrigavam os socorristas a cobrir, com lenços, a boca e o nariz.
Os corpos das vítimas, muitos quase irreconhecíveis, foram transportados para as imstalações da "Igreja de Nossa Senhora do Monte Sião".
Infelizmente, oito anos mais tarde, ano de 1956, a indústria de explosivos, voltaria a vestir a Amora de luto.
Alguns feridos ligeiros foram tratados no posto de primeiros socorros da "Mundet & C.ª Lda.", onde o enfermeiro chefe, Júlio Ramalhete e seus auxiliares lhes deram toda a atenção.
Para o Hospital de Almada foram encaminhados cerca de 20 feridos e para a Clínica do Doutor Elvas, na Cova da Piedade, seis. Do Hospital de S. José, em Lisboa, veio propositadamente sangue, para que se pudessem efetuar as necessárias transfusões.
Em visita efetuada ao local da catástrofe e ao Hospital de Almada, o então Ministro do Interior, Eng.° Cacela de Abreu, prometeu auxiliar as famílias das vítimas.
![Ministro do Interior ouvindo um dos Feridos 25 Nov Ministro do Interior ouvindo um dos Feridos 25 Nov]()
O senhor Presidente da República, Craveiro Lopes, apresentou publicamente condolências às famílias das vítimas.
Todas as coletividades de Almada, Seixal, Amora e Corroios, em sinal de luto, içaram as suas bandeiras a meia haste.
Vinte e sete mortos e vinte e sete feridos, muitos destes últimos marcados para sempre, acabou por ser o trágico balanço deste terrível acidente.
Como a maioria das vítimas mortais (vinte) eram mulheres na casa dos trinta anos, algumas das quais com cinco, seis ou mesmo oito filhos, muitas foram as crianças que ficaram órfãs e muitas foram as lágrimas derramadas por uma população amargurada, cujo luto vestiu de negro a tradicionalmente branca localidade de Amora.
Em homenagem aos laboriosos e corajosos operários aqui ficam os nomes de quantos, nesta data, morreram no seu posto de trabalho:
Albertina Santos, António Guerra, Bernardino Lopes, Cândida Gonçalves, Carolina Teixeira, Cristino de Almeida, Dulce da Encarnação, Encarnação Lopes, Gertrudes Metelo, Henriqueta Conceição, Jesuíno Lourenço, João dos Santos Júnior, Laurinda de Jesus, Leonel Azevedo, Lúcia Gomes, Maria Amélia Ribeiro, Maria Ana Geada, Maria da Conceição Pires, Maria Eugénia Abril, Maria Francisca Silveira, Maria Olívia Monteiro, Maria Ressurreição Silva, Maria Rosa, Manuel Quintas, Olinda Almeida, Olinda Henriqueta e Rosa de Jesus.
Fonte texto: “Memórias e Vivencias D’Outrora” do Prof. Manuel Lima
Fonte fotos: Manuel Lima, SPEL, Tribuna do Povo